Espaço Cultural

Unifor O pioneiro dos pioneiros no Brasil

01:23 · 11.04.2012
Imagem e objetos pessoais do Visconde de Mauá em exposição
Imagem e objetos pessoais do Visconde de Mauá em exposição ( Fotos: Rodrigo Carvalho )
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Com habilidade incomparável nos negócios, Visconde de Mauá criou grandes empresas nacionais

Curioso como um nome pode fazer parte de nosso cotidiano e, mesmo assim, sabermos pouco a respeito de seu dono. Visconde de Mauá, por exemplo, é nome de rua, de colégio e até de cidade (RJ). Mas quase ninguém lembra tratar-se do título de nobreza de Irineu Evangelista de Souza, cujos feitos o colocaram em destaque ao longo da história empresarial do País.

Mauá é o personagem que abre o segundo volume da série de livros "Pioneiros e empreendedores: a saga do desenvolvimento no Brasil", do professor da Universidade de São Paulo, Jacques Marcovitch. O trabalho rendeu uma exposição itinerante homônima, atualmente em cartaz na Universidade de Fortaleza (Unifor), que reúne imagens e objetos pessoais dos 24 biografados.

Visionário

Ao longo de sua trajetória, Mauá acumulou feitos inéditos que resultaram em impacto considerável no desenvolvimento da comunicação, transporte e outras áreas infraestruturais do País. Em um único ano (1852), fundou quatro das seis maiores empresas nacionais: Banco do Brasil, Companhia de Iluminação a Gás, Estrada de Ferro de Petrópolis e Companhia de Navegação da Amazônia. Uma quinta empresa, a fundição e estaleiro da Ponta de Areia, em Niterói, fora iniciada anos antes. Já o Banco Comercial pertencia a outro grupo.

Tais feitos ganham aura ainda mais mítica frente ao início conturbado da vida de Mauá. Nascido em 1813, em Arroio Grande (atual fronteira sul do Brasil), seus pais tiravam o sustento da criação de gado - atividade impulsionada pelo estabelecimento das charqueadas; e perigosa pela atuação de bandidos que roubavam animais alheios.

Em 1819, ao voltar de viagem do Uruguai, o pai de Irineu morreu baleado. Após a mãe casar-se novamente, o menino foi mandado ao Rio de Janeiro, onde começou a trabalhar aos nove anos de idade.

No Rio, antes dos 30 já era multimilionário. Nesse ínterim, acumulou amigos e inimigos influentes, além de elementos peculiares em sua biografia - a exemplo dos relatos sobre armas escondidas e passagens secretas em uma de suas residências, uma estância no Uruguai. Aos 26 anos, decidiu passar de comerciante a industrial, mesmo sem nenhuma experiência no assunto. Para preencher a lacuna, zarpou rumo à Grã-Bretanha, que, à época, vivia a primeira Revolução Industrial. Lá, visitou siderúrgicas, tecelagens, ferrovias, casas comerciais e bancos. Em busca de mão de obra especializada, contratou um engenheiro, um mestre-maquinista, um mestre-modelador, quatro caldeireiros e seis moldadores para Ponta de Areia.

Nos anos seguintes, quando iniciou a construção da ferrovia de Petrópolis e da Companhia de Gás, enfrentou problemas diversos, desde burocráticos (regularização de terreno, aprovação de plantas) até mais sérios, como a morte de funcionários, vítimas da então desconhecida dengue.

Inovador

Nas décadas seguintes, Mauá expandiu seus negócios não apenas no Brasil, mas no Uruguai e na Inglaterra. Numa época sem telefones, o empresário recorria aos correios. Segundo Marcovitch, chegava a escrever 20 cartas por dia, com instruções gerenciais a seus subordinados. A capacidade de delegar e descentralizar tarefas aliava-se à valorização dos funcionários (que recebiam bons salários e autonomia no trabalho).

Some-se a isso a habilidade de Mauá em manter aliados poderosos no governo e no setor privado e a capacidade de alavancar recursos, e está explicada sua sobrevivência a diversos momentos críticos, entre crises econômicas e perseguições políticas.

Falido oficialmente em 1878, utilizou propriedades agrícolas no Uruguai (que, por esse motivo, escaparam do processo de falência) para montar uma fábrica de carne industrializada. Após obter lucros, entregou 90% das ações da empresa para os credores. Guardou para si os 10% restantes, que somou aos rendimentos de uma empresa de corretagem montada no Rio, no final de sua vida.

Mauá morreu em outubro de 1889, sem deixar herdeiros que tenham recebido seu talento para a vida empresarial.

Mais informações
Pioneiros & Empreendedores: A Saga do Desenvolvimento no Brasil. Até 13 de maio, no Espaço Cultural Unifor (Av. Washington Soares, 1321, Edson Queiroz). De terça a sexta, das 8h às 18h; sábados e domingos, de 10h às 18h. Entrada e estacionamento gratuitos. Contato: (85) 3477.3319


ADRIANA MARTINS
REPÓRTER

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