centro de Fortaleza

Abrigo para pessoas em situação de rua deve abrir em 3 meses

Segundo a Prefeitura, serão 150 vagas e para inaugurar só falta a resolução de questões burocráticas

Daiane Célia, de 23 anos, perambula por Fortaleza na incerteza das ruas da cidade há quatro dos 23 anos de vida, tempo suficiente para parir Samuel, 4, e os gêmeos de um ano e seis meses ( FOTO: JOSÉ LEOMAR )
01:00 · 14.06.2018

Um novo abrigo para pessoas em situação de rua especificamente no Centro da cidade deve ser entregue ainda este ano, segundo o secretário da Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos e Combate à Fome (SDHDS), Elpídio Nogueira. Segundo ele, se tudo correr como previsto, o local para acolhimento de moradores de rua deve abrir em setembro, com 150 vagas. A capacidade equivale ao que é ofertado atualmente em três unidades. "Lá é maior que os outros, vai ter refeição, dormitório, tipo uma pousada", revela Elpídio Nogueira.

Estava tudo pronto para o abrigo ser na Avenida Imperador, conforme informou o gestor da SDHDS, mas o proprietário desistiu da negociação. Contudo, um novo prédio já foi encontrado e o abrigo funcionará na Avenida Duque de Caxias, na localização de um antigo Centro de Atenção Psicossocial (Caps). "Já comprei parte do equipamento, como camas, colchões e computadores; e o pessoal (que irá trabalhar) também já foi autorizado pelo prefeito. Agora é só burocracia, reformar o prédio e receber o pessoal. Se tudo correr bem, em setembro inauguramos", afirma Elpídio. A divulgação foi feita durante coletiva de imprensa na abertura de um novo espaço de acolhimento para mulheres e famílias em situação de rua, no bairro Presidente Kennedy, na tarde de ontem. O local passa a atender a população da unidade que funcionava na Parangaba, portanto foi apenas uma substituição.

Enquanto a unidade com novas vagas não fica pronta, pessoas como a ex-empregada doméstica Daiane Célia, 23, não tem para onde ir. A jovem perambula na incerteza das ruas da cidade há quatro dos 23 anos de vida, tempo suficiente para parir Samuel, 4, e os gêmeos de um ano e seis meses - que só foram conhecidos no dia de virem à luz, sem direito a um pré-natal sequer. "É difícil comer, porque preciso sair pra pedir qualquer coisa pra eles. E ir ao banheiro, também. Eles estão com diarreia e nem fralda tem, pego um balde ali pra banhar", diz, apontando para a fonte da Torre do Relógio, na Praça do Ferreira, providencial para fins muito além do arquitetônico.

Para Daiane, esperança é um sentimento desconhecido. "Minha mãe vive lá pelo Serviluz, numa casa alugada por R$ 10,00 o dia. Mas lá num dá certo pra gente não. O negócio é ficar por aqui mesmo", conforma-se, vencida pelo vício em drogas e pelo cansaço da luta diária.

Luta semelhante é a de Carleane Oliveira, 32. Ela lembra de quando passeava nos trenzinhos da alegria ao lado dos filhos de 1, 3, 6, 13 e 15 anos de idade - os quais não vê há seis meses, desde dezembro passado, quando perdeu tudo e encontrou lar nas calçadas e ruas do Centro de Fortaleza. Para ela, a esperança de mudar a vida inteira, "resgatar a dignidade" e rever os filhos - "as coisas mais lindas do mundo, uma delas até fala inglês!" - é latente, combustível.

A esperança dela e das milhares de pessoas em situação de rua pode estar na política de habitação social que está sendo elaborada pela Prefeitura, de acordo com o chefe do Executivo Municipal, Roberto Cláudio. "Isso demanda critérios, compromisso de cada família em situação de rua, mas é uma política de aluguel social e habitação definitiva. Até o fim do ano lançaremos", afirmou o prefeito durante inauguração da unidade do Presidente Kennedy.

Segundo o 1º Censo de Pesquisa Municipal sobre População em Situação de Rua, estudo realizado pela SDHDS em 2014 e 2015, Fortaleza conta com 1.718 pessoas em situação de rua. A secretaria afirmou que o dado deve ser atualizado ainda neste ano.

Apesar da quantidade de pessoas em situação de rua, Fortaleza conta atualmente com apenas três unidades de acolhimento institucional, uma no bairro Jacarecanga, outra no Presidente Kennedy e no Benfica. Cada unidade disponibiliza 50 vagas, funcionando 24h com acesso à refeições. Totalizando, são 150 vagas para atender um público estimado, em 2015, em quase 2 mil pessoas.

Além disso, também há uma Casa de Passagem, para acolhimento em tempo curto; uma Pousada Social, no Centro e dois Centros de Referência Especializados para População em Situação de Rua (Centros Pop), que atendem cerca de 80 pessoas diariamente com serviços multidisciplinares e refeições.

Vagas

Elpídio Nogueira afirmou que as vagas não correspondem ao número de moradores, contudo, segundo ele, muitos não querem entrar nos abrigos. O prefeito Roberto Cláudio afirmou, também, que têm vagas ociosas nos abrigos devido à isso. "Nem todos estão voluntariamente dispostos a vir. Não fazemos abrigamento compulsório", argumentou o prefeito.

A Unidade do Presidente Kennedy, aberta ontem, com atendimento para mulheres e famílias, tem brinquedoteca, banheiros privativos, nove quartos, além de cozinha industrial para cursos de culinária. Roberto Cláudio afirmou que é um modelo diferente, com apoio da Igreja Católica presente no local que agirá intermediando o contato dos moradores com a comunidade. "Nossa meta é abrir outros com a mesma metodologia", afirmou o prefeito.

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