Ensaio

Uma leitura de Helena, de Machado de Assis

00:00 · 17.01.2014
Machado de Assis criou uma obra que inclui romances, contos, crônicas, ensaios, poesia e teatro

Seus escritos já foram objeto de diversos estudos que tem como foco a descrição da indumentária dos personagens.

Ao longo da produção machadiana, vemos como o autor dirige atenção para a moda de seu tempo, não apenas descrevendo as peças de roupa de seus personagens, mas também tecendo comentários acerca da influência de países como Inglaterra e França em nossos hábitos de vestir

As fronteiras sociais

A moda feminina, é utilizada para demonstrar a tentativa de pertencimento à classe burguesa, seja pela qualidade dos tecidos, pelo uso de adereços, ou por estarem de acordo com a moda que era ditada pela Europa, como discorre Silveira (2011): (Texto I)

Na obra Helena, escrita em 1876, objeto deste estudo, Machado de Assis retrata uma sociedade paternalista e ainda escravocrata do século XIX, ilustrada pela família dos Vale - de grande fortuna, poder político e prestígio social.

O núcleo familiar

Composta pelo patrono, o Conselheiro do Vale, sua irmã D. Úrsula e seu filho Estácio, a família Vale é circunda toda a trama. o livro se inicia com a morte do Conselheiro e a posterior abertura de seu testamento. Ironicamente, o patriarca deixa para a família uma filha bastarda, Helena, pedindo que os familiares a acolhessem com afeição e sentimentos dignos de uma filha legítima.

O próprio ritual de abertura do testamento do Conselheiro demonstra como a sociedade e a política da época eram de domínio paternalista, como aponta Chalhoub (1998): (Texto II)

A personagem em cena

Helena do Vale vem para modificar as estruturas da convencional família dos Vale. Inicialmente, D. Úrsula (a tia) demonstra claramente ser contra a ideia de uma bastarda (de origem social desconhecida) ser acolhida no seio de uma família com uma reputação já construída em bases sólidas de moralismos.

Contudo, Helena acaba por demonstrar sua personalidade espirituosa e envolvente e conquista verdadeiramente a todos na casa, inclusive a receosa D. Úrsula.

A protagonista do livro demonstra-se extremamente adaptável às situações e às classes sociais, quebrando paradigmas e falsos moralismos, um comportamento completamente atípico para uma mocinha de dezesseis anos pertencente a uma família elitista e moralista.

Machado de Assis, ainda sob a égide da estética romântica, demonstra isso no processo de conquista da simpatia dos escravos por parte de Helena: (Texto III)

Da Universidade Federal do Ceará

LÍDIA FREITAS
ESPECIAL PARA O LER*

Trechos

TEXTO I

Vinculada, pois, à Moda, a questão da etiqueta encontra-se presente na obra e faz parte do universo da ambiguidade que permeia o romance, em cuja estrutura se enfatiza a moda feminina, não só como elemento de elegância na tentativa utópica de aproximação do proletariado à burguesia, mas enquanto componente essencial do ser e do parecer, do mostrar-se e do esconder-se. Nesse lúdico da literatura engajada (e nisso discordaria a maioria dos estudiosos) Machado de Assis se valia da moda feminina do século XIX, visando ao jogo irônico presente na obra. (SILVEIRA, p. 5, 2011)

TEXTO II

Em Helena, o cenário desenhado em torno da abertura do testamento do conselheiro do Vale é descrição exemplar, se bem que levada às fronteiras do absurdo, de um ritual de afirmação da vontade senhorial: o conselheiro é tão conhecedor de suas prerrogativas - "a estrita justiça é a vontade de meu pai", diria Estácio - que resolve não só legar seus bens, mas também seus sentimentos em relação à Helena.

(CHALHOUB, p. 95, 1998)

TEXTO III

Dos próprios escravos não obteve Helena desde logo a simpatia e boa vontade. Servos de uma família, viam com desafeto e ciúme a parenta nova, ali trazida por um ato de generosidade. Mas também a esses venceu o tempo. Um só de tantos pareceu vê-la desde princípio com olhos amigos; era um rapaz de dezesseis anos, chamado Vicente, cria da casa e particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta última circunstância o ligou desde logo à família do seu senhor. Despida de interesse, porque a esperança da liberdade, se a podia haver, era precária e remota, a afeição de Vicente não era menos viva e sincera. (Machado de Assis, Helena, 1987)


FIQUE POR DENTRO

Aspectos acerca do autor e de sua obra literária

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro, capital, em 21 de junho de 1839. Foi intensa a atividade do escritor na década de 1870. Colaborou no Jornal da Tarde, lançou o primeiro romance, Ressurreição (1872), e exerceu as funções de primeiro oficial da secretaria do Ministério Agrícola, Viação e Obras Públicas (1873). No Jornal das Famílias, entre 1874 e 1876, iniciou a publicação das Histórias Românticas, e, depois, Relíquias de casa velha. Ainda em 1874, começou no jornal O Globo, a publicação, em folhetins, de A mão e a luva. Colaborou na Gazeta de Notícias, na Revista Brasileira e em O Cruzeiro (1878) editou, também em folhetins, o romance Iaiá Garcia.

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