Estratégia

Baixa velocidade em vias derruba número de acidentes

Estudo da Bloomberg Philanthropies, solicitado pelo Diário, apontou queda de 18% a 50% nos acidentes

Nos locais onde houve redução de velocidade, o trânsito se tornou mais calmo ( FOTO: NATINHO RODRIGUES )
01:00 · 25.08.2018 por João Lima Neto - Repórter

Entre reclamações e elogios, a redução de velocidade em vias com alto índice de acidentes vem sendo uma solução eficaz na Capital. Desde 2014, a atual gestão municipal vem implementando essa e outras medidas para reduzir o número de pacientes que entram com traumas no Instituto Doutor José Frota (IJF). Em levantamento solicitado pelo Diário do Nordeste, a Bloomberg Philanthropies, empresa responsável por intervenções de tráfego na Capital, apontou queda de 18% a 50% dos acidentes com carros, motos e pedestres em vias como Avenida Beira-Mar, Engenheiro Santana Junior, Monsenhor Tabosa, Leste-Oeste e Rua Fausto Cabral.

Não é difícil encontrar um pedestre que já viu ou foi vítima de acidente de trânsito. Há 30 anos, o comerciante Amilton Caetano, 67, vende alimentos em um dos trechos mais movimentados da Avenida Washington Soares. Em três décadas, ele diz já ter presenciado três mortes na via. "As pessoas atravessam a pista correndo e não esperam os carros passarem. Depois que diminuíram a velocidade diminuiu, mas ainda acontece". Segundo ele, diariamente, motoristas freiam em cima de pedestres que passam correndo na via, mesmo existindo grades de proteção, faixa de pedestre e botão de parada para acionar os semáforos.

O pensamento em atravessar uma rua ou avenida correndo pode ser mais rápido do que um carro ou moto a 60Km/h, mas o impacto real de um pedestre nesta velocidade condena a ideia de fazer a travessia. A Organização Mundial da Saúde (OMS), recomenda que vias urbanas tenham velocidade de até 50Km. Em Fortaleza, as ruas se dividem em 40Km, 60Km e 80Km. Apenas a Avenida Leste-Oeste possui, exatamente, velocidade estabelecida em 50Km.

O motorista Paulo Célio Costa, 62, tem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) desde os 18 anos. Como motorista, diz ter visto diversas mudanças no trânsito, mas nenhuma tão eficaz quanto a mudança de velocidade. A opinião é contrária ao condutor de motociclista Paulo Santos, 32. O entregador trabalha em uma farmácia do bairro Cocó. "Sinto meu trabalho prejudicado. A gente que trabalha com tempo sofre com essas mudanças", diz o motociclista.

 

INFO

Mudança

Após a Prefeitura de Fortaleza ter implantado a readequação da velocidade em vias da cidade conhecidas pela alta taxa de acidentalidade viária, o número de atropelamentos e de acidentes com vítima foi reduzido significativamente. Na Avenida Leste-Oeste, por exemplo, o quantitativo de atropelamentos caiu 63%, diminuindo de 11 para quatro. Já em relação aos acidentes com vítima, a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC) registrou uma queda de 54%.

Segundo a OMS, a redução da velocidade de 60 para 50Km/h aumenta em dez vezes a chance de a pessoa atropelada de sobreviver. Embora ainda esteja no período educativo, análise preliminar já indica que o condutor tem respeitado o novo limite, já que apenas 2,5% do fluxo veicular que trafega por esta avenida excede os 50Km/h. Na Avenida Engenheiro Santana Júnior, cuja velocidade passou de 60Km para 40Km, o número de acidentes com vítimas caiu em 50%. Já na Fausto Cabral foi verificada uma queda de 18%; na Avenida Monsenhor Tabosa, uma diminuição de 11%; e, na Avenida Beira-Mar, de 45%.

Causas

Dante Rosado, coordenador executivo da iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global, explica que a velocidade é apenas um dos aspectos que causam acidentes. O celular vem se mostrando um grande problema nos atuais índices.

"Os acidentes de trânsito normalmente não acontecem apenas por conta de um comportamento isolado. É uma sequência de fatores que vão se combinando e acabam na ocorrência de acidente. A velocidade é um dos principais fatores de riscos que a própria OMS considera e tem prevalência na maioria dos casos registrados. O celular vem em segundo lugar nos Centros Urbanos. Existe um novo uso dos smartphones que é a distração causada por mensagens instantâneas".

Sobre o uso de outras medidas para reduzir a velocidade, Rosado conta que a mudança de 60Km para 40Km, por exemplo, chega ser mais eficaz do que introduzir uma passarela. "Gera mais vantagem por ser mais rápido na implantação e por não gerar custo de obra. Outra medida é a implantação de novos semáforos para garantir o cumprimento da lei de forma mais imperativa. A introdução de passarelas tem que ser por trechos rodoviários específicos. Em zonas urbanas, o principal elemento é o semáforo para trabalhar junto com a faixa de pedestre".

Victor Pavarino, consultor de segurança no trânsito da Organização Pan-Americana da Saúde/OMS, explica que a velocidade é, de fato, um dos principais fatores de risco no trânsito, mas alerta para outras dicas de segurança. "A direção sob efeito de álcool é um fator significativo. O uso adequado de capacetes para motociclistas, de cintos de segurança e de mecanismos de retenção para crianças não evitam acidentes, mas podem minimizar as consequências quando eles ocorrem".

A OMS tem se atentado também a outros fatores ditos "emergentes", como a direção distraída (principalmente por smartphones) e a condução sob uso de substâncias psicoativas, além das bebidas alcoólicas.

Entrevista com Flávio Cunto

"Ainda é muito cedo para confirmar os  dados percentuais"

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Professor do Departamento de Engenharia de Transportes da UFC

É eficaz mudar velocidade em vias urbanas de Fortaleza?

Acidentes são eventos aleatórios e raros. Ainda é muito cedo para confirmar os dados percentuais, mas essa mudança é apontada em estudos internacionais, como os da Organização Mundial da Saúde (OMS). Eles já comprovaram que a redução de velocidade diminui em até três vezes os óbitos ocasionados por colisões de carros e motos. Gera tempo para frear. Precisamos de cerca de 1,5 segundos para reagir. Além de ter esse tempo, a velocidade menor reduz o impacto e oferece mais chances de salvamento. Para além dos números mostrados, comprovadamente, faz uma diferença grande a redução de velocidade em vias urbanas.

A OMS recomenda velocidade de 50Km em vias urbanas. A Capital suporta essa mudança?

Fortaleza tem porte e deveria seguir isso. É uma recomendação mundial. Já temos a bondade que o nosso Código de Trânsito Brasileiro (CTB) tem a adoção de limites de velocidades diferentes por tipo de via. A legislação estabelece velocidade de 80Km/h nas vias de trânsito rápido, 60Km/h nas vias arteriais, 40Km/h nas vias coletoras e 30Km/h nas vias locais.

Reduzir velocidade não gera congestionamentos?

Fiz ume estudo rápido na Avenida Presidente Castelo Branco, a Leste-Oeste. Se a gente conseguisse, pois existem semáforos, cruzar a via toda em uma velocidade de 60Km/h e depois fizesse esse mesmo percurso com velocidade de 50Km/h, o atraso é de apenas três minutos. Essa linha de argumentação que atrapalha a fluidez por diminuir não é valida. Em primeiro lugar, na maioria do tempo a velocidade média das vias urbanas de Fortaleza é muito abaixo de 60Km/h ou 40Km/h. A velocidade média no trânsito da capital cearense, na hora de pico, é de 20Km/h e pode chegar facilmente a 18Km/h. Essa linha de argumentação que atrapalha fluidez do tráfego é fraca. Os argumentos dos benefícios são cientificamente comprovados. Na ótica do motorista, sempre haverá problema. Mudança é questão de hábito e requer tempo.

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