SHOW

Vozes do Pessoal

01:43 · 27.05.2008
Rodger Rogério e Téti se reencontram no palco esta noite, na Concha Acústica da UFC, no Festival Ecos de 68. Cantando clássicos do Pessoal do Ceará

Um reencontro, como há muito não se via, de dois dos maiores representantes da geração de músicos que se tornaria conhecida como Pessoal do Ceará. Assim promete ser o show do cantor e compositor Rodger Rogério e da cantora Téti, esta noite, na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará, dentro da programação do Festival UFC de Cultura - Ecos de 68. Foi, aliás, em 1968, ano emblemático para mudanças sociais, políticas e principalmente comportamentais, no Brasil e ao redor do globo, que Rodger e Téti se casaram. A união matrimonial ficou no passado, mas a contribuição de ambos à geração que ajudou a recolocar o Ceará no mapa da música brasileira permanece como um referencial para as novas levas do Pessoal. Hoje, uma história (re)contada pelos filhos do casal, nas vozes de Daniela e Flávia, que respondem pelos participam como backing-vocal, e na escrita do professor e pesquisador Pedro Rogério, que também na programação do festival lança amanhã a versão em livro de sua dissertação de mestrado acerca daquela geração de músicos.

O show de Rodger e Téti representa a chance de um reencontro musical no palco, como há muito não se via, em termos de conceito de apresentação. Descontadas as participações em shows um do outro e em apresentações de amigos músicos, ou ainda a colaboração de ambos como intérpretes em diversos discos coletivos. O último show em dupla? ´Ih, rapaz, nem sei dizer. Faz mais de 20 anos, eu acho. Esse tempo a gente conta em décadas´, brinca Rodger, lembrando que, mesmo quando os dois deixaram Fortaleza rumo ao Sudeste para buscar espaço junto à grande indústria do disco, a idéia de dupla era mais um caminho de apresentação dos artistas ao público que uma realidade no palco. ´A gente nunca cantou muito juntos. Mesmo quando a gente fazia shows, a gente cantava cada um. A gente brigava pra não ser uma dupla. A gravadora queria, mas a gente brigava pra não ser´, afirma o compositor, citando que o show desta noite não deverá ser diferente. ´Só vamos cantar uma música juntos, por causa do repertório mesmo. Mas ainda vamos ensaiar, quem sabe tem mais coisa´, deixa entrever.

Téti adianta que o show de logo mais será iniciado por Rodger. ´Ele canta umas quatro músicas, me chama e fazemos juntos ´Chão sagrado´, dele e de Belchior´, antecipa Téti, citando a faixa-título do LP lançado pelos dois em 1975 - dois anos depois de vir a público o referencial ´Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem´, disco compartilhado por Rodger, Téti e Ednardo. Trazendo clássicos como ´Ingazeiras´, ´Terral´, ´Beira-mar´, ´Cavalo-ferro´ e ´Falando da Vida´, o álbum, mais conhecido como ´Pessoal do Ceará´, se tornaria um dos marcos da inserção daquela nova turma de músicos cearenses na fonografia nacional. E que representa a base para o repertório do show de hoje, com Rodger e Téti ladeados por Carlinhos Ferreira (clarinete e sax), Mimi Rocha (guitarra), Luiz Miguel (baixo), Marcos Vinnie (teclados) e Denílson Lopes (bateria).

Ecos de 68

Além das canções, Téti e Rodger também compartilham lembranças da Fortaleza do emblemático 1968. ´Em 68, estávamos aqui, foi o ano que nos casamos. A gente cantava e participava de programas de TV locais, ´Porque hoje é sábado´, ´Show do Mercantil´... A música já estava naquela coisa, aquele caldeirão já, a ponto de levantar uma grande fervura´, detalha Téti, sobre o tempo que antecedeu a ´revoada´ da turma de compositores, intérpretes e instrumentistas para o sul de sorte e sedução. ´Além dos programas de TV, os locais da turma eram o Bar do Anísio, a Faculdade de Arquitetura... Embora eu não fosse muito envolvida com o movimento estudantil, por não ser universitária, andava com toda a galera, pela ligação muito forte com o movimento musical´, recorda Téti. ´Foi o ano também de rompimento, da gente quebrar os tabus. De sair pra tocar violão e voltar de madrugada pra casa. Não era fácil. Eu era a mais nova de 10 irmãos, e só um, o Vevé, me defendia nisso´.

Rodger confirma a agitação dos tempos. ´Foi um ano conturbadíssimo. Lembro de participar do Festival do DCE, com ´Mundo mudar´, parceria com o Augusto Pontes. E, na universidade, os alunos invadiram o Departamento de Física, Matemática e Quíica, protestando. Os professores não podiam entrar. Eu, recém-formado, tinha acabado de entrar na universidade como professor, e lembro que queria estar ali com os alunos. Mas não podia mais, não tinha mais como´, relembra, definindo: ´Foi um ano danado. Cheio de grandes aventuras e complicações´.

Conceitos para recontar a história

Se hoje Rodger e Téti sobem ao palco, amanhã é o filho, Pedro Rogério, que apresenta um outro olhar sobre a geração do ´Pessoal´. Músico, radialista, professor e pesquisador, Pedro está lançando, pelas Edições UFC, o livro ´Pessoal do Ceará: Habitus e Campo Musical na Década de 1970´. O lançamento acontece esta quarta-feira, às 18h, no Auditório Castelo Branco, ao qual, curiosamente, a programação oficial do Festival UFC Ecos de 68 se refere apenas como Auditório da Reitoria - sublinhando que, de fato, questões que repercutem desde aquela década ainda ensejam debates e reflexões.

No lançamento do livro, Pedro Rogério lembrará, ao violão, canções da geração de Rodger, Téti, Petrúcio Maia, Fagner, Belchior, Ednardo e companhia, antecedendo a apresentação da obra - a versão em livro da tese de dissertação de Pedro Rogério no mestrado em Educação Brasileira, defendida em dezembro de 2006 - pelo professor-orientador do trabalho, Luís Botelho Albuquerque. Em seguida, está agendado um debate com o compositor, publicitário e ´guru´ do Pessoal, Augusto Pontes, e com o cineasta e produtor cultural Francis Vale. A mediação fica a cargo da secretária de Cultura de Sobral e produtora cultural Rejane Reinaldo. Fechando a noite, uma surpresa. ´Vamos fazer uma homenagem a uma das figuras mais referenciais para o Pessoal do Ceará, um daqueles participantes que são realmente uma unanimidade, pela sua importância. Mas quero deixar a surpresa´, diz Pedro Rogério.

De Bourdieu ao Pessoal

Entre outros aspectos, o livro de Pedro Rogério, que traz entrevistas com artistas e produtores envolvidos na efervescência musical do Ceará ao Brasil, aborda a formação cultural comum aos músicos que se tornariam identificados como um grupo lá fora - embora sempre tenham feito coro quanto a recusar um hipotético reconhecimento como grupo ou movimento. ´Quem identifica isso, uma unidade estética entre eles, é quem está de fora. Eles até hoje resistem. Com razão, porque a coletividade não anula as individualidades, dentro de um campo. Mas quem percebe isso é quem está de fora, ou o pesquisador que olha pro passado, com distanciamento´, ressalta Pedro Rogério, citando os conceitos de habitus e campo social, de Pierre Bourdieu, empregados na pesquisa. ´Encontramos raízes dessa identificação estética entre os diferentes integrantes do Pessoal do Ceará. Influências e contextos comuns a todos eles, como a formação como ouvintes de rádio, nas radiadoras e nos lares, e depois a forma como se tornaram produtores culturais pra esse equipamento, com suas músicas, depois de chegarem ao disco´.

Segundo Pedro Rogério, a adaptação do trabalho para livro - feita em tempo reduzido, visando ao lançamento durante o festival da UFC - procurou privilegiar o interesse do leitor em geral, dando menos destaque a aspectos mais voltados para a comunidade acadêmica. ´A única parte que não era muito palatável era a introdução, mais voltada para a área de educação. Mas da metade do primeiro capítulo em diante já venho trazendo as falas dos artistas. O resto de toda a dissertação utiliza muito a fala deles, um olhar pela lente dos artistas´, define Pedro. ´É um trabalho de caráter etnográfico, que identifica esse campus musical formado entre meados da década de 60, quando eles entram na universidade, e meados da década de 70, quando chegam ao disco´. Na quinta-feira, às 18h, o festival promove o lançamento de outro livro sobre o tema: ´No tom da canção cearense: do rádio e TV, dos Lares e Bares na Era dos Festivais´, do músico e pesquisador Wagner Castro.

Dalwton Moura
Repórter

Mais informações:

Rodger e Téti. Show hoje, às 21h, na Concha Acústica da UFC (Campus do Benfica, na Av. da Unviersidade com Av. 13 de Maio). Entrada franca.


PESQUISA
"Pessoal do Ceará: Habitus e Campo Musical na Década de 1970"
Pedro Rogério
R$ 15
180 páginas
2008
Edições UFC

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