FEIRA

Viagem rumo à música

02:42 · 19.08.2009
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A Feira da Música chega à sua 8ª. edição, reunindo de amanhã a sábado 65 bandas. Entre elas, o duo gaúcho Músicas Intermináveis para Viagem

Partir de longe, enfrentar uma longa viagem, bancar os próprios custos, apostando em contrapartidas nem sempre tão concretas, a curto prazo. Não há cachês, nem pagamento de passagens. Em compensação, a chance de se apresentar para um público diferenciado. E a possibilidade de, mais adiante, colher os frutos da empreitada. Na forma de divulgação do trabalho para multiplicadores em potencial, contatos com representantes de selos e produtoras, possíveis convites para novos shows e participação em outras feiras e festivais.

É essa a jornada trilhada pelas bandas que chegam, da maioria dos estados brasileiros, para participar da Feira da Música, cuja oitava edição tem início hoje, se estendendo até sábado, no Pavilhão de Negócios do Sebrae, na avenida Monsenhor Tabosa, e em diversos outros espaços da Capital. A aposta dos artistas e grupos reunidos é na conquista de novas perspectivas, a partir da presença em um evento que tem como norte ser um ponto de convergência entre os diversos elos dessa corrente - ou "cadeia produtiva", como gostam de anotar os entusiastas do empreendedorismo. Hoje, mais do que uma virtude, uma necessidade, como já compreendido pelos músicos que fizeram da condição de "independentes" não um motivo para lamentar dificuldades, mas uma plataforma para superá-las.

Não por acaso, a seleção para participação na Feira é bastante concorrida, mesmo sem garantia de recursos para os selecionados - ao contrário do que acontece com outros festivais e editais. Já na inscrição, as bandas são chamadas a descrever como pretendem viabilizar a própria presença no evento - tarefa na qual a Feira costuma ajudar oferecendo interlocução com secretarias de Cultura, por exemplo. Mais do que isso, os grupos são questionados sobre quais estratégias pretendem utilizar para aproveitar ao máximo a presença na Feira. Essa capacidade de articulação e de leitura das possibilidades do evento é, segundo os organizadores, tão importante quanto a qualidade musical, para a definição da programação de shows.

Entre as bandas que passaram - com sucesso - por esse processo, uma chama atenção por literalmente cruzar o País rumo à Feira. O duo gaúcho Músicas Intermináveis para Viagem (também identificado pelo sigla MIPV) não poderia ter nome mais adequado, diante do costume de pegar a estrada e participar de festivais no Brasil. Entre os quais, agora, o de Fortaleza.

"A viagem é longa. Dá pra ouvir várias vezes o disco, né?´, brinca a guitarrista e mentora do projeto, Laura L, que desde antes de o White Stripes ganhar repercussão no Brasil chamava atenção com seu projeto de música instrumental, em diálogo com diferentes bateristas, praticando a síntese ao propositadamente não utilizar nenhum recurso eletrônico, apostando "na força da música".

"Quando as pessoas descobriram o White Stripes no Brasil, lembraram da nossa banda, que tinha duas pessoas só. Da noite pro dia, as pessoas me encontravam na rua e diziam: ´Legal sua banda, parecida com White Stripes´", conta Laura, acrescentando que a viagem minimalista da MIPV vai mais longe. "A gente radicalizou um pouquinho mais, porque não tem vocal. Mas as comparações ficam mesmo na formação, porque o som realmente não tem nada a ver".

Vale a viagem

Tendo levado o projeto a vários festivais e mesmo ao exterior - em 2006, Berlim foi palco para algumas apresentações -, Laura L vem tocando com diferentes bateristas, sempre procurando facilitar a tarefa do deslocamento. A Fortaleza, onde se apresenta hoje, às 22h30, no Bebedouro e amanhã às 18h, na programação da Feira no Centro Cultural Banco do Nordeste, vem na companhia de Pitchu Harris, que já dividiu o palco com músicos como o titã Paulo Miklos e o compositor gaúcho Wander Wildner. "Estamos tocando juntas desde março, fizemos shows em São Paulo, mais recentemente", pontua Laura, ressaltando que, apesar de ajudar na diminuição das despesas de viagem, as mudanças de baterista também pedem um tempo para adaptação e entrosamento, dadas as características do projeto, que já rendeu um disco homônimo, em 2006, e deverá em breve desaguar em outro CD.

"Estamos levando um demo com três músicas desse novo disco, e vamos tocar algumas nos shows por aí", adianta a guitarrista e compositora que, jornalista por formação, também faz as vezes de produtora e divulgadora. Em cujo contexto divisa a Feira da Música de Fortaleza como um importante porto onde atracar.

"A Feira já conquistou um espaço dentro dessa cena ´independente profissionalizada´. É um evento importante, consolidado, já no oitavo ano, que vale a pena o investimento de ir, mostrar o trabalho", garante Laura, esperando que a participação no evento cearense ajude a MIPV a ampliar sua divulgação no Nordeste. "Toda banda necessita desse contato com outros festivais. Pra gente, do Rio Grande do Sul, ir a Fortaleza, fazer shows, participar de debates, rodadas de negociação, ter uma exposição legal num evento assim é uma grande oportunidade".

Espaços da Feira

A Feira da Música será aberta hoje, às 14h, no Sebrae, com direito a cortejo a partir das 19h, com a Cia. Vidança, o Grupo Ibadã e o Maracatu Estrela Brilhante de Igarassú (PE). Também no Sebrae acontecem oficinas, debates e rodadas de negócios. Já os shows vão de amanhã a sábado, no Centro Cultural Banco do Nordeste, no Sesc Senac Iracema, na Praça Verde e no Palco sob a Passarela do Dragão do Mar. Sexta e sábado a música também ganha o palco do Shopping Solidário Bom Mix, no Bom Jardim.

DALWTON MOURA
REPÓRTER

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