Motoristas em Fortaleza

60 mil admitem dirigir após beber

Os dados fazem parte de pesquisa feita pelo Ministério da Saúde nas capitais, de fevereiro a dezembro de 2017

00:00 · 11.06.2018 por Leda Gonçalves - Repórter
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Relatório da Iniciativa Bloomberg, Prefeitura e UFC indica 1% de condutores pegos durante as blitze, em março do ano passado ( Foto: Kid Júnior )

A Lei Seca completa dez anos no próximo dia 19 e um dado chama atenção, não só de especialistas e engenheiros de transporte, mas também da saúde pública: em 2017, 60 mil motoristas de Fortaleza admitiram dirigir após ingestão de bebida alcoólica. Isso representa 6% dos habilitados pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE) na Capital. No ano passado, a cidade somou 1.090 milhão de veículos e pouco mais de um milhão de pessoas com carteira de habilitação. No Ceará, esse número chegou a dois milhões. Os dados fazem parte da Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizada pelo Ministério da Saúde em todas as capitais do País. O resultado reflete respostas de entrevistas realizadas de fevereiro a dezembro de 2017 com pouco mais de 53 mil pessoas acima de 18 anos de idade.

Em 2008, quando a Lei Seca entrou em vigor, a Capital cearense possuía 586 mil veículos e 667 mil habilitados. Naquele época, o Vigitel só divulgou o total de beneficiários de planos de saúde que dirigiram veículos motorizados após consumo abusivo de bebidas alcoólicas e Fortaleza registrou 3,1% de pessoas com mais de 18 anos de idade. A pesquisa só começou a relacionar os dados álcool e direção a partir de 2011. Ali, 6,1% dos fortalezenses reconheceram beber e dirigir. Nesse ano, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou que a cidade chegava aos 2,5 milhões de habitantes, com 781 mil veículos e 790 mil com carteira de habilitação. Os dados alertam que, apesar das campanhas e esforços, ainda falta muito para que o cidadão se conscientize do risco de tomar alguma bebida alcoólica e dirigir.

Ainda segundo a pesquisa, entre 2011 e 2017, a frequência de adultos brasileiros que admitem conduzir veículos motorizados após terem ingerido bebida alcoólica aumentou 16% nessa faixa de tempo. O percentual alerta gestores em saúde pública em razão de que em capitais como a cearense a frota ultrapassa 1.1 mil veículos, segundo dados do Detran até abril passado. No conjunto das 27 cidades, aponta o Vigitel, 6,7% da população adulta referiram conduzir veículo motorizado após consumo de bebida alcoólica.

Os homens (11,7%) continuam assumindo mais essa infração do que as mulheres (2,5%). Em Fortaleza, entre homens, a prevalência é de 11%, enquanto que entre mulheres é igual a 2%. A maior prevalência foi observada entre os adultos de 25 a 34 anos (10,8%), e com maior escolaridade, chegando a 11,2% entre aqueles com 12 ou mais anos de estudo. Com relação ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas, a prevalência sofreu alta de 11,5% entre 2006 (15,7%) e 2017 (19,1%).

Os dados são diferentes de relatório resultado da parceria entre a Iniciativa Bloomberg/Prefeitura e Universidade Federal do Ceará (UFC) e leva em consideração os comportamentos de risco no trânsito da Capital cearense: o uso do capacete, velocidade, condução sob efeito de álcool e uso correto da cadeirinha.

Conforme o estudo, o percentual de condutores pegos durante as blitze e que fizeram o teste do bafômetro caiu de 1,9%, em 2015, para 1% em março do ano passado. A maior parte, 81%, dos motoristas flagrados pelo bafômetro com excesso de álcool no organismo era do sexo masculino. Os de micro-ônibus/vans (7%) e de picapes / caminhões leves (2%) foram identificados como mais propensos a serem flagrados pelo teste da alcoolemia com excesso de álcool no organismo do que os demais motoristas (0% a 1%).

Para o professor do Departamento de Engenharia de Transportes da UFC, Flávio Cunto, esse dado de 1% assusta. "Até porque, se a gente for levar em conta um trânsito como o da Av. Washington Soares, por onde passam 50 mil veículos por dia, isso significa que 500 condutores podem trafegar por ali sob efeito de álcool no organismo", avalia.

Cunto afirma que, mesmo assim a realidade pode ser pior ainda. "O percentual não reflete o real cenário, mas a pesquisa é válida para ter parâmetros de análises", diz, acrescentando que o maior desafio é a conscientização do motorista. "Essa pesquisa alerta que estamos com problemas e precisamos agir", frisa.

Já o coordenador da Iniciativa Bloomberg, Dante Rosado, destaca que a maior frequência das blitze realizadas na cidade, aliadas às campanhas, tem conseguido reverter esse quadro em Fortaleza. "A longo prazo vamos ter melhores resultados. No entanto, o motorista deve aumentar a sua percepção e certeza de que dirigir sob efeito de álcool não só o leva a sanções, prisão, matar ou morrer".

Fique por dentro

Fiscalizações realizadas na Capital

Como o álcool é um dos principais fatores de risco de acidentes graves no trânsito, a Operação Lei Seca vem sendo priorizada pela Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC). A atuação dos agentes já inibe o cometimento da infração.

Em 2017, a fiscalização foi realizada de janeiro a dezembro. Um total de 20.524 veículos foi abordado, nos comandos da Lei Seca. Dentre os 17.460 testes realizados, 31 deram positivo. 322 condutores se recusaram a fazer o teste do bafômetro.

De janeiro a maio deste ano, a AMC realizou 22.833 abordagens da Lei Seca. 21.880 pessoas foram submetidas aos exames, mas apenas cinco motoristas deram positivo. Houve 344 recusas. Diariamente a AMC realiza blitze itinerantes.

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