Ensaio

Um escritor de alma barroca

02:06 · 11.05.2013
O barroco, como um fenômeno de grande complexidade, retoma, com maior rigor e forma crítica, o lugar que lhe é devido no processo de evolução das formas artísticas dentro da modernidade. As características do homem agônico e em conflito do século XX/XXI se assemelham às características do homem do século XVIII. Há um trabalho com a estética barroca como tema poético para expressar as angústias do homem moderno e contemporâneo.

A estética barroca é marcante em toda a composição literária de Autran Dourado de que foi um simpatizante declarado. Em Uma poética de romance: matéria de carpintaria (2000, p. 37) ele afirma: (Texto III)

Uma leitura

Compreende-se, assim, que a infiltração do barroco em sua obra se dá como proposta para se ver a obra, que deve ser captada em todos os seus ângulos de significações. No estudo Barroco: do quadrado à elipse (2000, p. 268), Affonso Romano de Sant´Anna acrescenta e reitera a ideia de Autran Dourado ao afirmar que o Barroco, mais do que um estilo de época, pode ser uma estratégia de representação e de organização do pensamento

Recursos expressivos

Neste sentido, ele é intemporal. Ao escrever sobre a tônica da narrativa ou a arte da novela como construção e jogo, Autran diz: Jogo e construção, o aspecto lúdico da montagem, a múltipla leitura que o barroco propõe, tudo isso cada vez me fascina mais e mais. (2000, p. 57). A narrativa de Ópera dos mortos (1967) transcorre dentro de um tempo passado, um tempo dos mortos, dos relógios parados; o que vai dimensioná-lo são as referências à estética barroca, que aparece como sugestão para o aprendizado do olhar das personagens e do leitor.

O ponto de vista

O narrador perspicaz, como por exemplo, o de Ópera dos mortos alerta todos para que observem os vários lados, os vários ângulos de um objeto, procurando desfocar a visão de um só ponto de vista. Essa postura vai induzir o leitor a visualizar essas várias possibilidades, as múltiplas perspectivas de um mesmo acontecimento. Por conseguinte, esse objeto ou esse acontecimento será apreendido de diferentes modos e de vários prismas.

Não só em Ópera dos mortos como em outros romances de Autran vamos encontrar toda uma teoria do barroco, as dicotomias e antíteses - luz e sombra, cheios e vazios, retas e curvas; só falto citar Wölfflin e Hatzfeld (2000, p. 54). Para reforçar, Autran Dourado afirma: O que estou parodiando na abertura da Ópera dos mortos, imitando mesmo, é o movimento pendular e circular do barroco. ...as volutas e curvas sensoriais - sensuais dos escritores barrocos. (2000, p. 55).

Uma obra aberta

Autran Dourado é simpático do conceito de estrutura aberta do barroco de Wölfflin; segundo ele, na estrutura aberta do barroco, é possível a múltipla leitura, mas o autor continua comandando o espetáculo (2000, p. 40), e continua afirmando que, nesse conceito de obra aberta do barroco, o texto tem uma unidade vertical.

Fazendo uma comparação entre o conceito de obra aberta de Wölfflin e o de Umberto Eco, observa-se que a leitura de Umberto Eco é mais atual. Ele aproveita as idéias de Wölfflin e amplia o campo de aplicaçã o, abrangendo as artes em geral. Umberto Eco parte de uma simples comunicação com o título: "O problema da obra aberta" em 1958 e, depois, transforma num ensaio (1962) e, em seguida, em livro (1968), onde vai rever vários conceitos, como comunicação, informação, alienação e, principalmente, o de abertura, dentre outros, mas sempre trabalhando dentro de uma concepção similar ao conceito de Wölfflin. (Texto IV)

Registros da estrutura aberta do barroco encontram-se nas primeiras páginas de A barca dos homens (1961, p. 13) onde o narrador diz que, no mundo, havia o lado escuro e o lado claro, negrume e luz ou, falando sobre a menina Helena, que nela era mais aguda a realidade negrume-luz, claridade-sombra (p. 14). A narrativa prossegue nesse jogo ambíguo de cores do nem claro nem escuro. (Texto V)

No início do romance Os sinos da agonia (1974, p 13), quando o narrador apresenta o ambiente, claramente Minas Gerais no momento áureo da exploração aurífera, mostra a situação em que se encontrava Januário, o bastardo; irrompe um fluxo narrativo ininterrupto entre claro e escuro. (Texto VI) Os romances, como: A barca dos homens (1961), Uma vida em segredo (1964), Ópera dos mortos (1967), O risco do bordado (1970), Os sinos da agonia (1974) e Lucas Procópio (1985), vêm confirmar a disposição do artesão-barroco de, no texto, trabalhar todos os pormenores incansavelmente (escrevendo diversas vezes alguns capítulos) sem descuidar de que, mesmo o nome de personagens, ainda que secundários, deixe de ter um significado que ligue a um outro dentro do texto, formando um todo.

Considerações finais

A personagem narradora Erasmo Rangel de O meu mestre imaginário (1982) convida o leitor a ler, mais de uma vez, os livros e, mais de duas vezes, algumas partes. A construção dos textos de Autran Dourado se dá de forma labiríntica, cheia de volteios, de avanços, de recuos e de novas retomadas. A elaboração dos blocos é, assim, comparável à feitura de uma arquitetura barroca que se vai formando, aos olhos do leitor, como num mosaico. (Texto VII)

No momento em que se observa um texto composto de blocos distintos, percebe-se uma unidade entre eles. Como se vê, a consciência do seu fazer literário, a incansável dedicação e atenção aos processos de narrar, a preocupação com a linguagem e a valorização da palavra escrita fazem com que sua narrativa tenha lugar reservado no cenário da ficção moderna e contemporânea brasileira. (L. F.)

SAIBA MAIS

FERNANDES, Liduína Maria Vieira. O trançado das personagens negras na costura-risco autraniana. Tese. UFPB: João Pessoa, 2006. Orientadora: Profª. Dra. Elisalva de Fátima Madruga Dantas.

LEPECKI, Maria Lúcia. Autran Dourado: uma leitura mítica. São Paulo: Quiron; Brasília: INL, 1976. (Escritores de Hoje, 5).

SANTIAGO, Silviano. "Autran Dourado: questão de perspectiva". In: Nas malhas da letra. São Paulo. Companhia das Letras, 1989.

SENRA, Angela. Paixão e fé: os sinos da agonia de Autran Dourado. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1991.

SOUZA, Eneida Maria de. Autran Dourado. Belo Horizonte: Centro de Estudos Literários da UFMG; Curso de Pós-Graduação em Letras - Estudos Literários, 1996. (Encontro com escritores mineiros; 2).

Trechos

Texto III

A visão que tenho do barroco é uma visão pessoal, criativa e ´ideológica´ O barroco para mim não é apenas um conceito histórico, capítulo da história da arte, mas alguma coisa viva e atuante, que me estimula na elaboração da minha própria criação literária.

Texto IV

"Abertura" não significa absolutamente "indefinição" da comunicação, "infinitas" possibilidades da forma, liberdade da fruição; há somente um feixe de resultados fruitivos rigidamente prefixados e condicionados, de maneira que a reação interpretativa do leitor não escape jamais ao controle do autor. (ECO, 1991, p. 43).

Texto V

A nossa barroca alma mineira, o nosso linguajar arcaico resultante do negrume colonialista com que Portugal tratou as Minas, o claro-escuro antitético mineiro, as nossas contradições e proximidades, as mil e uma Minas. (2000, p. 53).

Texto VI

Não fosse a luz leitosa da lua cheia, agora alta, pequena e redondinha no céu (grande e sanguínea quando nasceu detrás da negra muralha da serra; desde ante s de escurecer ele estava ali, a seu lado o preto Isidoro sempre mudo e fechado, os olhos brilhosos e raiados de sangue, só uma ou outra fala ele agora dizia, e no escuro e mudez parecia mais negro ainda), a luz alvaiada rebrilhando nas pedras do calçamento, nas lajes lisas e polidas das ladeiras, o luar iluminando com o seu brilho esbranquiçado as casas caiadas de branco, as igrejas solitárias...

TEXTO VII

Se o leitor não percebeu toda essa armação, toda essa máquina e carpintaria, e sentiu apenas o efeito que procurei alcançar; se apenas fruiu, sem perceber a presença e os ruídos dos meus martelos, serras, formões e cepilhos, os benefícios e a possível força e beleza da proporção, do balanceamento,

do ritmo, da estrutura musical, temática e sinfônica de O risco do bordado, sem ver onde estava o dedo do artesão paciente, modesto e caprichoso; se o possível leitor destas notas, após a leitura de O risco do bordado, julgá-las absurdas e mistificadoras, eu me darei por bem pago. É sinal de que os andaimes que usei para levantar e construir o meu livro, segunda essa planta baixa, não deixaram nenhum vestígio, o que é bom para a obra de arte completa e acabada. DOURADO, Autran. Uma poética de romance: matéria de carpintaria, pp. 78,79.

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