66 óbitos

Aids matou uma pessoa a cada três dias no Ceará, em 2018

O Estado registrou 66 óbitos pela doença, entre janeiro e julho desse ano e 560 pessoas já foram infectadas com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)

01:00 · 06.08.2018
A Aids continua matando. É o que revela a planilha com atualização semanal das Doenças de Notificação Compulsória, da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). O Ceará já registrou 66 óbitos por Aids — o que significa uma morte a cada três dias, entre janeiro e julho de 2018.

Em 2017, de janeiro a novembro, 882 pessoas tiveram o diagnóstico de soro positivo. Dessas, 544 portadoras de Aids. Os óbitos causados pela patologia, no ano passado, foram 222. Já em 2018, os dados continuam alarmantes, tendo em vista toda a discussão realizada no País, desde o primeiro registro de Aids, há mais de três décadas. Neste ano, 560 pessoas foram diagnosticadas com o vírus HIV; desse total 352 manifestaram a doença. Fortaleza aparece em primeiro lugar no Estado. Entre as centenas de infectados, 292 moram na Capital. Em relação aos óbitos, dos 66 totalizados no Estado, 29 foram registrados na Capital.

De acordo com o infectologista e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Érico Arruda, dois motivos podem ser listados como predominantes para a grande taxa de óbitos por Aids. O primeiro é a não valorização dos sintomas que aparecem: quando o indivíduo descobre a doença, ela já está avançada. O segundo é o abandono da terapia. “Muitas pessoas abandonam o tratamento, mesmo recebendo a medicação. Eles veem melhora, tem a carga viral em queda para patamares indetectáveis, mas alguns, com o passar do tempo vão perdendo a disciplina. Isso faz com que a doença volte e pode ser até que venha mais agressiva”, afirma Érico.

O infectologista revela, ainda, que entre a exposição sexual com a pessoa infectada e o início dos sintomas, pode decorrer uma década. Por isso, o indicado é fazer o teste de HIV assim como outros exames regulares, pelo menos uma vez ao ano, para todos que têm ou já tiveram uma vida sexual ativa. 

O Brasil é um dos países que tem destaque por oferecer gratuitamente medicações retrovirais, conforme relatou o ex-presidente da SBI. Esses medicamentos estão disponíveis no SUS. Ao ser diagnosticada com Aids, a pessoa deve iniciar o tratamento em alguma unidade de saúde que tenha assistência para portadores da patologia. No Ceará, existem 30 Serviços de Atenção Especializada em HIV/AIDS. Essas unidades se concentram em maioria na capital, mas municípios como Crato, Quixadá e Sobral também contam com assistência. Os casos mais graves, contudo, precisam de internação, feitas exclusivamente no Hospital São José de Doenças Infecciosas (HSJ), localizado no bairro Amadeu Furtado, em Fortaleza.

Sintomas

Os sintomas da fase aguda da Aids, que podem variar semanas ou até cinco anos após a contração do vírus, são febre, dor de cabeça, sudorese excessiva, episódios recorrentes de diarreia e perda de peso não motivada, segundo Érico. Sendo assim, a patologia não apresenta sintomas específicos, se assemelhando com outras doenças, como dengue e chikungunya. “Por isso, é necessário atenção do paciente e do profissional da Saúde para manifestações iniciais. O ideal é que fosse descoberta antes da manifestação”, aconselha.

Para quem descobre tardiamente, os efeitos podem ser irreversíveis, como paralisia do corpo. Anne Jackeline Santos, 44, aposentada por invalidez, conhece essa realidade. Diagnosticada com Aids aos 26 anos, a mulher contraiu o vírus de seu ex-namorado, e, até saber que estava com a doença, teve AVC, pneumonia, e chegou a não conseguir andar, se alimentar ou se movimentar. Hoje, tomando 12 medicamentos por dia e com a Aids estabilizada, o reflexo do diagnóstico tardio ainda é presente. Jackeline tem paralisia leve do lado esquerdo do corpo, visão periférica facetada e dificuldade na dicção.

Contudo, a patologia não a abateu: há 14 anos se relaciona com um homem também soropositivo e se considera muito feliz. “As pessoas me perguntam se eu tenho uma vida normal, eu digo que é normalíssima. Elas que me veem diferente. O problema da minha vida nunca foi o HIV e sim o preconceito, mas não iria me sentir bem escondendo isso”, revela a aposentada. Jackeline conta, ainda, que atualmente se cuida bastante, mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo, a aposentada fumou e bebeu bastante.

Perfil

O perfil das populações mais atingidas com o contágio do HIV/Aids tem mudado pouco ao longo dos anos. Ainda assim, o termo “grupo de risco”, que apontava pessoas mais suscetíveis à contaminação, está ultrapassado. 

Contudo, grupos específicos, como indivíduos na faixa de idade produtiva (20 e 39 anos), homens e pessoas em situação de rua, permanecem necessitados de maior atenção, por conta dos registros de óbitos. Com a extinção do termo “grupo”, hoje, fala-se em “comportamentos” de risco: uso de álcool; uso de substâncias psicoativas; não uso do preservativo e multi-parceria desprotegida.

“Tem grupos que apresentam vulnerabilidades acrescidas. A pessoa que está em situação de rua tem mais dificuldades do que a que tem uma casa para voltar; a pessoa que está em uso de substância psicoativa também apresenta maior vulnerabilidade por conta da dificuldade de discernir em usar, ou não, o preservativo” aponta o coordenador da área técnica DST/Aids e hepatites virais, Marcos Paiva.

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(Colaboraram Ana Cajado e Samuel Pinusa)

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