Palco

Uma voz pelos mortos

Teatro Máquina apresenta neste fim de semana ensaio aberto de projeto que adapta o texto de Antígona

00:00 · 02.02.2018 por Roberta Souza - Repórter
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Espetáculo "Nossos Mortos": para representar todas as vítimas ( Foto: Alan Sousa/div )

Assim como Antígona - personagem da mitologia grega que desafia o rei Creonte para poder enterrar o irmão Polinice -, milhares são os familiares que sofrem com a perda de entes queridos e com as dificuldades para dar-lhes um sepultamento digno. Que o diga um caso recente em Fortaleza, em dezembro do ano passado, no qual criminosos ligados a uma facção invadiram um velório no bairro da Sapiranga e chegaram a atear fogo no cadáver após retirá-lo do caixão.

Ao observarem situações tão próximas como essa, os integrantes do Teatro Máquina dedicaram-se no último ano ao projeto "Nossos Mortos", cujo ensaio aberto acontece sábado (3) e domingo (4), no Teatro do Dragão, a partir das 19h, com entrada gratuita.

O projeto foi desenvolvido em 2017 no Laboratório de Pesquisa Teatral do Porto Iracema das Artes, com tutoria de Tânia Farias. Mas, antes disso, em 2015, quando o grupo viajava pelo sertão nordestino com "Sete Estrelas do Grande Carro", o embrião já estava formado. A viagem de imersão, pesquisa e produção contou com uma experiência em Arneiroz que serviria de impulso dois anos mais tarde. Munidos de dois textos sobre Antígona - o original e uma adaptação da diretora do Máquina, Fran Teixeira - os atores fizeram leituras dramáticas em um casarão abandonado.

Como 2016 foi um ano intenso de viagens pelo Palco Giratório, o projeto só conseguiu ser retomado mesmo em 2017. "O laboratório da Porto Iracema deu um super gás. Viajamos pro Cariri em novembro pra acompanhar romaria de Finados. Passamos dez dias entre Crato, Juazeiro, Barbalha, visitando cemitérios, igrejas, conhecendo grupos de cantos populares, cantos fúnebres, mulheres que cantam em velórios, homens que têm cantos de penitentes", conta Levy Mota, integrante do Teatro Máquina.

A partir disso, com Consiglia Latorre e Ayrton Pessoa Bob na direção musical, o grupo decidiu explorar em "Nossos mortos" a fala, o canto e a ambiência sonora, a partir das sonoridades fúnebres sertanejas que misturam o canto à oração, o canto coral e as cantilenas tradicionalmente entoadas por sentinelas femininas que reencarnam, em alguma medida, a melopéia (parte musical) da tragédia grega.

Ensaio aberto

O encontro deste fim de semana é ainda para refletir sobre o trabalho. "A gente chama de abertura de processo, um momento de contato com o público, como até já fizemos ano passado duas vezes, no Porto Iracema das Artes. É tanto para ter um feedback prático como para chegar na plateia, sentir o que a gente tá fazendo, porque algumas coisas funcionam, outras não", explica Levy. "Ainda tem muita coisa para ser feita. Estamos no meio do caminho de texto, de cena, e não vamos mostrar tudo", adianta.

O que será apresentado é um recorte de 30 a 40 minutos do espetáculo. No palco, duas atrizes, Ana Luiza Rios (Antígona) e Loreta Dialla (Ismênia) encenam parte do texto original de Sófocles com algumas adaptações, a partir de uma contribuição da dramaturga Ângela Linhares. A pesquisa articula a voz de Antígona às inúmeras histórias dos massacres a movimentos populares, especialmente a do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, em Crato (CE).

"A gente escolheu fazer da Antígona mais que uma personagem, mas uma voz de todos esses mortos. Mortos da história inteira: desde o próprio irmão dela até os mortos do Caldeirão; os índios mortos no Mato Grosso, os jovens revolucionários mortos na Argentina, que incentivaram a criação do grupo 'Mães de maio'; os mortos na Chacina do Curió, que incentivaram o 'Mães do Curió'. O que a gente faz é transformar uma personagem que é um mito nesse porta voz de todos os mortos da humanidade", define Levy.

Finalizada essa temporada de ensaio, o trabalho deve ser apresentado em versão finalizada já no mês de abril. Até lá, o debate continua.

Saiba mais

Além dos ensaios abertos, o grupo realiza duas rodas de conversa nesse fim de semana. No sábado (3), o sociólogo e jornalista Ricardo Moura discute sobre violência urbana no Estado do Ceará e no domingo (4), o pesquisador e professor Ewelter Rocha trata dos ritos fúnebres e sonoridades tradicionais no sertão do Cariri.

Dia 3/2

"Antígona, chacinas e o trabalho do luto em territórios de exceção", com Ricardo Moura, cientista social, jornalista e doutor em Sociologia. Pesquisador do Laboratório Conflitualidade e Violência (Covio), da Universidade Estadual do Ceará (UECE)

Dia 4/2

"Por uma poética da penitência: cantos de morte do sertão do Cariri", com Ewelter Rocha, coordenador do curso de Música da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e professor do Mestrado em Artes do Instituto Federal do Ceará (IFCE),

Mais informações:

Ensaio aberto do projeto "Nossos Mortos", do Teatro Máquina. Dias

3 e 4 de fevereiro de 2018, às 19h,

No Teatro do Dragão (R. Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema).

Entrada gratuita. Duração: 30min, com debate ao final. Classificação: 14 anos

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