Violão popular, erudito e coletivo

O Selo Sesc lança a caixa do "Movimento Violão", uma compilação de 10 DVDs com violonistas brasileiros e argentinos

00:00 · 14.04.2018 por Felipe Gurgel - Repórter

Em tempos de super ocupação das plataformas digitais, os lançamentos da música brasileira em suportes físicos saltam aos olhos. O CD é visto, hoje, como um "cartão de visitas" dos artistas, e sua venda costuma ter mais apelo nos shows.

O vinil, por sua vez, ganha adesão de colecionadores e músicos interessados em armazenar o som em um suporte de qualidade. Ao mesmo tempo, o preço do produto para o consumidor final ainda é caro.

Nesse contexto, soa como raridade o lançamento da caixa "Movimento Violão" (Selo Sesc), baseada na temporada de 2012 do programa do Sesc TV. O box traz 10 DVDs, cada um reunindo apresentações de violonistas solos, duos e até orquestras.

Doze nomes nacionais integram oito dos 10 DVDs do projeto: Carlos Barbosa Lima, Daniel Wolf, Duo Assad, João Carlos Victor, João Kouyoumdjian, Marco Pereira, Orquestra Metropolitana (SP), Paulo Porto Alegre, Pedro Martelli, Quarteto Abayomi (SP) e Rodrigo Vitta.

Completam o time os convidados argentinos Eduardo Isaac e Pablo Márquez.

A idealização e organização da caixa é do violonista Paulo Martelli, que também apresenta o programa do Sesc TV. Cada DVD traz uma edição da apresentação que os músicos registraram para a televisão, além de uma entrevista.

Segundo Martelli, a ideia inicial era lançar o material no formato Blue Ray. No entanto, em acerto com o Selo Sesc, o DVD foi escolhido como um suporte mais consumido pelo público brasileiro.

"Eu tinha feito uma proposta para o Selo Sesc, e tudo passou pela aprovação deles. O Movimento Violão já está na instituição há 15 anos, e na TV desde 2009. A intenção, caso o box seja bem sucedido em termos de vendas, é lançar todas as temporadas (registradas desde 2012)", detalha Martelli.

Formato

Ele destaca o pioneirismo do projeto. "É um projeto robusto mesmo. Como colecionador e violonista, desconheço uma caixa dessas com tantos DVDs de violão. Creio que é inédito no Brasil", observa.

A proposta é formatar a edição do programa de TV (em que a performance dos músicos se mistura aos trechos da entrevista). O concerto é apresentado na íntegra, sem interrupções.

Como cada músico facilitou o valor dos cachês - com o objetivo de viabilizar o projeto -, eles também tiveram a liberdade de interferir na edição final do registro das apresentações.

"Queríamos fazer uma coisa mais coesa, que não cansasse tanto o ouvinte. Atendemos todos os pedidos (de corte de material) dos artistas, porque ninguém ganhou fortunas de dinheiro com isso", pontua o organizador da caixa.

Acervo

Para reunir os violonistas em torno do projeto, Paulo Martelli enfatiza que um dos princípios era gerar um acervo de memória e conhecimento sobre o violão brasileiro (e seus desdobramentos em termos de sonoridade e linguagem).

O violonista conta que, desde quando voltou para o Brasil (ele morou em Nova York, nos Estados Unidos, durante 10 anos), vislumbrava concretizar essa ideia.

As três primeiras temporadas do Movimento Violão na TV, no entanto, não foram registradas no formato Full HD. "Só a partir de 2012 começamos a gravar do jeito que eu queria", diz.

"Um dos grandes trabalhos que tivemos foi acertar a liberação dos direitos autorais das composições originais. Por isso (e por outros motivos), o projeto demorou três anos (até ser finalizado)", situa Martelli.

História

Embora o violão tenha se tornado muito popular no cenário da música brasileira, o grande público ainda conhece pouco sobre a história do instrumento no País.

Questionado se a caixa tem a intenção de pontuar essa memória, Martelli avalia a diversidade do violão brasileiro.

"(É um instrumento que) tem várias escolas. A erudita, a popular, o violão que mistura tudo, o crossover. E é uma escola muito forte, desde Dilermando Reis (1916-1977), Heitor Villa Lobos (1887-1959)", cita.

"No entanto, a intenção do box não é trazer um violão do passado. Meu texto de apresentação (impresso no encarte do box) é centrado no momento que vivemos no Brasil", destaca o organizador.

Martelli acrescenta que o violão praticamente "timbrou" a música no Brasil, citando os gêneros samba e bossa nova. Concomitantemente, o diálogo com a linguagem erudita, ao seu modo de ver, segue forte e crescente.

"Temos uma escola muito forte, que gera respeito para o violonista brasileiro lá fora. O Movimento Violão vem coroar esse respeito", atesta.

2018

Para este ano, o Sesc TV vai realizar nova temporada do Movimento Violão. Segundo Martelli, estão previstas mais de 60 edições para a programação.

O violonista aposta na boa recepção do consumidor brasileiro para dar continuidade ao projeto da caixa recém-lançada, e fala sobre a iniciativa como uma espécie de norte, também, tanto para veteranos quanto para estudantes do instrumento.

"Com o YouTube e a internet, o acesso das novas gerações (ao material de estudo sobre o violão) é muito grande. Esse material facilita bastante o aprendizado", reforça.

E segue: "Tem uma coisa em especial, nesse box: o Marco Pereira, músico de formação erudita, um gênio, escreveu um grande concerto em pouco tempo (especialmente para a edição do programa). Foi a 'premiere' do concerto, que depois deu origem ao (projeto) Movimento Violão Sinfônico", situa. Vida longa às cordas.

DVD

Movimento Violão

Vários
Selo Sesc
2018, caixa com 10 DVDs + livreto
R$ 150

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