Continuação da capa

Versão psicodélica dos Beatles

A "Banda do Sargento Pimenta" foi a saída que o quarteto precisava para se reinventar perante a beatlemania

00:00 · 18.03.2017 por Felipe Gurgel - Repórter
Oitavo disco da carreira dos Beatles, Sgt Pepper´s foi o terceiro álbum da fase mais "séria" da banda, sucedido por "Revolver" e "Rubber Soul"

Na segunda metade da década de 1960, a histeria do público, que tomou conta das apresentações dos Beatles ao vivo, despertou a vontade de John Lennon (1940-1980), Paul McCartney, George Harrison (1943-2001) e Ringo Starr de se reinventarem em estúdio. Sem "se escutar" direito nos palcos, os quatro músicos gestaram, há 50 anos, o compacto incluindo "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane", uma prévia do clássico "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band".

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.Mentes ácidas e hipnóticas

.Sombras à vista 

.Experiência sonora

"Sgt. Pepper's" saiu em junho de 1967, e revolucionou o conceito de álbum, para o cenário musical em todo o mundo, além de ter repercutido como um dos marcos da psicodelia. O oitavo disco dos Beatles cravou seu lugar na história feito um registro dos mais influentes, para músicos e até para técnicos de áudio, da inspiração à técnica que envolve a música. No entanto, seu valor estético divide as opiniões de beatlemaníacos e de críticos musicais, provocando um dissenso comum às obras artísticas experimentais.

Em quase 40 minutos de música, distribuídos em 13 canções, o disco traz músicas como "With a little help from my friends", "When I'm 64", a psicodélica "Lucy in the Sky with Diamonds" (que Lennon teve de negar a suposta alusão ao LSD, a droga) e a emblemática "A Day in the Life" (e seu arranjo orquestral). Apesar de ter inaugurado alguns fundamentos para a indústria da música, "Sgt. Peppers" é considerado um disco que, do ponto de vista estético, dá continuidade à fase "séria" dos Beatles, iniciada com "Rubber Soul" (1965) e "Revolver" (1966).

O disco foi gravado de dezembro de 1966 a abril de 1967. Dois álbuns contemporâneos a "Sgt. Peppers" foram basilares para o experimento dos Beatles: "Pet Sounds" (1966), dos Beach Boys, e "Freak Out" (1967), de Frank Zappa.

O mergulho na reinvenção alcançava todos os detalhes do álbum. Além da ousadia nos arranjos e na inclusão de instrumentos atípicos ao som básico dos britânicos até então, o figurino, a capa do disco, a filosofia que contagiava a quem estivesse gravando, tudo dizia respeito à viagem da "Banda do Sargento Pimenta", uma versão mais livre dos Beatles, e menos presa às expectativas da beatlemania.

O produtor musical e professor da PUC (RS), Ticiano Paludo, conta que conheceu a obra com 14, 15 anos de idade. No entanto, ele só teve a dimensão do que era aquele disco uns 20 anos depois, e passou a incluir a percepção sobre o álbum dos Beatles nas suas pesquisas. Paludo dedicou um capítulo inteiro da sua dissertação de mestrado, sobre as reconfigurações musicais da música na era da comunicação digital (2010), ao "Sgt. Pepper's".

"É um grande trabalho, que junto com 'Pet Sounds', dos Beach Boys, revolucionou a produção musical e o formato de álbuns conceituais, explorados, posteriormente, sobretudo, pelo rock progressivo de artistas como Yes e Genesis", aponta o professor.

Seleção

Ele observa que é complicado distinguir as músicas de "Sgt. Pepper's". Percebe todas as 13 canções como composições "potencialmente fortes e impactantes". Porém, Paludo arrisca citar "'A Day in the Life', que merece menção por sua grandiosidade. Aquele turbilhão de notas ascendentes é uma mistura de caos e orgasmo, uma digna catarse sonora", qualifica.

"Também acho fantástica a faixa 'She is leaving home': consegue ser extremamente doce e amarga, ao mesmo tempo, ao relatar a dor de uma partida", complementa.

A capa de "Sgt. Pepper's", a exemplo de outros elementos ficcionais que o álbum traz, sintetiza um "encontro" de personalidades históricas que nunca aconteceu. A imagem, criada por Peter Blake, reúne, ao lado dos Beatles, Bob Dylan, James Dean, Marlon Brando, Oscar Wilde, Sigmund Freud, Paramahansa Yogananda, dentre outros.

"A capa diz muito sobre o conceito do álbum: ele é um caleidoscópio, uma bricolagem de diversas referências, uma tentativa de sintetizar a diversidade da vida humana", anota Ticiano Paludo.

Legado

Antes de "Sgt. Pepper's", os discos eram encarados, literalmente, como um registro fiel à sonoridade das bandas. Da mesma forma que se apresentavam ao vivo, os artistas se repetiam nos discos e o conceito de álbum não pressupunha tanta elaboração. Era mais comum também que, ao invés de álbuns repletos de faixas, os músicos gravassem compactos, singles que alimentavam suas discografias.

A obra dos Beatles fez a distinção de que o álbum não precisava repetir o show. "Sgt. Pepper's" também evocava uma liberdade criativa, uma espécie de "do it yourself" (faça você mesmo) que, nos anos de 1970, estaria refletido no movimento punk (e no punk rock de referências como Sex Pistols e Ramones).

O disco tensionava a própria identidade dos Beatles: autointitulado como a Banda do Sargento Pimenta, o quarteto "se permitia" ser outra coisa em relação ao que lhe consagrou, ao mesmo tempo que a concepção de "Sgt. Pepper's" servia para convencer o público disso.

Outra concepção artística estimulada pelo disco foi a de envolver a sequência de um álbum musical como uma narrativa. Comum à feitura de discos conceituais até hoje, o recurso, semelhante ao processo de escrita de livros literários, chegou à seara da música pop a partir de "Sgt. Pepper's".

Fique por dentro

Edição especial de 50 anos deve sair em breve

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Para cumprir os prazos estabelecidos pela gravadora EMI, os Beatles gravaram e lançaram, em fevereiro de 1967 (dia 13 nos Estados Unidos, e 17 no Reino Unido), um compacto reunindo "Strawberry Fields Forever" (John Lennon) e a solar "Penny Lane" (Paul McCartney). As duas músicas foram registradas, de início, para entrar no repertório de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band. Este ano, com o cinquentenário do álbum clássico, está previsto - sem data confirmada ainda - o lançamento de uma edição especial incluindo ambas à sequência das 13 faixas originais. A dupla de canções traz uma temática semelhante e trata-se da infância dos autores em Liverpool (Inglaterra). "Strawberry..." é sobre lembranças de Lennon, a respeito de um orfanato do Exército da Salvação. Em estúdio, a princípio, a canção não evocava a aura do psicodelismo e passou a ganhar essa roupagem a partir do arranjo do produtor George Martin (o mesmo de Sgt. Pepper´s e de uma larga sequência dos Beatles). Com a marca melódica de McCartney, Penny Lane versa sobre uma rua de Liverpool.

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