Exposição

Valentim Diniz: o triunfo do esforço e da dedicação

01:01 · 26.04.2012
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Objetos pessoais do empresário Valentim Diniz integram a exposição 'Pioneiros & Empreendedores', em cartaz no Espaço Cultural Unifor
Objetos pessoais do empresário Valentim Diniz integram a exposição 'Pioneiros & Empreendedores', em cartaz no Espaço Cultural Unifor ( Fotos: Rodrigo Santiago )
Um dos destaques da mostra "Pioneiros e Empreendedores", Valentim Diniz criou o grupo Pão de Açúcar

O alvorecer do dia 19 de novembro de 1929 ficou marcado nas lembranças de Valentim dos Santos Diniz. Após 15 dias de uma cansativa viagem transatlântica de terceira classe, o jovem português se deparou com a vista da Baía da Guanabara, tendo o Pão de Açúcar ao fundo. Era o início de uma nova vida em terras brasileiras, que o levaria à propriedade de um dos maiores grupos varejistas do País. Sim, o Pão de Açúcar.

Parte da trajetória de Valentim dos Santos Diniz e do grupo forte que criou, em meados do século passado, podem ser conhecidos na exposição "Pioneiros & Empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil", em cartaz até o dia 13 de maio no Espaço Cultural da Unifor. Segundo Jacques Marcovitch, curador da exposição e autor do livro homônimo, uma característica que chamava atenção em Valentim era sua disposição para o trabalho.

Valentim já tinha uma certa intimidade com a compra e venda de alimentos, pois era filho do dono do único armazém da pequena aldeia de Pomares, no nordeste de Portugal. Diante de um horizonte econômico tão limitado, tinha duas opções seguras, caso não desejasse permanecer por ali: empregar-se como caixeiro em Guarda, cidade mais próxima, ou seguir até o Porto, centro comercial do país.

O mundo passava por uma crise econômica sem precedentes. Impulsivo, como convém aos 16 anos, atravessou o Atlântico. No bolso, dinheiro para um mês e o endereço de um tio-avô em São Paulo. Ao desembarcar, seguiu para lá, onde conseguiu seu primeiro emprego, como caixeiro e entregador do Real Barateiro. Graças ao bom relacionamento pessoal com os clientes, foi promovido a atendente da sessão de atacado.

O primeiro negócio próprio veio em 1936, quando abriu um armazém com a recém-esposa, graças a um prêmio de loteria e às economias dos primeiros sete anos no Brasil. Em 1943, veio uma doceria, a Pão de Açúcar. Era o embrião do grupo hoje presente em todo o Brasil. Em 1952, era ponto de encontro de famílias que vinham de bairros distantes para se deliciar com suas iguarias. O sucesso o levou a abrir duas filiais.

Foi naquele ano também que Valentim ouviu falar pela primeira vez de uma novidade americana: o supermercado, um tipo de comércio surgido na década de 30, como uma forma de baratear custos após a crise de 1929. Com um sistema de vendas baseado no autosserviço, era uma economia considerável em relação aos gastos com funcionários - o que impactava para baixo o preço final ao consumidor.

O primeiro supermercado Pão de Açúcar foi aberto em 14 de abril de 1959, em São Paulo. Não sem dificuldades. Era uma nova forma de comprar, sem intermediação de balconistas, apresentada a uma população acostumada a frequentar armazéns, feiras e bodegas. Além disso, era difícil adquirir gôndolas, balcões e, principalmente, embalagens no mercado brasileiro. Foi necessário importar alguns itens e improvisar outros.

O Pão de Açúcar surgiu justamente quando o filho mais velho do empresário, Abílio, terminava seu curso de Administração de Empresas na Faculdade Getúlio Vargas. O jovem também havia aproveitado para fazer estágios em supermercados na França e nos Estados Unidos. Ou seja, estava disposto a colocar seus conhecimentos técnicos à disposição da experiência e intuição do pai em seu novo negócio.

Esse trabalho conjunto deu tão certo que, em 1965, o Pão de Açúcar já contabilizava nove lojas, com quase 500 funcionários. Na época, já existiam outras redes supermercadistas em São Paulo, como a Peg-Pag. Segundo Marcovitch, os diferenciais de Valentim Diniz eram o entusiasmo pelo trabalho e o extraordinário interesse por tudo o que acontecia no Brasil e no mundo, notícias sobre seu grupo, os concorrentes, a política e a economia.

Cercado por colaboradores com grande conhecimento técnico (como o futuro ministro Luiz Carlos Bresser Pereira) e auxiliado por estudos especializados, Valentim conseguiu aproveitar as mudanças na cobrança de impostos e expandir seu grupo. Uma trajetória ascendente até 1985, quando fechou o ano presente em 18 estados brasileiros, com 627 lojas (das quais 76 eram hipermercados), 50 mil empregados e 240 milhões de clientes.

O crescimento, que incluía a incorporação de cadeias rivais e unidades no exterior, encontrou um revés em 1986. Os supermercados já estavam consolidados como primeira opção de compra do brasileiro, mas a crise econômica no país, problemas de administração interna e a rivalidade entre os irmãos pelo controle acionário prejudicaram a trajetória de expansão do grupo, que chegou a sofrer prejuízos.

Era preciso mudar para sobreviver. Negócios que não tinha a ver com o ramo de supermercados e que não davam lucros foram desfeitos, custos tiveram que ser cortados e antigas formas de administrar foram revistas. O Pão de Açúcar abriu seu capital e se associou ao grupo francês Casino. A injeção de dinheiro ajudou a atualização tecnológica da rede, que foi a primeira do Brasil a investir em varejo virtual, em 1996.

O grupo voltou a prosperar e abrir novas lojas em todo o país, inclusive com uma associação, em 2009, com as Casas Bahia. Do episódio crítico, ficaram duas lições: a necessidade de constante atualização tecnológica e as vantagens da descentralização para atender às exigências específicas de cada praça. Valentim faleceu em 2008, 13 anos após passar a presidência para o filho Abílio.

Mais informações:
Exposição "Pioneiros & Empreendedores", até 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, das 10h às 18h. Entrada e estacionamento gratuitos. Contato: (85) 3477.3319

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