Diversidade

Uma noite sublime

Ao unir promessas da música e nomes consagrados, Festival ganha segunda-feira irretocável

00:00 · 14.02.2018
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Acima, Dori Caymmi, ovacionado pelo público; abaixo, o violonista Filó Machado, considerado uma lenda do gênero ( Fotos: JL Rosa )
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Sem tempo a perder, na segunda-feira o tradicional encontro com os artistas já deu as caras por volta das 11h. Na sede da Associação dos Amigos da Arte de Guaramiranga (AGUA), Lu D'Sosa comandou o workshop de guitarra. Já no Café do Tom, o papo prosseguiu com o Filó Machado Trio.

Netinho de Sá, Robertinho Marçal e Lu D'Sosa trouxeram o peso "garageiro" ao Festival Jazz & Blues 2018. O trio deu o pontapé com o "Show ao Pôr do Sol" e destrinchou um som encorpado e bem centrado na clássica formação guitarra (D'Sosa), baixo (Netinho) e bateria (Robertinho). O show faz alusão ao histórico de cada músico e incorpora influências que vão do afrobeat ao reggae, do fusion ao funk.

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Ensaiando firme desde dezembro do último ano, Netinho de Sá argumenta que a apresentação representa um dia de felicidade. "Estou realmente honrado", conta o músico. O reggae, a psicodelia, o fusion e black music são jogados em um mesmo turbilhão. A sintonia dos músicos é latente, cada trecho se compõe de maneira bem enquadrada. A guitarra de Lu D'Sosa soa com alma. Em uma execução elegante, os riffs que vã surgindo não soam genéricos em nada. Essa liberdade permite ao virtuoso ser identificado como um dos grandes de sua geração. São influências jazzísticas, roqueiras e brasileiras, o que resulta em trabalhos ao lado de nomes como Waldonys e Isaac Cândido, além do projeto Timbral, banda instrumental que marcou época no Ceará.

Unidos, é perceptível o quanto os três se divertem enquanto trabalham. Do reggae ao funk, do metal ao progressivo, cada camada dessa apresentação é imponente. O trio conseguiu ser aplaudido de pé e a energia dividida com as testemunhas ali presentes só reforça o quanto muita coisa boa vem sendo produzida no chão cearense na última década.

Lenda

Após o furacão protagonizado pelo grupo, outra proposta assume o controle da bela noite que começava. É a vez de um dos mais aclamados violonistas do País dividir toda a riqueza harmônica do instrumento. Com mais de 50 anos de carreira, Filó Machado lançou 13 álbuns, sendo reconhecido com uma indicação ao Grammy Latino Jazz com o disco "Cantando um Samba" (2000) e foi reconhecido com o honroso título de "Mestre da Música".

Neste intervalo, dividiu essa trajetória com outros grandes nomes da música nacional, como João Donato, Hermeto Pascoal, Dori Caymmi, Gal Costa e Djavan.

No Filó Machado Trio, o paulista se fez acompanhado do promissor violonista Felipe Machado (neto de Filó) e do virtuoso pianista e arranjador Fábio Leandro. Nesta edição do Festival, trouxeram na bagagem um espetáculo que já encantou plateias de diversos estados brasileiros e de várias cidades do Japão e dos Estados Unidos.

"Essa canção é de um grande mestre e de alguém com quem tive a honra e prazer de ter uma parceria", explica Filó ao público antes de visitar "Sete Cenas de Imyra", do saudoso Taiguara (1945-1996). No centro, o garoto Felipe passa uma serenidade e aplicação só vista em gente mais tarimbada nos palcos.

O paulistano de 15 anos já nasceu embalado pela música. Aos 3, fez o primeiro comercial cantando. Pouco tempo depois integrou o elenco do musical "A Bela e a Fera". O jovem segue os próprios passos e já garantiu sua classificação na segunda fase do programa de TV The Voice Kids. A promessa executa "Diana", do compositor Toninho Horta.

A voz do jovem revela, para além dos quesitos técnicos toda uma melancolia. Nem um rápido apagão no som conseguiu abalar o menino. Em meio ao rápido silêncio continuou firme e conferiu mais emoção ainda à performance. A imortal "Take Five" é visitada e os arranjos e cadência são construídos com a própria voz de Filó. Após este momento beatbox (onde a percussão é montada no gogó) prossegue uma bela junção de violões.

Ao teclado, Fábio confere novas linhas melódicas por cima da aclamada levada desta canção. A construção surpreende, foge do convencional de outras homenagens ao hit. "Essa foi 'Take Five', de Paul Desmond", falou Felipe com propriedade.

Artista praieiro

Aguardado ansiosamente pelo público, Dori Caymmi conversou minutos antes de sua apresentação sobre passado e presente. Senhor de olhar profundo, costurou instantes da carreira e debateu sobre os últimos acontecimentos no Brasil. "E aí, tudo bem. Vamos entrar no camarim. Rapaz, estou com a garganta ruim e nem posso falar muito", avisou o carioca.

Mas Dori quer falar e se faz pontual no discurso. A primeira pergunta passa pelo esperado repertório de Guaramiranga. "Eu estou fazendo pouco o 'Voz de Mágoa' (último disco de 2016). Estou com esses caras e gosto de fazer eles se divertirem. Quando estou em conjunto, normalmente toco as coisas que eles se identificam um pouco mais", aponta para os parceiros de palco.

Perguntado sobre o atual momento de sua cidade natal, o Rio de Janeiro, o cantor não deixa escapar o abatimento. Critica as gestões públicas e o clima de medo que consome aquela população. "Soube que Fortaleza também está violenta. Essas facções, são uns covardes, gente sem coração", resume o senhor.

Isso explica a versão tão macambúzia para "Aquarela do Brasil" durante o show. "É uma 'Aquarela' meio deprimente. É como me sinto na atualidade. Em relação ao País. Morei 27 anos nos Estados Unidos e estou de volta. Não posso me candidatar ao cargo de presidente e nem tomar vacina contra febre amarela", ironiza.

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