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Uma voz peculiar silencia

Ícone da cena grunge que ganhou o mundo na década de 1990, Chris Cornell morre aos 52 anos de idade

00:00 · 19.05.2017 / atualizado às 08:14 por Felipe Gurgel - Repórter
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Soundgarden, banda mais longeva de Chris Cornell. Foi com ela que o vocalista fez o último show

O falecimento relativamente precoce (antes do indivíduo alcançar a terceira idade) chegou para mais um ícone da cena grunge. Após a partida de Kurt Cobain (1967-1994), do Nirvana, e Layne Staley (1967- 2002), do Alice in Chains, saídos de Seattle (EUA) para o mundo, o vocalista Chris Cornell foi encontrado morto na noite da última quarta (17), em Detroit, Michigan (EUA), aos 52 anos de idade.

Cornell faria 53 anos no próximo dia 20 de julho. Ele foi achado sem vida no quarto de um hotel, após fazer show com o Soundgarden, sua banda mais longeva, em Detroit.

As investigações médicas confirmaram a hipótese, de início, de suicídio (o que torna as circunstâncias de sua morte semelhantes às de Kurt Cobain, há 23 anos). O músico teria morrido por enforcamento. O Soundgarden, formado ainda por Kim Thayil (guitarra), Matt Cameron (bateria) e Ben Shepherd (baixo), faria show neste sábado (20), em Columbus, no estado de Ohio (EUA).

Na última apresentação (cujo registro amador está disponível no You Tube, desde ontem (18), através de celulares do público), a banda tocou, por último, "Slaves & Bulldozers" (do álbum "Badmotorfinger", 1991), e Cornell improvisou o refrão de "In my time of dying", do Led Zeppelin, na execução.

Além da carreira solo, Chris Cornell também ficou conhecido, já nos anos 2000, pela trajetória do Audioslave, formação em que o vocalista cantava acompanhado pelos músicos do Rage Against the Machine (Tom Morello, Brad Wilk e Tim Commerford). Os quatro lançaram três discos, entre os anos de 2002 a 2006.

Chris Cornell nasceu em Seattle e deixa três filhos. Dois do casamento com a viúva Vicky Karayiannis Cornell e uma da união com Susan Silver. Pelo Brasil, o vocalista colecionava quatro passagens em carreira solo (iniciada com "Euphoria Morning", 1999) e um único show com o Soundgarden, em 2014, pela programação do festival Lollapalooza, realizado em São Paulo (SP).

A única passagem do quarteto de Seattle pelo país foi bem direta. No palco, Chris Cornell & cia., na época ainda em turnê de divulgação de "King Animal" (2012, último álbum de inéditas do Soundgarden), montaram um set list fundamentado, sobretudo, no auge criativo da banda (o álbum "Superunknown", de 1994).

Embora fizesse parte da mesma cena de onde saiu Nirvana e Pearl Jam (com esta, o Soundgarden inclusive dividiu integrantes e a parceria rendeu o projeto Temple of the Dog, de 1991), o Soundgarden não virou astro pop. Ao lado do Alice in Chains, alcançou o mainstream, virou xodó do público da MTV (americana e brasileira), mas não teve uma carreira com a repercussão das formações encabeçadas por Kurt Cobain e Eddie Vedder.

O trajeto mais obscuro em relação aos "primos famosos" rende, até hoje, uma série de debates enfadados (via redes sociais, claro) sobre quem seria o ícone mais "autêntico" do grunge. Se foi Nirvana, se foi Pearl Jam, Alice in Chains, Soundgarden, ou a própria depressão.

Peso

A exemplo do Alice in Chains, o Soundgarden carregou mais a sonoridade, sempre flertou com o metal e com o hard rock, e só ficou reconhecido como "grunge" (além da óbvia referência geográfica) por conta das letras de teor melancólico e do apelo visceral que, depois de "Superunknown", apareceu com toda força em "Down on the Upside" (1996).

O penúltimo álbum do Soundgarden trouxe pérolas tristes como "Blow Up the Outside World" e "Burden in my hand". E seguiu uma linha que combinava a voz peculiar de Cornell com a densidade do instrumental desde o disco anterior.

"Superunknown" é, até hoje, a principal porta de entrada para o ouvinte conhecer o quarteto. Com este apelo, o disco reúne "Black Hole Sun" (maior hit do Soundgarden), "Fell on Black Days", "My Wave", "Spoonman", "The day I tried to live". Um repertório, do início ao fim, obrigatório para quem pretende compreender o grunge, além do espírito da banda e do próprio Cornell.

Negligenciado

As faixas de "Badmotorfinger" (1991) também se mantiveram, ao longo de 33 anos de carreira do Soundgarden, em evidência no repertório dos shows, sobretudo a tríade "Jesus Christ Pose", "Rusty Cage" e "Outshined". A crítica costuma levantar a história deste álbum como um disco negligenciado da cena grunge, pelo fato de ter sido lançado no mesmo ano do super vendido "Nevermind", do Nirvana, e "Ten", do Pearl Jam.

Embora fosse o frontman do quarteto de Seattle, não há como considerar os demais músicos da banda à sombra de Chris Cornell. O vocalista compôs "Black Hole Sun", por exemplo. Mas todos compunham e formavam uma liga tão intensa (sobretudo nos discos de 1994 e 1996) que o reflexo disso era a sensação de que, em carreira solo ou à frente do Audioslave, sempre faltava alguma coisa para quem o viu no auge do Soundgarden.

Discografia

Soundgarden

1988 - Ultramega OK

1990 - Louder Than Love

1991 - Badmotorfinger

1994 - Superunknown

1996 - Down on the Upside

2012 - King Animal

Solo

1999 - Euphoria Morning

2007 - Carry On

2009 - Scream

2015 - Higher Truth

Audioslave

2002 - Audioslave

2005 - Out of Exile

2006 - Revelations

Temple of the Dog

1991 - Homônimo

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