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Arte Urbana ganha força na Capital e adentra territórios

Entre as vertentes possíveis, o grafite e outras técnicas de pintura são as mais presentes em espaços públicos da Capital, trazendo vida e sentido à paredes e muros.

01:00 · 30.06.2018 por Renato Bezerra - Repórter
Manifestações que retratam a história de um lugar, narram um fato ou homenageiam o indivíduo. Trabalhos que fazem alusão à grande metrópole, denunciam ou propõem o diálogo, trazendo desde desenhos ou intervenções simples até formas complexas ou abstratas. Com abrangência diversa, a arte urbana em Fortaleza vem ganhando força ao longo dos últimos anos, numa pluralidade de contextos e sentidos, com criações que adentram cada vez mais em todos os territórios da cidade. 
 
Entre as vertentes possíveis, o grafite e outras técnicas de pintura são as mais presentes em espaços públicos ou privados da Capital. Viabilizados por coletivos de arte ou artistas independentes, são obras que dão vida e sentido à paredes e muros, como a força de um respiro em meio a uma Fortaleza atribulada.
 
É do Conjunto Ceará, por exemplo, que o painel "Dandaras Correndo Em Seus Campos de Girassóis", pintado no muro da Vila Olímpica do bairro, traz uma mensagem de respeito e amor ao próximo, assim como uma reflexão para as consequências do preconceito. Numa referência à Travesti Dandara - morta em fevereiro de 2017, na região - a artista Ingra Rabelo, por meio do projeto Urbano Arte, teve como objetivo retratar um ambiente onde Dandara poderia descansar e florir em paz.
 
“Como trazer a reflexão sobre o assunto ao público de estudantes, frequentadores da Vila Olímpica e moradores do bairro, sem tratar a violência com violência? Não só retratar uma Dandara, mas várias. Em sinal de resistência do movimento LGBTQ frente ao preconceito, que mata. Um campo, não de concentração, mas de girassóis. Flores em uma visão otimista do futuro, em que o direito de viver quem somos é assegurado a todos”, diz Ingra.
 
Para a artista, que tem em sua linha estética as perspectivas sobre o ponto de vista de um corpo, o poder de interferência da arte urbana na cidade parte do uso do cotidiano para estabelecer uma comunicação com as pessoas, sejam por meio de ações em micro ou macro escala, obtendo reações subjetivas.
 
Impactos
 
Nessa linha, impactos positivos também surgem a partir dos trabalhos realizados pelo Acidum Project, coletivo de arte urbana referência no Estado. No bairro Passaré, o mural pintado nas paredes do Instituto Beatriz e Lauro Fiuza (IBLF) trouxe um destaque à própria comunidade enquanto instrumento de mudança social, na avaliação da coordenadora da Organização Não Governamental (ONG), Sílvia Valente. 
 
“Para mim, como moradora do bairro, esse trabalho vem para mostrar um território de oportunidades, que é o que a gente busca. Traz uma serenidade e uma reflexão daquilo que se pode alcançar, e o melhor é que a comunidade respeita o que foi feito”, comenta Sílvia. 
 
Distante dali, em uma esquina da Rua Visconde de Cairu com a Avenida César Cals, na Praia do Futuro, a proposta foi de transformação do espaço público. Por meio do grafite da literatura de cordel e uma ação de paisagismo, o artista Bruno Spoteink, também por intermédio do projeto Urbano Arte, deu nova cara ao local, antes usado para descarte irregular de lixo.
Entre os elementos utilizados, objetos que incentivam a ocupação do espaço, para a alegria da aposentada Rita de Cássia, 75, que agora tem onde sentar e descansar à sombra, no intervalo de suas caminhadas diárias. “Aqui nessa esquina sempre foi muito estranho, mas que bom que as coisas mudaram”, comemora
 
Com essa mesma proposta, os muros da Escola Municipal Nilson Holanda receberam a intervenção do artista Daniel Chastinet. Antes brancas e pichadas, as paredes outrora utilizadas como depósito de lixo, deram lugar a uma obra que remete à xilogravura, tendo como inspiração desenhos dos cadernos infantis dos próprios estudantes da instituição.
 
No Curió, por sua vez, o trabalho do artista José Victor Ferrer trouxe um trecho da canção "A Paz", de Roberto Carlos. Com onze cores no mural criado na Rua Odilon Guimarães, a obra faz referência às onze vítimas da chacina da Grande Messejana, em novembro de 2015, tentando promover o diálogo com os moradores e trazendo para o local o pedido de paz. 
 
Outra mudança significativa sofreu uma pequena vila na Praia do Futuro. As dez casas receberam o projeto 'Vila Cósmica, o Caminho das Cores', dos artistas urbanos Rimon Guimarães e Zéh Palito. Para a dona de casa Joana Fernandes da Silva, residente em uma das moradias, a intervenção artística fez o humilde lugarejo ser enxergado por quem passa por ali. "Ficou uma visão muito bonita e o interessante é que cada casa recebeu uma arte diferente", comenta.  
 
Abrangência
 
Permeando fronteiras que fragmentam a cidade, a arte urbana está, hoje, por toda a capital cearense, das periferias ao Centro, conforme aponta a artista urbana e Mestra em Artes pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Ceci Shiki. Como coloca, trata-se de um movimento que interfere na paisagem urbana, a medida que esta é modificada na sua forma estrutural, com a construção de viadutos e rotatórias. 
 
“O Festival Concreto de Arte Urbana também tem trazido artistas de várias partes do mundo e suas intervenções têm sido realizadas de forma descentralizada, abarcando diferentes regionais de Fortaleza”, destaca.
 
Para Shiki, intervenções artísticas no espaço urbano são capazes de ativar olhares sensíveis para o próprio cotidiano, como uma espécie de interrupção no fluxo caótico da cidade, às vezes de forma mais singela e às vezes de caráter mais direto.
 
Criadora do Projeto Narrativas Possíveis e Mestranda em sociologia pela UFC, Alice Dote, acredita que, em diferentes bairros e localidades, o caráter da arte urbana pode sofrer variações, a partir das diversas experiências da cidade.
 
Podem variar, conforme exemplifica, entre mensagens de movimentos políticos ou protestos, ou recados de amor e violência policial, percebendo-se uma melhor recepção de algumas expressões em determinadas localidades. “De qualquer forma, as diversas expressões da arte urbana têm uma dimensão política que não pode ser ignorada. Em maior ou menor nível, guardam um caráter de alteridade, de confronto, de choque, de transgressão, ao mesmo tempo que emitem uma mensagem que, às vezes, escancara mazelas sociais. É potente o fato de esses escritos mostrarem-se na rua, pois, nessa dimensão coletiva, produzem um efeito de não passividade naquele que os olha e até mesmo provocam outras formas de participar da vida na e da cidade”, afirma. 

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