Artes Cênicas

Um gênero de potencial

Primeiro musical da Broadway em Fortaleza, "Avenida Q" é uma verdadeira odisseia para seus produtores

00:00 · 19.02.2015
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Acima, o diretor da adaptação de "Avenida Q" em Fortaleza, André Gress: "estamos felizes com o time que conseguimos montar"; abaixo, elenco da versão original de "Avenida Q", em Nova York
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O processo foi longo. Ainda em 2009, quando estudava cinema na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, o cearense Allan Deberton assistiu ao musical "Área Q", na capital fluminense, adaptação do original da Broadway "Avenue Q". O encantamento foi imediato. "No Rio os musicais era uma febre, inclusive com montagens nacionais. 'Avenida Q' foi a grande sensação da temporada, era bem diferentes dos demais. Ele desmantela situações do cotidiano, é bem irreverente e direto, deixa o espectador desconcertado", recorda o produtor.

Mais conhecido por seu trabalho como roteirista e diretor de cinema, Deberton tem no currículo os curtas "O Melhor Amigo" (2013) e "Doce de Coco" (2010), ambos premiados. Mas são os musicais sua grande paixão. "É um gênero muito caro e complexo de se fazer no cinema, tanto que não há muitas produções brasileiras. No teatro ele também é difícil, mas menos", explica, justificando seu atual envolvimento com a linguagem.

Naquele mesmo 2009, botou na cabeça que traria "Avenida Q" a Fortaleza. Para começar, precisou adquirir os direitos do musical, criado por Robert Lopez e Jeff Marx, com libreto (texto) de Jeff Whitty.

Lançado em 2003, o musical ganhou no ano seguinte os três mais importantes Prêmios Tony (o Oscar do teatro): Melhor Musical, Melhor Música e Melhor Libreto. De lá para cá, foi montado em diferentes países. "Não sabia por onde começar, é tudo bem complicado. Para ceder os direitos os detentores fazem uma pesquisa minuciosa sobre quem vai produzir, como vai ser. Todos os interessados precisam negociar diretamente com o escritório em Nova York", recorda. Após mais de um ano Deberton conseguiu comprar os direitos, com recursos próprios.

Humor

Parcialmente inspirado no programa de TV "Sesame Street" (Vila Sésamo, no Brasil), "Avenida Q" mistura personagens humanos e bonecos, numa história que satiriza aspectos da vida adulta - mais precisamente de quem a está iniciando. A trama gira em torno do personagem Princeton, recém-formado na faculdade e cheio de sonhos, mas sem dinheiro.

Na contramão do desejo de morar num bairro nobre de Nova York, descobre que seu orçamento mal dá para bancar um apartamento na Avenida Q, numa área pobre da Big Apple. Lá, ele tenta, com seus vizinhos, viver uma vida digna - algo que descobre ser quase impossível naquele bairro.

A partir daí, são inúmeras as situações passíveis de comicidade. Há espaço inclusive para temas mais sisudos, como homossexualidade e racismo. A adaptação brasileira foi dirigida em 2009 por Charles Möeller e Claudio Botelho e em 2010 por Christina Trevisan. "É considerada uma das melhores montagens de teatro musical, recebeu cinco indicações ao Prêmio Shell de Teatro em 2009", frisa Deberton.

"Pelo fato de ser consagrada, optamos pela versão de Botelho", esclarece o produtor. Mas ele explica que apenas o texto, as músicas e suas letras são iguais. "Todo o resto - figurino, cenários, construção dos bonecos - tudo é assinado pela equipe local". Por falar nela, é importante mencionar o braço direito de Deberton na empreitada. Enquanto ele assina a produção executiva, o colega André Gress assume a direção.

A captação de recursos foi outra etapa difícil. "Pensamos que seria fácil pela reputação do musical, pela chancela do sucesso de público. Mas as empresas não conseguiam entender ou não tinham disponibilidade financeira. É complicado, mas estamos conseguindo", comenta Deberton. A previsão é que o espetáculo estreie em julho deste ano.

"E isso é porque não temos o orçamento original da montagem, que é de três milhões. Esse valor aqui é impraticável, tivemos que adaptar e trabalhar com um formato mínimo na equipe. Mas temos contato com pessoas que acreditam no gênero, temos conseguido um bom time", comemora.

Para coordenar a manipulação de bonecos, por exemplo, eles chamaram Zé Clayton, que há mais de 25 anos trabalha na criação e construção de bonecos e personagens. Sua carreira se destaca pela extensa atuação na Rede Globo, onde começou no programa infantil TV Colosso.

Já para a direção musical convidaram Miguel Briamonte, em cujo currículo constam montagens como "Fantasma da Ópera", "A Bela e a Fera" e "Gaiola das loucas". A cenografia ficou a cargo de do artista cearense Rodrigo Frota, destaque no circuito de artes visuais da cidade.

Para a equipe que efetivamente subirá ao palco, o produtor e o diretor abriram inscrições entre os dias cinco de janeiro e 10 de fevereiro. Apenas no último dia receberam material de mais de 200 candidatos, de Fortaleza, Rio de Janeiro e São Paulo. "Nossa ideia sempre foi privilegiar artistas e profissionais do Ceará, mas não podíamos deixar de fora essas outras duas janelas, por serem cidades onde os musicais já são fortes", observa Deberton.

Após avaliação do material (em vídeo), os selecionados serão convocados para os testes presenciais, que acontecem durante dois dias em Fortaleza e três no Rio e em São Paulo. Os resultados devem sair na primeira semana de março. "Queremos fechar o elenco na segunda semana. Mais à frente lançaremos a seleção para os músicos", adianta Deberton.

"Estamos felizes porque todo mundo envolvido parece instigado com o fato de estarmos tentando fazer uma coisa grande aqui. Não apenas trazer musicais, mas iniciar um movimento de formação de público e de profissionais para isso", pontua.

Formação

Nesse sentido, o trabalho começou há mais tempo, após a aquisição dos direitos mas quando "Avenida Q" ainda estava na esfera dos planos. Em 2013, Gress e Deberton realizaram na Caixa Cultural Fortaleza um programa de formação voltado especificamente ao gênero de musical, chamado "Broadway Brasil".

Contemplado em edital, o projeto contou com a participação de Thom Warren, nome consagrado do gênero nos EUA, residente da equipe do musical "O Rei Leão", entre outros. "Era para ser apenas uma oficina de quatro horas, partiu de nós a iniciativa de correr atrás de mais apoio, de trazer o Thom. Foi um esboço pra gente ver se a ideia de trazer um musical da Broadway daria certo, no sentido de começar uma profissionalização", comenta Deberton.

O produtor garante que outro programa deve acontecer em breve, não apenas em Fortaleza, mas no Rio e em São Paulo. "Estamos muito felizes, passamos quase cinco anos para levantar as pessoas e os recursos para o projeto, da maneira como ele deve ser feito. É uma estrutura grande, com quase 150 profissionais envolvidos direta e indiretamente", celebra Gress.

Adriana Martins
Repórter

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