Cuba

Uma amizade inesperada

A exibição de "Santa e Andrés", do diretor Carlos Lechuga, foi proibida em Cuba, mesmo após aprovação do estado para a realização do drama
00:00 · 12.08.2017

Ambientado nos anos 80, sob gestão de Fidel Castro, a trama de "Santa e Andrés" tenta espelhar questões políticas da época com a homossexualidade de seu protagonista, vivido por Eduardo Martinez.

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Andrés é um artista que vive exilado no alto de uma montanha. A ele é destinada a vigília da revolucionária Santa, papel de Lola Amores, que todos os dias carrega sua cadeira e a coloca na frente da casa de Andrés, para impedi-lo de sair durante um evento político importante, afastando-o, assim, da mira da imprensa.

A convivência diária faz com que surjam entre eles alguns interesses, que se desenrolam durante as quase duas horas de projeção. O roteiro acerta ao fazer com que Santa e Andrés encontrem seus próprios mecanismos de aproximação. Suas diferenças, nesse sentido, são fundamentais para que possam se ouvir e se entender. O mundo de fora pega fogo, mas é a partir desse universo micro que os dois transcendem.

Durante a história, Lechuga deixa claro suas preferências políticas na forma com que constrói a relação entre os dois personagens e deles com o exterior. O diretor questiona constantemente as noções de herói e vilão desse recorte histórico. Esses papéis misturam-se à medida que Santa e Andrés se tornam pessoas mais tolerantes com as diferenças um do outro.

Temáticas

Cabe dizer que o fato de Andrés ser homossexual é, a princípio, uma ótima provocação do roteiro, ao mostrar que a perseguição aos gays é algo histórico, especialmente quando agem de forma política para defender os ideais nos quais acreditam.

Os questionamentos sobre a era Fidel e, sobretudo, sobre o que viria a seguir são pertinentes. Tanto que a exibição da obra foi proibida em seu país de origem, Cuba, mesmo depois da autorização do estado para sua realização.

Essa proibição fala muito sobre o quanto a história repercute até hoje e, coincidentemente, os artistas continuam sendo perseguidos por suas ideias. Felizmente, o cinema serve de arma implacável de representação e, de uma forma ou outra, o acesso aos filmes "proibidos" acontecem.

Nesse sentido, o diálogo que "Santa e Andrés" faz com os dias turbulentos de hoje é efetivo, quando a política, mesmo opressora e perdida, ainda tenta se dignificar e impor sua moral desgastada. Por mais que olhe para o passado, o longa cutuca as feridas atuais e suas incompreensões.

Na direção, Lechuga faz bom uso das locações abertas, com a precisão da imagem e da captação da paisagem, bem como da direção de arte que não exagera na reprodução da época (a não ser pelo cabelo rebelde de Santa).

Pena que o roteiro deslize na construção de seus personagens da metade para o final. Santa é a principal prejudicada, pois suas motivações em relação a Andrés se confundem com desejo. Então precisamos engolir que ela ofereça, por exemplo, uma oportunidade de ele se deitar com uma mulher; ela mesma, no caso.

A trama não deixa de cair no novelesco, onde o exagero dos atores em seus momentos de crise quase conseguem desfazer o bom desempenho mostrado no início da película.

Eduardo Martinez, no entanto, tenta preservar o lado lúdico do artista político e sua fuga para o mar é um ato simbólico. Ao final, fica um gosto meio amargo, de obra incompleta (ou em construção), mas que, independente disso, precisa ser vista. (DB)

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