Ensaio

Uma leiteira de Antígona: reflexões e singularidades

Dizia Mário Quintana que quem escreve poesia resgata um afogado. Ligar este dito a um livro é um desafio

00:00 · 22.06.2014

O livro "Antígona e a ética trágica da psicanálise", de Ingrid Vorsatz, é o ponto de partida de nossas reflexões. A autora, psicanalista, conhecedora exímia do apogeu da civilização ática no século V anterior à era cristã, mergulha, a um só tempo, em universos separados pelo tempo cronológico, a Antígona de Sófocles e a psicanálise.

O argumento sustentado pela autora é o de que tragédia e psicanálise isolam a questão central de um sujeito determinado por um campo que lhe é opaco - no primeiro caso, pelo desígnio dos deuses; no segundo, pelo inconsciente - e, em que pese o paradoxo, absolutamente responsável por seu ato. A tragédia antiga apresenta, numa espécie de pré-formulação não sistemática, os elementos estruturais que constituem o fundamento do campo psicanalítico, a saber, a relação do sujeito à instância Outra que determina sua inscrição no campo da palavra e da linguagem e a ética que daí deriva.

Uma verdade singular

A abordagem original de Ingrid Vorsatz em relação à tragédia ática é a de que esta deve ser concebida como uma espécie de dispositivo institucional, inscrito na cultura grega em que a questão ética é apresentada em ato, no real da cena trágica. Esta dimensão de uma verdade singular, uma vez calada com e pelo advento do saber, apenas terá lugar no dispositivo freudiano no qual um sujeito é convocado, através da regra fundamental, a abrir mão daquilo que sabe para dar lugar à verdade de seu desejo, que ele desconhece posto que não é seu, mas, antes, do Outro, advindo de Outra Cena. O esforço da autora é o de demonstrar que na tragédia antiga a problemática ética não é colocada em termos de uma consideração abstrata, mas, sim, apresentada numa espécie de dimensão real que toma corpo e voz na cena pública. Reunido no coração da cidade e no interior do próprio funcionamento institucional o conjunto dos cidadãos é convocado a experimentar uma suspensão temporal, através da qual o espaço também é subvertido. É na tomada de posição do herói na tragédia que a dimensão ética salta aos olhos da polis.

Da tragédia

Vejamos em que termos a tragédia Antígona é apresentada pela autora. Trata-se da última peça da chamada trilogia tebana, muito embora tenha sido a primeira desta trilogia a ser escrita por Sófocles. Em Édipo em Colono, o antigo rei de Tebas, então um velho andarilho cego, exilado da polis em virtude de seus crimes - incesto e parricídio -, lançara uma maldição condenando seus dois filhos, Etéocles e Polinices, a morrerem um pelas mãos do outro. O primeiro havia usurpado o poder, recusando-se à alternância no trono de Tebas inicialmente pactuada entre ambos. Polinices, expulso da cidade, refugiara-se em Argos, retornando a Tebas na condição de invasor, portanto de inimigo da polis, para retomar o poder das mãos de seu irmão mais moço.

Mortos reciprocamente em combate, a Etéocles são concedidas honras funerárias, ao passo que ao cadáver de Polinices é interditado o sepultamento. Antígona, então, decide proceder às exéquias deste irmão, contrariando a proibição imposta por Creonte. Antígona desafia o decreto de seu tio Creonte, tornado rei, que proibira que o corpo de Polinices, - considerado traidor, portanto inimigo da cidade - fosse enterrado em solo tebano, devendo o cadáver permanecer insepulto para ser devorado pelos cães e aves de rapina. Antígona não se curva ante essa determinação real e presta as homenagens fúnebres ao irmão morto, evocando em favor de seu ato leis divinas, não escritas, em resposta à proibição imposta pelo novo soberano. Contudo, não é a maldição de Édipo que justifica o gesto de Antígona; este é tributário apenas de sua decisão fundamentada na Dikè, as leis não escritas dos deuses. Partindo da surpreendente formulação de Lacan na qual ele afirma que "Antígona nos faz, com efeito, ver o ponto de vista que define o desejo.", nossa autora propõe que esse ponto de vista que define o desejo é aquele que concerne à posição do sujeito - em ato - que consente em pagar o preço de sua própria perda, tornando-se pontualmente e por intermédio desse passo (ético) o garante de um campo Outro, Inconsciente. O resultado surpreende o leitor: Ingrid desenvolve, de forma precisa e extremamente poética, uma analogia entre a cena da tragédia antiga, apresentada pela decisão inarredável e solitária de uma mulher em enterrar o corpo do irmão, sob pena de ser levada à morte pelo rei de Tebas, e a cena analítica, na qual ao sujeito moderno cabe se responsabilizar pelo desejo inconsciente, ao preço de uma perda.

FIQUE POR DENTRO

Breves notas acerca da autora e de sua obra

Ingrid Vorsatz é psicanalista na cidade do Rio de Janeiro. Mestre e doutora em Teoria Psicanalítica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua tese de doutorado foi publicada no ano de 2013 - Antígona e a ética trágica da psicanálise - pela Jorge Zahar Editor, sob os auspícios da Fundação Carlos Chagas de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro/FAPERJ. Além da psicanálise, Ingrid Vorsatz se interessa também pela filosofia, literatura e as artes em geral, e, mais especificamente, a ética, a tragédia antiga e a moderna, as artes plásticas, a dança, e, por fim - mas não menos importante - o cinema. Mais recentemente vem produzindo ensaios sobre filmes a partir de uma visada psicanalítica, publicados em diferentes mídias. Autora também de outros ensaios publicados em revistas especializadas.

Betty Bernardo Fuks*
Especial para o Ler

*Doutora em Comunicação e Cultura (UFRJ), psicanalista e professora do Programa de Pós-Graduação da Universidade Veiga de Almeida (Rio de Janeiro). Autora de "Freud e a judeidade: a vocação do exílio" (Zahar 2000) e de "Freud e a Cultura" (Zahar, 2012)

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