Filosofia

Uma história crítica

Em "Grande Hotel Abismo", Stuart Jeffries biografa, de forma acessível, a Escola de Frankfurt

00:00 · 12.06.2018 por Joel Pinheiro da Fonseca - Folhapress
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O filósofo alemão Herbet Marcuse, um dos nomes de destaque do Instituto de Pesquisa Social, que congregou grandes nomes da alemã em Frankfurt. Importante nos anos 1940, o grupo foi um dos pontos de tensão nas agitações culturais de 1968

Como permanecer marxista num mundo que não seguiu as previsões de Marx? Foi essa inquietação, especialmente depois do fracasso da revolução na Alemanha em 1919, que levou à fundação do Instituto de Pesquisa Social, conhecido como a Escola de Frankfurt.

É a história desse instituto que Stuart Jeffries conta em "Grande Hotel Abismo". Nele, acompanhamos a vida e as ideias de seus principais pensadores: Max Horkheimer, Adorno, Walter Benjamin, Marcuse e Habermas.

Sob a direção de Horkheimer, a escola se desviou do marxismo clássico e perdeu o foco exclusivo na economia, passando a estudar a cultura - fosse em seu impacto na sociedade e na mente, fosse para tentar explicar como a história se desviou do curso previsto pelo marxismo clássico. Estava criada a teoria crítica, e seus proponentes se dedicariam ao longo de suas carreiras a isso: criticar.

Jeffries não é acadêmico, e sim um jornalista que traz o olhar do leitor interessado, mas não do especialista -bem como suas próprias críticas -, para autores usualmente restritos à academia. Ao longo de toda a obra, paira uma acusação que ele busca responder: a extrema direita contemporânea vê a Escola de Frankfurt como a grande artífice da destruição do Ocidente pela via da cultura.

Contra o fantasma conspiratório, fica claro o caráter desunido e antagônico dos pesquisadores da escola.

De um lado, temos Adorno, conservador que tinha ojeriza ao jazz (música impotente e alienante), valorizava a família (um esteio contra o totalitarismo) e temia a violência anárquica das revoltas estudantis de 1968 - chegou a ligar para a polícia quando manifestantes invadiram sua sala.

Do outro, Marcuse, que via na emancipação sexual uma chave para a revolução e aderiu aos protestos libertadores.

Para um mundo em constante transformação, as ideias têm que mudar também.

Dos anos 1960 em diante, Jurgen Habermas passou a dar o tom da escola, ao valorizar a democracia e o espaço público de troca de ideias como conquistas burguesas essenciais para qualquer projeto emancipatório e que precisam ser protegidas de forças da política e do mercado.

Ao final, ficamos com um grupo de intelectuais idiossincráticos lutando com instrumentos teóricos de outra era para encaixar ideias numa realidade que impunha resistência e não raro os perseguia.

Nessa tarefa foram capazes tanto de equívocos monstruosos e às vezes patéticos quanto de insights sobre os mecanismos psicológicos e culturais que ajudam na preservação do status quo.

O principal mérito do livro é reproduzir de maneira leve e bem-humorada o pensamento de autores cujos textos são áridos e recheados de jargão.

Além disso, a narrativa biográfica deles, repleta de adversidades - a fuga do nazismo, o suicídio trágico de Benjamin em 1940, os percalços nas revoltas estudantis - traz à tona o lado humano de cada um, enterrando os delírios conspiratórios.

Não foram os criadores da cultura contemporânea, e sim andarilhos desnorteados tateando seu rumo. Muito do que escreveram já envelheceu, bem como o pressupostos marxistas e freudianos de muitas análises, mas não deixa de ser rico acompanhar o desenvolvimento de uma linha de pensamento e sua aplicação a temas e momentos do conturbado século 20.

Tiveram, ademais, a grandeza de jamais compactuar com os regimes de terror que brandiam o nome de Marx; ao contrário, em diversas ocasiões cooperaram e defenderam o Estado americano.

Graças a Jeffries, a trajetória - por vezes trágica- desses intelectuais corre com interesse e bom humor, tornando-se acessível a um público maior.

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