Aridez

Arborização precária em Fortaleza reduz qualidade de vida na Cidade

Enquanto a OMS recomenda 12m² de área verde por habitante, na Capital, a média é de apenas 4m²

00:00 · 25.05.2014
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No bairro Aldeota, a Rua Monsenhor Catão, no cruzamento com a Rua Beni de Carvalho, chama a atenção pela grande quantidade de árvores que cobrem a via
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Uma das principais vias da Capital, a Avenida Santos Dumont, que recentemente teve árvores retiradas para que fossem realizadas obras do binário, conta com pouca arborização no sentido praia ( Fotos: Fernanda Siebra )
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Na Avenida Washington Soares, no trecho entre o Salinas e o Fórum Clóvis Beviláqua, o cenário é completamente diferente. Frondosas árvores proporcionam sombra a transeuntes, em virtude de ações de iniciativa privada

De fundamental importância para os grandes centros urbanos, a arborização, além de proporcionar conforto climático, contribui para diminuir a poluição sonora, visual e do ar, oferecendo uma melhor qualidade de vida à população. É também um convite para que as pessoas ocupem os espaços públicos, sejam eles parques, praças ou as próprias ruas, que tornam-se menos inóspitas.

Em Fortaleza, porém, leitos de rios, margens de lagoas, dunas fixas e manguezais vêm perdendo espaço, em uma velocidade assustadora, para a expansão urbana. Frondosas árvores de ruas e avenidas também estão desaparecendo para que sejam realizadas obras de mobilidade urbana, tornando ainda mais árido o clima da Capital.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda o índice mínimo de 12 m² de área verde por habitante na área urbana. Em Fortaleza, no entanto, a média está bem abaixo do preconizado. De acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), são apenas 4 m² de área verde por habitante. Já o Mapeamento Arbóreo de Fortaleza, estudo elaborado pela Universidade Estadual do Ceará (Uece) e divulgado pela Prefeitura em dezembro de 2012, aponta que a Capital conta com 100,7 km² de área verde, o que representa cobertura de 32,43% do território.

Com aproximadamente 49,53% de cobertura arbórea, a Secretaria Executiva Regional VI (SER) é a com maior área verde da Capital. É nela também que se localiza o bairro mais arborizado, no caso o Edson Queiroz. Já a Secretaria Regional do Centro apresenta 12,41% - a menor taxa registrada.

Compensação

Acostumada a percorrer a cidade a pé, sobretudo no bairro em que mora, na Parquelândia, a estudante Gabriela Fonseca, 19, reclama da falta de árvores em Fortaleza, o que prejudica as suas caminhadas em decorrência do forte sol da cidade. E apesar de afirmar que medidas realmente têm que ser tomadas para melhorar o trânsito da cidade, afirma que não observa, por parte do poder público, nenhuma forma de compensar as árvores que estão sendo retiradas.

Na visão de José Borzacchiello, professor titular do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza é demasiadamente precária em termos de arborização. "O verde privado, aprisionado em quintais e áreas institucionais criava a impressão de uma cidade mais verdejante. Atualmente, contudo, o processo acelerado de ocupação do solo e as mudanças de uso têm favorecido a derrubada de frondosas mangueiras, imensos coqueirais, pés de seriguelas, sapotizeiros, entre outros".

As mudanças fazem com que a paisagem de muitos bairros seja desoladora. "Os quintais foram impermeabilizados. Na arborização urbana, as poucas ruas com cobertura vegetal ostentam árvores raquíticas e esquálidas que enunciam a falta de controle e cuidado público. A paisagem criada é de uma aridez única, típicas de cidade de clima frio que vivem em busca do sol. Imagine aquela enorme massa asfáltica fervilhando sob o nosso sol escaldante e nenhum abrigo. E as pobres das árvores, aquelas raquíticas de tão maltratadas, certamente morrem ou morrerão de maus tratos ou desgosto".

O especialista defende que, antes de tudo, Fortaleza deve contar com um Plano Diretor de Arborização que traduza a governança ambiental. "Imagine nossas ruas arborizadas com árvores de floração diferenciada no calendário, garantindo ruas floridas o ano todo", idealiza. Borzacchiello reforça que um bom plano e paisagistas competentes podem transformar esta cidade, de aparência inóspita, em um verdadeiro jardim.

Fernanda Rocha, arquiteta, urbanista e professora da Universidade de Fortaleza (Unifor) salienta que a Capital não tem muito do que se orgulhar com relação à arborização. Ela observa que a cidade tem perdido em quantidade crescente e o pouco que se tem feito é de qualidade bastante questionável. "É sempre constrangedor admitir o quanto os nossos dirigentes são omissos e pouco comprometidos com este tema", critica.

Bem-estar

No que diz respeito ao paisagismo nas condições climática de Fortaleza, destaca a arquiteta e urbanista, as árvores são um elemento essencial, não apenas por questões estéticas, mas, principalmente, como elementos que estruturam ambientes, promovendo o encontro e a socialização, repercutindo positivamente no bem-estar dos cidadão.

Para fazer frente a esta realidade, Fernanda defende que seria necessário atuar em diversas frentes. Por meio de ações educativas que ajudem a sensibilizar os cidadãos de todas as idades para a sua importância, de respeito aos instrumentos legais que a cidade dispõe, buscando aprimorá-los cada vez mais e, principalmente, cobrando de gestores e órgãos da administração municipal e estadual o compromisso de cumprí-los.

Duas mil mudas deixaram de ser doadas

Empreendimentos que envolvem a derrubada de árvores na Capital devem, antes de fazer o corte, pedir autorização da Prefeitura. Até dez espécies, a solicitação pode ser feita à respectiva Regional, acima dessa quantidade à Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma). Após dada entrada no pedido, a Prefeitura irá indicar quantas árvores devem ser replantadas ou doadas ao Município, como forma de compensação. Neste ano, porém, o órgão verificou que várias compensações não estavam sendo cumpridas e, pelo menos, duas mil mudas não foram doadas à Prefeitura.

Águeda Muniz, titular da Seuma, diz que o órgão já começou a cobrar essas árvores. Ela informa que elas vão para o horto, fortalecer o banco de árvores de Fortaleza. Em relação ao estudo divulgado em 2012, sobre o Mapeamento Arbóreo de Fortaleza, a secretária destaca ele está servindo como ponto de partida para que a atual gestão realize um inventário arbóreo propriamente dito, para que sejam traçadas políticas públicas.

Plano de Arborização

No último dia 23, a Prefeitura realizou a primeira oficina de Plano de Arborização de Fortaleza - instrumento de planejamento das ações relacionadas à cobertura vegetal da cidade.

Águeda destaca que o plano será feito com a colaboração da população. "São as pessoas que vão dizer onde realmente está precisando de áreas verdes", salienta. Paralelamente a ação, ela afirma que está sendo elaborado o inventário. "A proposta é de que, no fim de 2015, esse inventário esteja disponibilizado para o cidadão com o quantitativo, a tipificação, as tipologias e os portes dessa vegetação", garante.

Entre as áreas mais críticas da cidade, a secretária cita a Regional I, sobretudo o Vila do Mar, que é uma das áreas prioritárias de arborização. "Aquela região é muito árida, as pessoas que moram ali precisam melhorar a qualidade de vida delas, por isso vamos prezar pelo Vila do Mar", esclarece. No Centro, algumas vias estão sendo priorizadas, a exemplo das avenidas Tristão Gonçalves e Imperador. Na Regional II, será priorizada a Avenida Rogaciano Leite, que conta com pouca arborização por ser relativamente nova. Na Regional IV, a Avenida Dr. Silas Munguba e, na Regional V, a Avenida Osório de Paiva.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

"É preciso mais compromisso e amor às árvores"

Uma cidade só pode ser agradável, boa de estar, morar, trabalhar, se for uma cidade onde o meio ambiente é respeitado, onde as atividades humanas busquem o menor dano possível à natureza, o que não é fácil, mas perfeitamente possível. A arborização urbana traz inúmeros benefícios desde a sombra que ameniza significativamente o desconforto térmico, notadamente em terras equatoriais como a nossa, embeleza os logradouros, pacifica, tranquiliza os ânimos acirrados, possibilita encontros, filtra o ar, o barulho, acolhe. Árvores abrigam pássaros e abelhas, alegram os dias modorrentos, mantém a biodiversidade. Árvore é vida em abundância.

Em Fortaleza, faltam compromisso, ética, amor às árvores, ao patrimônio natural, respeito à coisa pública. Predominam os interesses egocêntricos, capitalistas, a ambição, uma visão curta, míope, estulta.

Não temos um órgão especifico com profissionais que tratem da parte viva da paisagem, e não se pode esperar alguma mudança de quadro. Palavras não arborizam. Não se conhece quais as espécies de árvores da cidade, nunca foi feito um inventário arbóreo, primeiro passo para um Plano de Arborização. É essencial a criação de um departamento de parques jardins e áreas verdes com profissionais das áreas de biologia, agronomia e afins, capacitados, motivados e com orçamento compatível, com atividades voltadas aos parques, jardins, canteiros centrais, passeios, suas plantas, seus animais, bem como seu desenho paisagístico.

A cidade precisa acordar deste pesadelo da destruição de tudo o que é natural. Somos natureza, então estamos destruindo a nós próprios. Precisamos de uma cidade verde.

Antonio Sérgio Farias Castro
Engenheiro Agrônomo e Botânico

SAIBA MAIS

Relação de árvores nativas para arborização da Capital:

Pequeno porte - Peroba, pau-branco, catingueira, jucá, araticum-do-brejo, sabonete, pereiro, côco-babão.

Médio porte - Caraúba, ipê-roxo, ipê-amarelo, ipê-verde, oiticica, trapiá, xixá, cajueiro, juazeiro, jatobá, caroba, pitomba, ingazeira, ingaí.

Grande porte - Timbaúba, oiti, cedro, gameleira, cassia-rosa, barriguda, pau-pombo, angelim, mirindiba, macaúba, carnaúba.

Fonte: Movimento Pró-Árvore

Luana Lima
Repórter

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