Paquera

Atualizado, jogo da sedução altera-se com o uso de aplicativos

Dos casuais aos mais duradouros, encontros se multiplicam com ferramentas de relacionamento. Cupidos virtuais levam em conta escolhas do usuário, mas, assim como na vida real, também podem falhar

01:00 · 26.05.2018 / atualizado às 14:22 · 28.05.2018 por Nícolas Paulino - Repórter

Como deve ser o jogo ideal para garantir o sucesso de uma paquera? Há quem diga uma boa lábia, um bom jantar ou uma boa dança. Em tempos de conectividade rotineira no celular, porém, muitas pessoas têm recorrido a uma etapa diferente: os aplicativos de relacionamento. Informando os próprios dados e definindo as preferências de parceiros e parceiras, os pretendentes buscam a ajuda dos cupidos virtuais para conhecerem acompanhantes de curtição no fim de semana ou, quem sabe, companhias para ligações mais longas.

Se as pessoas têm especificações diferentes, assim também são as ferramentas, adaptadas a diversas situações. O OurTime, por exemplo, é especializado em pessoas acima de 50 anos que buscam relacionamentos duradouros. Já o Divino Amor é direcionado para evangélicos. Existe ainda o SingleParentMeet, especializado em pessoas solteiras que têm filhos. Sem falar no 3nder, no qual casais e solteiros podem procurar interessados em experiências a três.

Há também opções para encontros homoafetivos. O G Encontros e o Grindr, por exemplo, são voltados ao público masculino gay. Mulheres em busca de mulheres para relacionamentos usam apps como Femme ou Wapa. Contudo, o líder mundial para encontros, de qualquer sexualidade, é o Tinder, presente em mais de 190 países. Procurada, a empresa optou por não informar dados específicos do Ceará por conta da política de privacidade praticada.

Em Fortaleza, um dos usuários é o estudante de Gastronomia Lucas Meneses, 23, para quem o aplicativo foi uma forma de descobrir "um novo mundo" após assumir a homossexualidade. "Eu era mais tímido e queria conhecer, primeiro, alguma amizade; depois, alguém legal", diz. Com a ferramenta, destaca que é mais fácil de descobrir quem mora perto ou frequenta lugares com gostos parecidos com os dele. "Se você não gosta do papo, manda a real. Se fosse pessoalmente, a gente ficaria mais retraído em dizer", compara.

Em tela, todo um processo se desenrola: primeiro, a escolha de quem mais o atrai; depois, talvez, o match (curtida retribuída), que nem sempre é exitoso. "A taxa de sucesso vai muito dos desejos do momento. Eu posso dar match em 12, mas às vezes, no papo com oito, não rola aquela química toda. Você repara primeiro na beleza, mas, depois, percebe que a pessoa não corresponde ao que você espera amorosamente", descreve. Se der certo, o diálogo evolui para conversas em aplicativos de mensagem e, talvez, para um encontro num bar, "pra prolongar o papo".

Imprevisível

Engana-se quem acha que tudo nesse universo é casual. O Tinder também foi o primeiro passo para o atual relacionamento da advogada Grazielle Gomes, 28. Há um ano e três meses, ela divide a vida com o namorado, que viu pela primeira vez pela tela do celular. "Como eu tinha uma amiga em comum com ele, fui perguntar a ela sobre a pessoa. Daí, a gente começou a se falar por redes sociais", remonta. O match mesmo não teve, já que ela o "perdeu" no aplicativo - deletado quando os dois começaram a sair juntos.

"Para o mundo atual, isso é facilitador. Acho que muita gente tem certa timidez pros primeiros contatos e utiliza esse mecanismo para uma aproximação. Hoje, é difícil as pessoas se esbarrarem numa biblioteca e casarem", brinca. O aplicativo, conta, foi ainda mais efetivo para uma amiga, que conheceu o marido num deslizar de tela. Hoje, os dois têm uma filha. "Foi realmente um case de sucesso", ri.

O universitário Afonso Filho, 25, por sua vez, utiliza o Grindr, que informa ao usuário quem está disponível para conversa num raio de até 5Km. "Para alguns, é um aplicativo para conhecer novas pessoas; para outros, é só sexo, e para outras, é de momento, como é meu caso. Só é complicado porque, às vezes, a outra pessoa já começa uma conversa mandando 'nudes'", afirma, revelando que, hoje, "até para curtição está muito difícil".

"Eu vivo desinstalando e instalando porque tem horas que cansa. Contam-se nos dedos as pessoas com quem dava pra marcar algo", diz o universitário. Afonso acredita ainda que "a pessoa se acomoda" ao uso dos aplicativos, além de ser "difícil conhecer alguém assim, ao acaso". O alto grau de investimento psicológico também é apontado por Lucas Meneses como dificultador do uso prolongado dos apps.

"Depois desse joguinho de dar like e dislike, você sente a falta da atração presencial, de ver a pessoa à sua frente", conta. Mas, passada essa impressão, ele também alerta: é preciso estar atento a perfis falsos, uma vez que alguns usuários se escondem por trás das fotos de outras pessoas. O ideal, para o estudante, é checar as redes sociais do pretendente. No mais, "se a pessoa for boa de papo, dá pra fazer um face-to-face".

Potencialização

Segundo o professor de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), Robson Braga, que orienta um projeto sobre o impacto de aplicativos nas experiências da cidade, as duas formas de comunicação têm características distintas. Na mediada pelos apps, há a potencialização do tempo e do espaço, com a sensação de instantaneidade e de encurtamento de distâncias. Já a física implica numa "combinação de sensorialidades" formada pelos atos de ver, ouvir, cheirar e, talvez, tocar. "Isso torna a relação interpessoal bem mais complexa", salienta.

Contudo, ele rebate o pensamento "pessimista" de que as tecnologias têm afastado as pessoas do contato face a face, já que, em alguns casos, os encontros reais são estimulados. "Alguns procuram por serem tímidos, outros por considerarem que é mais cômodo ou econômico. Há que ache que é mais fácil de gerenciar a imagem pública, pois, no aplicativo, os outros veem suas fotos e um texto. Assim, você vai construir uma imagem estratégica, eliminando algumas informações e destacando outras", analisa.

Fique por dentro

Beleza não é prioridade, aponta pesquisa

Para 70% dos entrevistados no Estudo dos Solteiros 2017, do Match Group LatAm, o principal critério para encontrar um parceiro ou parceira nos aplicativos de relacionamento é alguém com quem se possa compartilhar os mesmos valores. Um bom papo e pessoas que sejam inteligentes ficaram empatados, com 51% das respostas. Beleza ficou apenas em quarto, com 20%, e "ter a mesma situação financeira" em quinto, com 18%.

A pesquisa ouviu 4.800 usuários em todo o Brasil, descobrindo que sábado e domingo são os dias preferidos por eles e elas para se dedicarem à busca de um novo parceiro. E, nos smartphones, costumam fazer isso mais durante o dia (57%) que à noite (53%). O Estudo mostra que, quando um pretendente vasculha as redes sociais do "alvo", busca principalmente fotos (80%), interesses em comum (70%) e curtidas e comentários (49%).

No primeiro encontro, muita coisa também pode dar errado. Segundo o levantamento, os campeões em "queimação de filme" na primeira saída são: responder mensagens no celular (55%), falar pouco (47%), olhar muito para outras pessoas no local do encontro (43%) e atender ao celular durante o date (38%).

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