Ônibus e terminais

Ambulantes driblam desemprego e se multiplicam pela Capital

Para obter sustento com a atividade, considerada ilegal, vendedores esbarram em dificuldades diárias

01:00 · 20.08.2018 por Theyse Viana - Repórter
Embarcando diariamente em várias das 328 linhas de ônibus que operam na Capital, Elias e Claudiana contam com a simpatia dos motoristas para permear a rotina dos passageiros e ganhar a vida de um em um real ( Fotos: Fabiane de Paula )

"Bom dia, pessoal! Desculpa incomodar a viagem de vocês. Meu nome é Elias, sou de Aracaju, Sergipe, e vou estar passando agora o meu produto nas mãos de vocês, sem compromisso..." Tudo dito num fôlego só. O dia inteiro, todos os dias, embarcado em qualquer uma das 328 linhas de ônibus de Fortaleza. É assim, com o discurso na ponta da língua e a sacola de biscoitos nas mãos, que o vendedor ambulante Elias Bispo, 29, sobrevive há 11 anos, nove deles só na capital cearense - driblando maus humores, o desemprego e até a legislação municipal.

> Mais de 680 vendedores foram multados em 2018
 
A cena, aliás, é cada vez mais comum nos transportes coletivos da cidade, que se tornaram pontos de venda itinerantes. "Eu nunca tirei nem a Carteira de Trabalho, num arranjo emprego mesmo. No fim do mês, sempre aperta. Se eu ganho R$ 100 todo dia, cai pra R$ 40, R$ 30? Mas tenho que agradecer a Deus, né?", conforma-se, integrando, ao mesmo tempo, os 11,7% de cearenses desempregados e os 8,4% "desalentados", no segundo trimestre de 2018.

Prejuízos

Este último número, incluso na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua sobre Emprego, divulgada antes de ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); diz respeito às pessoas que nem procuram mais emprego, tamanha é a desesperança de achar um - sentimento pelo qual, diferentemente de Elias, o vendedor ambulante Pitá Pinheiro, 41, ainda não foi tomado.

"Tô doido por um trabalho! Tenho ensino superior, mas, com essa crise global, muita gente como eu tem recorrido à informalidade", inquieta-se, segurando os sacos de pipocas e salgadinhos numa mão e a pasta de currículos na outra. "Eu preciso andar o dia todo, o cansaço é grande", desabafa, segundos antes de ser cercado por agentes da Guarda Municipal, no Terminal do Papicu; ter a mercadoria retida pela Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis) e ser multado com um valor que tornaria "inviável resgatar o material" - e impossível pagar a diária da quitinete onde mora, no Centro.

Na mesma abordagem, quem perdeu "R$ 250 em mercadorias" foi a ambulante Ana Clara Maia, que percorre terminais de ônibus em busca do sustento diário há 21 dos 40 anos de idade. "É meu meio de vida, eu não tenho estudo, nem meu marido. Só continuo nisso pela precisão", justifica, com um inacreditável sorriso no rosto ao tentar tranquilizar o marido sobre o prejuízo que já é tão rotineiro quanto o trabalho.

Preconceito

As dificuldades dos vendedores nômades da Capital, aliás, vão além do esbarrão no Código de Obras e Posturas do Município (Lei Nº 5.530/81), segundo o qual "o comércio ambulante só pode ser exercido mediante licença, Termo de Permissão concedido pelo Município".

No fim das contas, um dos maiores obstáculos, como destaca Elias, é o preconceito. "Muita gente nem recebe o produto, finge que tá dormindo, xinga, faz cara feia? Os motoristas, quando conhecem a gente, deixam subir. Outros proíbem. Mas esse é o único trabalho que a gente tem!", frisa. A frustração que os 11 anos de venda garantiram a Elias ainda não chegou a David Silva, 27, cuja energia de trabalho é uma forma de mantê-lo longe das drogas. Há dois anos e meio, os 30% lucrados com as balas de gengibre - de propriedades fitoterápicas milagrosas, listadas em minutos pelo vendedor - o têm sustentado.

"Às 9h, peguei o primeiro ônibus. Às 11h, depois de andar em 22 coletivos, já vendi tudo. O bom é que a gente conhece várias pessoas: alguns viram amigos, outros viram o rosto", relata um dos diversos jovens que prestam serviços aos centros de recuperação dos quais fazem parte.

Apesar da obrigação de "matar um leão por dia", a esperança parece perdurar entre os que vagam por Fortaleza oferecendo bombons, amendoim, pipoca, fones de ouvido e outros incontáveis produtos. "Daqui pro fim do ano, compro meu carrim e vou ser motorista de Uber", sorri David, emendado pela colega de "profissão" Claudiana da Silva, 36, ambulante há dois anos. "Com muita força, dá pra pagar as contas. Saio de casa 6h e volto 20h, morta de cansaço. Mas dá certo, né? Sempre dá."

Entrevista com Aécio Alves*

Professor de Economia Ecológica da Universidade Federal do Ceará (UFC)*

Atividades ambientais são forma de inclusão

O que gera o trabalho informal?

As atividades informais aparecem para compensar a falta de vagas no mercado. Na sociedade em que vivemos, ter dinheiro é a senha para a vida. Se você não tem, corre o risco de não continuar existindo: não conseguir comer, se vestir, ir e vir. Apelar para a informalidade é uma estratégia de sobrevivência.

Os ambulantes alteram a dinâmica da cidade?

Eles preenchem os espaços públicos, que são locais privilegiados para que essas atividades floresçam, porque proporcionam contato. Vemos um crescimento disso nos cruzamentos, em calçadas também. E tudo tem a ver com a tentativa das pessoas de não enveredarem por caminhos ilícitos.

Como incluí-los no mercado?

Há uma série de atividades possíveis, como as voltadas para a preservação do meio ambiente: limpeza de lagoas, agricultura urbana, que precisam de gente. Outra solução é a garantia de uma renda básica universal, muito mais do que o Bolsa Família. As duas coisas podem trabalhar juntas.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.