Em cartaz

Um Hamlet para o dia de hoje

Em cartaz no Teatro Dragão do Mar, Armazém Companhia de Teatro faz releitura da obra de Shakespeare

00:00 · 31.08.2018 / atualizado às 09:27 por Diego Barbosa - Repórter
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Elenco da Armazém em cena: texto mantém diálogo fácil com o público ( Foto: NITYAM PREM )

Vulto dos mais proeminentes, William Shakespeare (1564-1616) deixou uma marca indelével em leitores e espectadores de todo o mundo. E se, mesmo após séculos da morte do bardo, ainda há um constante interesse em jogar luz sobre suas obras, é porque ele tem muito a dizer para os tempos de hoje, dialogando com temas que vão dos relacionamentos familiares à ética, política e moral.

Na esteira desse pensamento, a Armazém Companhia de Teatro, de Londrina (PR) - com sede no Rio de Janeiro - chega a Fortaleza para apresentar o espetáculo "Hamlet", baseado na obra homônima e uma das mais representativas do escritor inglês.

A montagem está em cartaz no Teatro Dragão do Mar em curta temporada, de 31 de agosto a 2 de setembro, com ingressos no valor de R$ 40 (inteira). É possível conferir a apresentação a partir das 20h - na sexta e no sábado - e a partir das 18h, no domingo.

A passagem pela Capital acontece após travessia por Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Vitória, Recife, Aracaju e Salvador, compondo a turnê nacional do trabalho (que, até o fim do ano, deve passar ainda por Natal, Angra dos Reis e São Paulo). O mesmo já vem embalado por um grande reconhecimento no País, conquistado desde quando estreou, no ano passado.

Para se ter uma ideia, a peça já recebeu o Prêmio Cesgranrio de Teatro, na categoria Melhor Iluminação; o Shell, de Melhor Cenário; e o Cenym, de Melhor Atriz (para Patrícia Selonk) e Melhor Companhia de Teatro, além de várias indicações em outros concursos.

Conforme avalia Paulo de Moraes, diretor do espetáculo, o prestígio alcançado dialoga com o princípio de aprofundamento teórico intrínseco às criações da Companhia. "Foi um trabalho feito com muita pesquisa e cuidado. E os atores são maravilhosos", justifica.

Falando-se do elenco, sete atores dão vida aos personagens shakesperianos, a saber: Patrícia Selonk (intérprete do protagonista), Ricardo Martins, Marcos Martins, Lisa Eiras, Jopa Moraes, Isabel Pacheco e Luiz Felipe Leprevost. Já a tradução do texto ficou a cargo de Maurício Arruda Mendonça, parceiro habitual de Paulo de Moraes em muitas dramaturgias montadas pelo grupo.

Enredo

Ao reviver a famosa história no palco, a busca pela Companhia é encontrar um Hamlet do nosso tempo. Para isso, parte basicamente do enredo da obra original, em que Shakespeare representa a corte real dinamarquesa mergulhada num antro maléfico, onde assassinato, traição, sexualidade e corrupção são instrumentos usados na guerra para preservação do poder.

Hamlet ocupa o centro desse contexto. Homem preocupado com a natureza da verdade, ele deseja ser mais verdadeiro do que provavelmente é possível, exigindo, de igual forma, que as pessoas sejam todas verdadeiras com ele. A consequência é fácil de imaginar: o personagem torna-se um sujeito desiludido, atormentado, sinistro e fatal.

De acordo com Moraes, "em 'Hamlet', Shakespeare faz uma radiografia tão detalhada do homem, que continua valendo até hoje. Parece que mudamos muito pouco com o passar da História, o que é uma pena. Questões levantadas por ele em 1600 continuam valendo pra nós. É uma peça incrível, inesgotável, infinita. E muito popular. Isso é surpreendente", comemora.

O diretor comenta que a montagem tem o mérito de apresentar essa narrativa como se o público estivesse ouvindo tudo pela primeira vez, valendo-se do uso de elementos como músicas, vídeos e sofisticação do cenário para contribuir na imersão.

"Há uma contemporaneidade nessa forma de passar a mensagem, certo jogo de esconde e revela que o cenário propõe. Os desafios são imensos. Cada cena, cada frase é uma vastidão. Meu trabalho foi como o de um 'escavador de sentidos', tentando extrair o máximo de cada situação", detalha ele.

Diálogo

A escolha pela releitura dessa obra em específico de Shakespeare, segundo o realizador, é devido ao caráter de fácil diálogo que ela estabelece com o momento atual, sem, no entanto, exigir da Companhia que seja ilustrativa ou literal para ressoar o discurso que pretendem.

"Não preciso falar do obscurantismo do Brasil ou colocar um Trump em cena porque tudo o que é dito na peça conversa claramente com o que estamos vivenciando no Brasil e no mundo", contextualiza.

Longo, o processo de montagem do material durou quase um ano até a estreia no Rio de Janeiro, em 2017, integrando a rota de comemorações pelas três décadas de trabalho do grupo.

Por isso, de maneira especial, "Hamlet" não deixa de representar uma inovação para a Armazém, tanto no repertório quanto na maneira de trabalhar.

Acostumada a processos que resultam na criação de uma dramaturgia própria - caso das montagens "A Marca da Água" e "O Dia em que Sam morreu", entre outras -, desta vez a Companhia volta-se com maior interesse ao posicionamento diante de uma narrativa, rendendo uma mensagem poderosa.

"'Hamlet' é a história da destruição de uma ordem estabelecida. Acho que o mundo vive um pouco isso hoje em dia, a destruição de uma ordem, o colapso de um tempo. Um momento em que o mundo como a gente conhecia começa a perder o sentido, onde muitas palavras - como democracia, por exemplo - também parecem perder o sentido", dimensiona Paulo.

"Na nossa montagem, a política é o epicentro porque, na essência, trata-se de uma história sobre a usurpação do poder. Nosso Hamlet é furioso, feroz. Ele reage. Ele é o grande provocador da destruição desta ordem. A ruína vem de dentro. Tomara que ele consiga tocar o coração dos cearenses", torce.

SAIBA MAIS

Para desbravar Shakespeare

Companhias teatrais cearenses também promovem olhares sobre a obra do bardo, com diferentes propostas. Confira alguns trabalhos.

"Ensaio sobre Hamlet", do Grupo Experimental de Teatro: elege a loucura como fio condutor da apresentação, configurando-se como um interessante experimento artístico inspirado na tragédia do autor inglês.

"Otelo", do Coletivo Cambada: expõe os diversos instintos dos personagens por meio da corporeidade e do minimalismo, abordando temas como amor, ódio, inveja, ciúme, intriga e racismo.

"Romeu e Julieta - O encontro de Shakespeare e a cultura popular", do Grupo Garajal de Teatro: transpõe a trama de Shakespeare para um terreiro de reisado. À narrativa, são agregadas as figuras de Mateus, Catirina e Jaraguá, além de príncipes e guerreiros, a mediar o embate das famílias Montecchio e Capuleto.

"O Auto do Rei Leal", do Coletivo Rei Leal: conta a história do cego Leal que, cansado de suas obrigações, decide dividir seu reino com as três filhas. Integrou a programação do 25º Festival de Teatro de Acopiara, no ano passado.

Entrevista com a atriz Patrícia Selonk

Como é interpretar uma das personagens mais famosas de Shakespeare e como se deu o processo de preparação para o papel?

Está sendo delicioso fazer essa personagem! É um desafio percorrer a trajetória de Hamlet a cada apresentação, mas a alegria de poder fazer é imensa. O processo foi longo, quase oito meses de ensaio. O principal desafio, para mim, foi encontrar a violência da personagem no meu corpo. Porque, embora no meu entender, Hamlet tenha uma inclinação ao devaneio, à contemplação e à filosofia, neste universo de Elsinore - ao se fingir de louco para observar melhor o comportamento das outras personagens e tomar sua decisão de vingar a morte do pai (em ação, não em palavras) - ele absorve a loucura do mundo à sua volta e perde parte de sua sanidade. Investigar isso e outras questões que compõem a peça no meu corpo foi um processo longo e doído em muitos momentos.

Você contracena com mais seis atores. De que forma se organizam no palco para dar conta de toda a complexidade da montagem?

Sinto que nós todos temos uma sensação de pertencimento ao "teatro de grupo". Nosso Hamlet é feito por uma companhia de teatro que acredita na potencialidade do seu coletivo. É desafiador para todos nós contar bem essa história a cada apresentação. São duas horas e meia de espetáculo, é necessária uma interação refinada entre os intérpretes para que a peça flua bem. Acredito que essa boa interação me ajuda muito porque me sinto ancorada pelos outros atores.

Pelos palcos que vocês já passaram, como o público reagiu ao espetáculo, já que ele atravessa de forma tão contundente os dilemas da contemporaneidade?

O que percebo é que Shakespeare continua sendo muito atual. Ele era popular em sua época e consegue ser popular em 2018. E o que é melhor, sem perder a complexidade. Percebo que o público fica muito atento à história. Conseguir abordar temas espinhosos como disputa de poder, assassinato e traição sem perder uma comunicação direta com a plateia: esse é o nosso desejo e talvez fosse o de Shakespeare também. Nesse sentido, nós e ele somos próximos hoje.

Qual legado profissional fica com a realização de mais uma apresentação da peça?

Hamlet é considerado uma das personagens mais complexas do teatro. Acho importante uma atriz poder mostrar sua compreensão dessa complexidade. E acho muito importante que outras mulheres vejam isso acontecendo, se identifiquem com esse lugar de protagonismo, se reconheçam e se inspirem. Ainda é necessário a afirmação desse potencial feminino. Em 2017, participei com o Armazém do Wuzhen International Theatre Festival, na China, com o espetáculo "A Marca da Água". Numa das ruas que abrigou o festival haviam inúmeras flâmulas com rostos dos atores, diretores e autores mais importantes do teatro de todos os tempos. No meio de aproximadamente 50 flâmulas, eu contei três rostos femininos: Ariane Mnouchkine, Pina Bausch e Elfriede Jelinek. Quando vi isso, pensei: "Que bom que estou fazendo Hamlet e podendo dar a ele o sabor de minha feminilidade". Para mim, esse tem sido o principal legado das apresentações. (DB)

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