peça artística

Uma dramaturgia popular

Musical "Eu vou tirar você deste lugar - As canções de Odair José" revela um Brasil ainda imerso em injustiças sociais e repressão cultural

Elenco do musical conta com intérpretes de três gerações da música brasileira ( Foto: SERGIO MARTINS )
00:00 · 13.09.2018 por Antonio Laudenir - Repórter

O tempo é implacável quando o assunto é questionar a relevância de uma peça artística. Carreiras inteiras, ou obras específicas, em algum momento, perderam a consistência com o passar dos anos e envelheceram mal. Outras, no entanto, quando iluminadas pelo olhar de uma outra época foram simplesmente resgatadas e até melhor compreendidas. No caso das canções do goiano Odair José - por décadas taxado como um realizador menor dentro da MPB - o processo aconteceu por outras perspectivas.

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Tal qual Chico Buarque, Edu Lobo e Geraldo Vandré, o músico também sofreu com o expediente da censura brasileira. O "cantor das empregadas" como pejorativamente foi chamado, teve canções atacadas pelos censores. Chegou a ser uma ameaça para a Igreja Católica, atravessou perrengues e segue atualmente com uma produção elogiada e consistente.

O musical "Eu vou tirar você deste lugar - As canções de Odair José" investe diretamente neste tema. Tendo como centro narrativo as composições do cantor, o elogiado musical chega a Fortaleza para uma sequência de três apresentações no Cineteatro São Luiz. Vinte sucessos de Odair costuram a narrativa não biográfica com roteiro inédito e ficcional, assinado pelo baiano Sérgio Maggio.

A supervisão musical contou com participação do próprio homenageado e a capital cearense recebe três sessões - na sexta-feira (14), às 14h30 e 19 horas, e no sábado (15), às 19 horas. A de estreia terá entrada gratuita para estudantes da rede de ensino público.

O musical é produzido pelo Criaturas Alaranjadas Núcleo de Criação Continuada e parte da pesquisa sobre os arquétipos presentes na musicalidade de Odair José. A peça se move numa trama iniciada em 1923, quando a cidade de São Paulo foi abalada por um escândalo moralista: o assassinato da cortesã Nenê Romano, morta por um jovem e renomado advogado, filho de família tradicional, e segue para o ano de 1973, com o Brasil inserido no auge da ditadura militar.

Corpo

Sobem ao palco intérpretes de três gerações de musicais brasileiros: Watusi (primeira brasileira e negra a estrelar um show no mítico Moulin Rouge, em Paris, e que por 12 anos estrelou "Golden Rio", tendo Grande Othelo como parceiro), Jones Schneider (de "O Tocador da Viola Envenenada" e "O Coqueiro que Dá Coco") e Luiz Filipe Ferreira ("O Fole Roncou - Uma História do Forró! e "O Tocador da Viola Envenenada").

A direção musical foi cuidada por Luís Filipe de Lima ("Sassaricando" e "L, O Musical"), enquanto a direção de movimento contou com o trabalho de Márcia Duarte. Completam o elenco Camila Guerra ("OperAta"), Gabriela Corrêa ("L, O Musical"), Rodrigo Mármore ("Á Margem do Abrigo"), Tainá Baldez ("L, O Musical) e Renato Milan (do projeto "Garçons que Cantam"). Na banda, estão Guilherme Gê (teclados), Zé Krishna (guitarra) e André Togni (bateria).

O desafio de criação passou por compor uma montagem capaz de mergulhar na estética e mensagem popular tão presentes nas letras de Odair José. Diante desse primeiro passo, a ordem foi extrair todo o conteúdo de protesto e indignação social proposto por este material. Sérgio Maggio estabelece uma ponte entre passado e presente e, infelizmente, segundo o realizador, o musical criado em 2014 passou a dialogar de maneira intensa com o contexto político e social do Brasil de 2018.

Como termômetro, Maggio aponta a reação da plateia quando a montagem passou pela capital baiana. "Aconteceu algo incrível em Salvador, tem uma cena de uma passeata onde os jovens avançam com cartazes onde estão escritos 'censura nunca mais', 'ditadura nunca mais', 'cultura sem censura'. Isso foi escrito em 2014 e têm como referência o passado de 1973. De maneira assustadora, testemunhamos a volta disso, museus e exposições censurados, peças de teatro e peças em escolas censuradas. Essa cena foi aplaudida em todas as sessões e isso nunca tinha acontecido em relação à cena em si. Ela nunca tinha sido aplaudida na entrada, era aplaudida no final", contextualiza o autor.

Crônicas

Por sua vez, Odair José revela ser privilégio ter sua obra e história ligadas a este projeto. O cantor e compositor argumenta que a sintonia com o musical atravessa o caráter de sua trajetória artística - um trabalho, destaca, que teve a característica de gerar uma leitura do dia a dia das pessoas.

"Na década de 1970, eu tinha essa visão meio sociológica de estudar as pessoas, como se fosse uma crônica. Hoje, sinto que essa minha postura voltou para uma geração mais nova, fico feliz de estar acontecendo e de ver esse Odair verdadeiro retornar", completa o cantor.

Programação

Musical "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar - As canções de Odair José". Nesta sexta (14), às 14h30 e 19h, e sábado (15), às 19h, no Cineteatro São Luiz (R. Major Facundo, 500, Centro). Ingresso: R$ 20 (inteira). A sessão de abertura (14h30) é gratuita para estudantes, idosos e pessoas com deficiência. Contato: (85) 3252.4138.

Oficina "Dramaturgia para Musicais Brasileiros", com Sérgio Maggio. Dia 15, das 9h às 12h e das 13h às 16h, no Cineteatro São Luiz. Inscrições: oficina.criaturas@gmail.Com

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