Cinema

Uma pequena joia brasileira em Berlim

O drama "As duas Irenes", do cineasta Fábio Meira, foi um dos destaques da participação brasileira no festival de cinema alemão

00:00 · 17.02.2017 por Luiz Carlos Merten - Agência Estado
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Cenas de "As duas Irenes". O filme traz boas performances das jovens atrizes Isabela Torres e Priscila Bittencourt e do veterano Marco Ricca

Foi outro belo momento do Brasil na Berlinale de 2017. O diretor Fábio Meira mostrou seu longa "As duas Irenes" para uma plateia formada predominantemente por jovens, na mostra Generation, Geração. Estava acompanhado por suas atrizes, Isabela Torres e Priscila Bittencourt. "As duas Irenes" são filhas do mesmo pai, mas pertencem a diferentes famílias. Uma descobre a outra, iniciam uma aproximação. E ambas estão em pleno rito de passagem - primeiro beijo, primeiro namorado.

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Meira contou que se inspirou numa história de sua família. O avô tinha duas filhas com o mesmo nome. Sua tia nunca quis conhecer a meia-irmã. A história, que ele descobriu aos 13 anos, o perseguiu até quase os 30, quando ele imaginou um roteiro de cinema - e se as duas se encontrassem, o que ocorreria? Foram sete anos de tentativas, e o que nunca mudou foi o desfecho. Aguarde para ver - o desfecho faz a diferença em "As duas Irenes". O filme foi muito aplaudido.

A terça, 14, começou com o filme que talvez venha a ganhar essa Berlinale. O finlandês Aki Kaurismaki tem um jeito todo especial de contar suas histórias. "O Homem Sem Passado" e "O Porto" são grandes filmes. Ele conseguiu, de novo. "O Outro Lado da Esperança" acompanha dois homens - um refugiado sírio que busca cidadania, mas acha que não vai conseguir, e um vendedor cansado de sua vida estável e que resolve comprar um restaurante. As duas tramas juntam-se lá pelos 40 minutos (do primeiro tempo). O filme é maravilhoso e com o chileno "Una Mujer Fantástica", de Sebastián Lelio, deverá estar na premiação de sábado, 18. Pelo menos é o que se espera. São os melhores filmes até agora.

Árabes

Aki Kaurismaki, com sua humanidade e humor derrisório, parece um personagem saído de seus filmes. Refutou, na coletiva, a provocação de uma pergunta se havia risco de 'islamização' na Europa. Lembrou os árabes na Espanha, o Alhambra. Citou Jean Renoir, que se decepcionou por não haver conseguido evitar a Segunda Guerra Mundial com seu clássico "A Grande Ilusão". "Faço cinema para mudar o mundo", admitiu. "Mas já vou ficar contente se conseguir mudar as três pessoas que, provavelmente, vão ver 'The Other Side of Hope'".

Engajado

O festival tem apresentado belos filmes fora de concurso - na quarta-feira (15) foi a vez de "I Am Not Your Negro"/ "Eu Não Sou Seu Negro", de Raoul Peck, que estreou nesta quinta-feira, 16, nos cinemas brasileiros. O filme está indicado para o Oscar de documentário. É poderoso. Peck também está na Berlinale com outro filme fora de concurso - "O Jovem Karl Marx". Tem gente reclamando do foco romântico que ele imprime à sua reconstituição da juventude de Marx e Friedrich Engels, culminando com a redação do Manifesto Comunista. Ambos são grandes caras, amigos. Enfrentam todo tipo de adversidade juntos.

Raoul Peck, que é negro, com certeza não está interessado em ser reconhecido pela vaga conservadora que assombra o mundo atual, como o fantasma do comunismo assombrou a Europa no século 19. Seu filme termina com uma colagem vibrante ao som de "Like a Rolling Stone", de Bob Dylan.

O público, diante desse gran finale, não tem feito outra coisa senão aplaudir. O final para cima - uma réplica de Penélope Cruz para o caudilho Francisco Franco - também tem levantado a plateia de "A Rainha da Espanha", de Fernando Trueba. O diretor está lavando a alma. Ao receber um prêmio na Espanha, disse que não se sentia espanhol, mas um cidadão da Europa e do mundo, solidário com toda resistência ao neoautoritarismo. As redes sociais reagiram, o filme fracassou na Espanha. Aqui, está sendo um sucesso.

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