A simplicidade do Serviluz - Cidade - Diário do Nordeste

VIDA DE PESCADOR

A simplicidade do Serviluz

10.02.2010

O lugar que ficou conhecido como o "Bairro do Estaleiro" não é só isso. Tem história própria para contar

Apesar de a polêmica instaurada com a pretensa construção de um estaleiro ter colocado o Serviluz sob os holofotes da mídia, nem só dessa polêmica fama vive o bairro. Há uma história forte por trás do impasse.

O bairro é um dos que têm menor Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHm), que é de 0,386. Nele, 90% da população é beneficiada com o Bolsa Família e 80% têm apenas o Ensino Fundamental e vivem na informalidade. Dos 21 mil habitantes, 20% sobrevivem da pesca. Além disso, a comunidade é carente de serviços. Os moradores dispõem apenas de um pequeno comércio, mas que, segundo eles, dá para suprir as necessidades.

Mesmo sem a devida infraestrutura, quem mora no Serviluz garante que vive bem. "Só em sair de casa e dar de cara com o mar todos os dias já é uma bênção. Tudo aqui é bom", afirma o pescador aposentado e morador há 40 anos da Praia do Titanzinho, Francisco Fernando das Chagas.

"Não é um dos piores bairros. Aqui todo está com a barriga cheia. Ninguém passa necessidade", diz a presidente da Associação dos Moradores do Serviluz, Maria Ferreira Dias.

Aldeia

O bairro é uma espécie de aldeia de pescadores, onde todos se conhecem e formam uma grande família. "As pessoas têm um estilo de vida totalmente diferente do resto da cidade", acrescenta o integrante do Conselho Gestor da ONG Serviluz Sem Fronteiras e morador, Pedro Fernandes.

Contudo, a violência já chegou ao local. Por envolvimento com drogas, algumas gangues assustam a comunidade.

A atividade de destaque do local é o surfe, praticado no Titanzinho, que forma, com a própria praia, a única opção de lazer do bairro. Inclusive, alguns campeões mundiais de surfe saíram do Serviluz. A própria comunidade incentiva a prática do esporte. Uma escolinha de surfe, por meio do projeto Ondas da Vida, inicia crianças e adolescentes no esporte.

A localidade possui duas praças, mas apenas uma delas é utilizada pelas crianças, pois possui uma quadra de esportes. O equipamento é mantido pela comunidade, de acordo com Fernandes. "Falta manutenção por parte do poder público".

Origem

A formação do bairro se deu, paulatinamente, pelas mãos de pescadores que moravam na Praia Mansa e foram transferidos para o local, em virtude da construção do Porto do Mucuripe. "Aos poucos, fomos conseguindo montar o bairro com a construção das casas, por meio de mutirões, a vinda de escolas e do posto de saúde. As conquistas aconteceram com muita luta", observa Maria Dias.

Hoje, a localidade já conta com escolas, igrejas, um posto de saúde, casa do idoso, além de associações de moradores, organizações não governamentais (ONGs) e outras entidades em defesa dos moradores.

Projetos

Em virtude das dificuldades que o Serviluz enfrenta, essas instituições estão à frente de muitos projetos. São cursos de capacitação profissional; aulas de teatro, música, fotografia e informática; pré-vestibular; alfabetização para adultos; e exibição de documentários.

O poder público também começa a investir no Serviluz para amenizar a situação de pobreza que o bairro enfrenta. Um dos projetos é o curso Patrimônio para Todos para mapeamento da cultura da comunidade. Promovido pela Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho, vinculada ao Instituto de Arte e Cultura (IACC) e à Secretaria da Cultura do Estado, o curso oferece aos jovens a oportunidade de conhecer a história em visitas monitoradas.

Já o equipamento que representa a história e a cultura do bairro é o Farol do Mucuripe. Construído entre 1840 e 1846, com mão-de-obra escrava, a edificação foi tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará e transformado no Museu do Jangadeiro, que conta com acervo de imagens e documentos da antiga Fortaleza. Porém, hoje, o farol, um dos pontos turísticos da cidade, está fechado por falta de conservação e segurança.

PARA A COMUNIDADE
Previstos grandes projetos


Estaleiro vai gerar 1.200 empregos diretos. Segundo o governador do Estado, Cid Gomes, aproximadamente 80% das vagas serão de baixa qualificação

Os moradores do Serviluz têm vivido um clima de expectativa com a possibilidade de implantação de grandes projetos no bairro. Um deles é o estaleiro, fábrica de navios gaseiros para a Petrobras Transporte S/A (Transpetro), que deverá ser construído pela Promar Ceará (empresa que venceu a licitação), na Praia do Tettamanzi.

O projeto é grandioso, orçado em R$ 220 milhões, sendo R$ 60 milhões do próprio Governo do Estado. Além disso, o empreendimento deve contar com recursos do Tesouro Nacional e com o reforço financeiro do estaleiro coreano STAX.

Renda

Com o empreendimento, o governador Cid Gomes pretende gerar 1.200 empregos diretos para uma população carente de oportunidades. De acordo com o gestor, 80% da população será beneficiada.

Segundo Cid, o Tettamanzi é o local ideal para abrigar o estaleiro, por oferecer um grande quebra-mar, montado para o Porto do Mucuripe, sendo preciso apenas complementar-lo para reduzir as ondulações da maré. Além de oferecer a profundidade do mar necessária ao projeto a de dez a 12 metros.

Sem prejuízos

O governador garante que nenhuma família será desapropriada nem o surfe, prejudicado em virtude da construção do equipamento, já que a prática do esporte continuará viável a uma distância de 700m do local.

As pessoas do bairro esperam também pelo Projeto Orla, da Prefeitura de Fortaleza, que tem por objetivo fundamental a requalificação das áreas litorâneas da Capital Cearense.

Segundo eles, o projeto vai reavivar o turismo da região. Cid Gomes ressalta que a região do Tettamanzi já está bastante degradada e violenta, não sendo ideal, hoje, para o turismo.

Saiba mais
Fundação


O nome oficial do Serviluz é Cais do Porto. O bairro começou a ser construído na década de 1940, com a transferência de pescadores e estivadores que habitavam a Praia Mansa, pela Companhia das Docas do Ceará, para o local, em consequência da construção do Porto do Mucuripe. Localizado entre a Beira-Mar e a Praia do Futuro, o bairro ficou conhecido por seu potencial turístico e pela prática do surfe, na Praia do Titanzinho. O nome Serviluz surgiu por força da existência da Companhia de Serviço de Força e Luz de Fortaleza (Serviluz), na década de 1950, utilizada pelos moradores como referência para situar a localidade. A maior parte da população vive na informalidade, exercendo atividades como a pesca

Enquete
O que o bairro tem?

"Achava muito bom morar aqui, mas agora não está mais por causa dos marginais. Apesar de que a vida familiar ainda existe. Todos se conhecem"

José Domingues de Alencar
71 ANOS
Aposentado

"Gosto muito de morar aqui. Quando não temos o que comer, existe o mar, que nos dá o peixe. Mas faltam oportunidades para os jovens"

Rita Alves Sabino
57 ANOS
Dona-de-casa

"Aqui, tudo é bom. Saio de casa e dou de cara com o mar. Só isso já é uma bênção. Falta apenas mais opção de lazer para a juventude, mais praças"

Francisco Fernando das Chagas
82 ANOS
Aposentado

Ponto de vista

Bom

A NATUREZA é a maior vantagem do bairro Serviluz. Para os moradores, é o que garante o sustento de 20% da população local, especialmente no que diz respeito à pesca. Além disso, serve também como opção de lazer. A Praia do Titanzinho é a principal fonte de renda dos habitantes e reduto da atividade esportiva predominante do lugar: o surfe. Muitos campeões iniciaram a carreira lá e outros já caminham para se tornarem grandes profissionais

Mau

A principal desvantagem do bairro Serviluz é a marginalidade, de acordo com os moradores. A causa é a droga, que acabou chegando ao local e envolvendo jovens, que passaram a formar gangues e assustar os habitantes. A ociosidade de boa parte da população local também gera a violência. A maioria dos moradores não tem oportunidade de trabalho. Aqueles que têm, vivem na informalidade



LINA MOSCOSO
REPÓRTER


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