Ensaio

Uma abordagem desenvolvimentista

00:00 · 07.12.2013
A leitura de "Vozes Sem Eco: a angústia dos miseráveis e a revolta da natureza" traz um leque de reflexões

Aponta muita clareza no que se concerne a noções centrais referidas às dimensões do urbano e do rural. Quero, por isso, me aproximar um pouco mais dessa temática, que vem sendo debatida por profissionais da arquitetura, da política, da economia, da sociologia, da geografia, da saúde, da educação e da segurança.

Considero oportuno pensar sobre essas reflexões, produzidas com a liberdade de quem escreve romances, para captar as especificidades de realidades dramáticas, como as que ponteiam e estruturam o universo pouco desenvolvido de muitos dos territórios do Nordeste (urbano ou rural, semiárido ou chovedor). Amplio o foco para ver com nitidez até onde vão as magnitudes do rural no Nordeste, comparado ao urbano, segundo a conceituação do IBGE, baseada fundamentalmente na população, residente em aglomerados caracterizados (ou não) como cidades.

Fluxo e refluxo

Enquanto eu via, lia e revia o que se pensa e o que se diz sobre o Nordeste no qual se Vive Hoje, assim como o que se trata em o "Nordeste que Deu Certo" (livro escrito por Magno Martins em 1993) ou o "Nordeste que Dá Certo" (artigo escrito em 2010 por Jair do Amaral Filho) perpassei pelo que está registrado no "Vozes Sem Eco", onde há um mix de ficção e realidade, a propósito do desenvolvimento do Nordeste. Nesta obra, Ésio de Souza conta o que viu e o que imagina ter sido possível ver, segundo a percepção dos fortes personagens que criou - como o Padre Domício, o Juiz Herculano, o Barbeiro Gregório, a Agricultora Joana Vadinha, a Doméstica Xalana, o Traficante Camunzé, o Favelado Chico Muriçoca, o Comendador Fedegoso, o Prefeito Bonchalé e o Delegado Neco Touro, dentre outros -, para melhor dizer (a partir de Ferruja, sua cidade fictícia do interior do Brasil) sobre o processo de desenvolvimento em curso no Nordeste, no meio século que medeia os anos de 1956 a 2006, e a pobreza que grassa na América Latina. (Na América Latina, assim como na África, no Oriente Médio e em partes da Ásia, o veloz crescimento demográfico em direção às cidades vem se dando sem a contrapartida necessária de crescimento econômico). Ou seja, está-se a ver ali uma aceleração do êxodo da mão-de-obra rural excedente para lugares transformados em favelas urbanas. Isto acontece como a provar que as cidades deixaram, assim, de atuar como máquinas (supostamente) geradoras de emprego. (Mike Davis, Planeta Favela, 2006: 195.)

A função dos espaços

Ao construir os cenários dessa ficção, o autor trabalhou ambientes rurais e ambientes urbanos - e por que não dizer os também considerados como ambientes rurbanos, notadamente os do Nordeste. Esses espaços são, em boa medida, abordados para dar conta da pobreza que avança ali com celeridade. Essa obra oferece vislumbres sobre o processo de desruralização em curso na Região, mais críticos quando se dão em seus espaços semiáridos. O urbano ali não passa, muitas vezes, de um aglomerado de habitações subnormais, onde não há emprego e sobra muita necessidade. A renda dos que ali vivem vem do exercício de subocupações exercidas fora daqueles aglomerados, que são considerados como urbanos no curso do processo de favelização que tem caracterizado a periferia de muitas cidades dos espaços nacionais e subnacionais aqui referidos.

Suas percepções são importantes, porque são idealizadas com percuciente visão de mundo. Do que li neste livro mostra a relevância conferida a "Os Sertões", a obra magna de Euclides da Cunha, é possível pensar na coerência da construção de obras como "Sobrados e Mucambos" ou "Rurbanização: que é?", ambas de Gilberto Freyre..

OTAMAR DE CARVALHO
COLABORADOR*

Doutor em Economia pela Unicamp.

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