Galpões

Antiga zona portuária é tomada pelo comércio

Degradada, a área que é referência patrimonial entre a Praia de Iracema e o Centro, tem o uso restrito à uma atividade

O uso dos armazéns é totalmente ligado à feira, enquanto a área carece de revitalização ( Foto: Reinaldo Jorge )
00:00 · 11.02.2017 por Thatiany Nascimento - Repórter

A história de Fortaleza passa por lá. Voltar ao século XIX, a partir de 1805, é ver circular pelos armazéns localizados entre o Centro e a Praia de Iracema cargas como couro, algodão e a cera da carnaúba. A proximidade do porto da Capital, estruturado à época na Prainha - atual Praia de Iracema- garantia esta funcionalidade. Já na década de 1950 a mudança do porto para o Mucuripe, alterou o uso da região. Retornar ao século XXI é reconhecer que as memórias da cidade seguem entranhadas na antiga zona portuária, mas por lá, hoje, o movimento, em geral, restringe-se ao comércio que toma os galpões. Revitalizar o local "esquecido" por habitantes e poder público é uma urgência persistente. O que será capaz de motivar a retomada e conservação da região é o ponto impreciso.

Leia mais
 
 

Em séculos passados, o fluxo de pessoas e mercadorias na área, contam historiadores, era intenso. Na atualidade, movimentação similar até parece se repetir, mas em dias e horários específicos e, sobretudo, com uma finalidade: garantir o comércio de roupas. A ocupação e a vivacidade de, pelos menos, nove vias da zona ou trechos delas (Av. Alberto Nepomuceno, ruas José Avelino, Bóris, Adolfo Caminha, Almirante Jaceguai, Maranguape, Senador Almino, Baturité e Travessa Icó) estão atreladas à esta atividade.

Se não é dia e horário da "Feira da José Avelino", os galpões, em geral, permanecem fechados e as ruas vazias. A região é marcada por esse uso monofuncional. Degradada, a antiga zona portuária padece cercada por equipamentos públicos, históricos e culturais significativos como o Teatro São José e a sede original da Biblioteca Pública (que seguem interditados para obra), o Mercado Central, a Secretaria da Fazenda, o Seminário da Prainha, a Caixa Cultural e o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Este último, inaugurado em 1999, trouxe como um dos propósitos alterar o "cenário de abandono" do local, mas não conseguiu ainda assegurar o cumprimento desta finalidade.

Tentativas

"O problema é que nunca houve uma política séria do poder público para enfrentar essa ocupação de uma forma consistente. Quando o Dragão do Mar foi construído, esses galpões puderam ser aproveitados para atividades ligadas à cultura, com estruturação de ateliês, mas houve um desnivelamento entre o valor dos alugueis e a capacidade de pagamento dos custos pelos artistas", explica o arquiteto e professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Ceará (UFC), José Almir Farias Filho.

As antigas estruturas que não são preenchidas pelo comércio, garante o professor, foram aproveitadas por estacionamentos, já que "os carros tomam tudo" critica ele. A atual condição da área, relata Almir, tem relação com a falta de apelo popular para a revitalização, já que diferente de outras regiões próximas à praia, na antiga zona portuária de Fortaleza há poucas habitações. Esta ausência de moradores, avalia o arquiteto, fez com que historicamente o enfrentamento ao processo de degradação tenha pouca visibilidade e não seja tão intenso no local.

Para quem tenta resistir, manter outra atividade que não é comercial no espaço tem sido tarefa desafiadora. Ainda assim, uma possibilidade concreta. Desde 2010, um dos galpões da Rua Adolfo Caminha abriga serviços de produção e aulas de fotografia. "Eu escolhi aquela localização porque ela estava esquecida. Ninguém queria e em 2010, era muito barato alugar um galpão ali. Eu absolvi o lugar porque tinha viajado pela Europa e vinha de uma cultura que valorizava esse tipo de espaço como Barcelona, com galerias e espaços culturais em guetos", afirma o diretor da produtora e escola de fotografia Travessa da Imagem, Markos Montenegro.

O diretor é entusiasta da ocupação da área e a classifica como "próspera, histórica e boêmia". Continuar trabalhando na região - que no trecho específico da escola é rodeado, além de galpões de confecção, por armazéns de reciclagem - é exercício de perseverança. Tarefa para quem, de fato, segue acreditando. O comércio nos antigos galpões, aponta Markos, "é voraz". "Nenhuma lei funciona nessa área. Há obstrução de rua, sujeira e é um lugar ermo à noite. Todo ano é uma luta louca para levar as pessoas, para que as pessoas busquem aquela zona, pois não é só uma questão estética e social", avalia.

A escola de fotografia funciona em um imóvel alugado e, todos anos, relata Markos, ao renovar o contrato, há o temor que os proprietários solicitem o prédio para disponibilizá-lo também à indústria da confecção de vestuários. Uma alternativa para estimular a ocupação ampliada desta zona, para Markos, é o estabelecimento de incentivo fiscal a quem se dispõe à trabalhar com cultura na região.

Uso misto

A necessidade de combater o comércio predatório e a indução do uso misto da área é reiterado pelo empresário e vice presidente da Associação Dragões do Mar, Célio Paiva. O representante da entidade que reúne proprietários de estabelecimentos situados no Dragão do Mar e no entorno, reforça que "ali era uma área decadente e abandonada da cidade antes do Centro Cultural" e que, hoje, o espaço sofre com este desordenamento.

"Agora será necessário a participação do poder público para requalificar, criando regras e estabelecendo responsabilidades para que se mantenha a estrutura na área", ressalta. Em iniciativa recente, a Associação, segundo ele, manifestou o desejo junto à Prefeitura de adotar a Praça Almirante Saldanha, localizada nas área externa do Centro Cultural, como forma de demonstrar a necessidade de cuidado e articulação conjunta para solucionar os problemas.

O arquiteto e professor da UFC, José Almir, enfatiza que qualquer proposta para a região deve se opor a um "uso dominante", pois a utilização da área tal qual ocorre hoje é considerada improdutiva, pelo urbanismo. "Ali tanto serve para uso residencial, com construções populares, para uso cultural e também o comércio popular, desde que organizado", garante.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

Região é considerada sítio histórico-cultural

Gleudson Passos Cardoso
Doutor em História Social

A área onde se situa o Centro Cultural Dragão do Mar e seu entorno foi, desde o início da colonização portuguesa, o local da atividade portuária de Fortaleza. O lugar foi marcado por intenso fluxo de pessoas e mercadorias ao longo do tempo, como bem mostram as edificações históricas do antigo forte, galpões e armazéns, prédio da alfândega, capitania dos portos, entre outros registros do passado.

No século XIX, sob o impulso da exportação algodoeira, houve preocupação por parte dos administradores e comerciantes em melhorar a atividade portuária. Foram construídos os molhes de embarque e desembarque para atender o movimento de carga e descarga. O primeiro molhe foi erguido em 1805, próximo à Prainha. Já entre 1923 e 1926 foi construído outro porto, a "Ponte dos Ingleses". A construção de tantos portos deve-se ao problema do assoreamento que colocava as grandes embarcações sob risco, dilema solucionado com a construção do Porto do Mucuripe, na década de 1960.

A área em questão trata-se de um Sítio Histórico-Cultural, um rico acervo com edificações antigas, monumentos, gastronomia típica, artesanato, lendas urbanas, danças e religiosidade de vários tempos históricos da cidade de Fortaleza.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.