Música

Urros da raça odiada

Com letras em espanhol e senso de humor perverso, a veterana Brujeria se apresenta nesta sexta, no Berlinda

O Brujeria, com seu mascote lúgubre em um cenário que combina bem com a banda
00:00 · 18.05.2018 por Dellano Rios - Editor de Área

O Brujeria já tinha quatro anos e dois EPs, quando lançou seu álbum de estreia. O fato é que foi esse, "Matando Güeros" (1993), que apresentou a banda ao mundo. Nas publicações brasileiras especializadas em metal, o Brujeria foi vendido como uma superbanda, sendo tocada por integrantes do Fear Factory, Faith No More e Napalm Death. Era, de certa forma, um projeto paralelo de músicos de bandas de destaque na cena metal, com um disco forte, com letras em espanhol pautadas na realidade do México contemporâneo.

Vinte cinco anos depois, o Brujeria dispensa essas referências e fala por si só, como uma força autônoma no meio do metal extremo. Parte da fórmula segue intacta: música pesada na linha do grindcore e do death metal; letras críticas e satíricas, insistindo em temas como satanismo, sexo, o universo violento dos "narcos" e o embate com os "güeros", a "raça" branca e alourada dos norte-americanos que massacram os mexicanos na fronteira e além dela. A banda encabeçada por Juan Brujo lançou, até agora, quatro álbuns; deu uma mexida no seu som (que ganhou mais groove em algumas músicas); e, em seu ritmo próprio, está em turnê divulgando o disco que lançou há dois anos, "Pocho Aztlan". E, para mostrar como o mundo dá voltas, o Brujeria é mais um nome grande do metal que se apresenta em Fortaleza. O show acontece amanhã, no Berlinda Club, fechando uma programação que começa às 21 horas e conta, ainda, com show da banda cearense S.O.H. O quarteto KrenaK, que também estava escalado para a noite, acabou cancelando sua apresentação, por meio de sua página no Facebook.

A turnê brasileira do Brujeria conta com sete datas. Passa hoje por Fortaleza e daqui ainda segue para Recife (PE), Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP). Esta é a primeira vez do grupo na capital cearense.

Trump e Macarena

A se considerar o repertório de shows mais recentes, pode-se esperar do Brujeria umas duas dezenas de músicas. A abertura costuma ficar por conta da faixa-título do álbum mais recente, "Pocho Aztlan". Sonoramente, o disco está mais próximo da estreia, "Matando Güeros", ainda que a porrada ali fosse maior.

A música que deu título ao primeiro disco também tem presença garantida e deve ser guardada para o fim, pois tem status de hit.

As duas músicas tocam num ponto recorrente das letras do Brujeria: um violento sentimento anti-americano. "Pocho" é a forma pejorativa usada no México para chamar os norte-americanos filhos de mexicanos. Parte dos integrantes do Brujeria são "pochos", de cidades com forte presença latina, como Los Angeles. A ideia evocada pela palavra é de que o sujeito é hostilizado de um lado e outro da fronteira. Aztlan é a terra prometida dos astecas, mas uma Aztlan dos pochos não deve ser um lugar tão edênico assim.

Os "güeros", que os personagens narcoterroristas encarnados pelos integrantes da banda querem matar, são os americanos estereotipados, brancos e loiros.

O presidente Donald Trump é um bom exemplo de "güero". Cabe tão bem no rótulo que até ganhou uma "homenagem" da banda, o single "Vila Presidente Trump!", que deve aparecer pelo meio do show, denunciando a forma truculenta com que o líder dos EUA costuma tratar seus vizinhos mexicanos.

Entram no show ainda músicas da fase "Brujerismo", quando o som da banda se manteve pesado, mas ganhou um balanço que não é típico do metal extremo. O pacote, contudo, é homogêneo e não decepciona quem curte o gênero.

Há algo de teatral nas músicas do Brujeria, que percorrem imagens comumente associadas ao metal, como os serial killers e os ritos satânicos. Pode não parecer, mas a banda tem um lado cômico. Tanto para quem tem um senso de humor mais perverso, quanto com piadas que requerem um repertório menos especializado. "Marijuana", que já fechou shows desta turnê, é uma versão extrema do infame sucesso "Macarena", com a letra rendendo tributos à Cannabis.

Mais informações:

Brujeria - Brasil Tour 2018. Show da banda mexicana Brujeria, com abertura do grupo S.O.H. Nesta sexta (18) às 21 horas, no Berlinda Club (Rua Dragão do Mar, 198, Praia de Iracema). Ingressos: R$ 122 e R$ 140, à venda na Pranchão (3099.0505). Contato: (85) 3093.6014

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