Ensaio

Um discurso político e social

00:49 · 20.07.2013
O poema "A Rosa de Hiroshima" revela um o poeta social, mergulhado pelo propósito ideológico de denúncia e marcado pela impotência do homem, diante de um mundo frio, mecânico e cruel, que o reduz a um objeto "sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada". (Texto III)

A comparação da bomba com a rosa forma um interessante paradoxo entre a destruição e a fragilidade; a razão e a emoção; o terror e a beleza. Dessa forma, a coisificação que a palavra "rosa" adquire no poema, torna-se a representação de um objeto mnemônico, lírico e oposto ao sentido de bomba atômica. Vinícius de Moraes comparou a imagem produzida no instante em que a bomba atingiu a cidade de Hiroshima como uma rosa que cobriu com suas pétalas de fogo e sangue toda uma população deixando-a "sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada", portanto, transformando-se em uma "anti rosa" que trouxe a morte

Leitura do poema

O poema se constituí de uma única estrofe, no qual, a função emotiva aparece em cada verso, através das analogias entre as causas e os efeitos da "bomba atômica" aliada a função apelativa. c; que se contrapõe à métrica homogênea do lirismo clássico. Quanto às rimas elas são misturadas e toantes. O fator sonoridade tem destaque no poema, pois o ritmo é presente e constante durante todo o poema, com intervalos bastante regulares. Além disso, temos a formação de eco, na primeira parte do poema , pela constante repetição das terminações "as" e "em". Compõe-se de dezoito versos que se completam, representando o desencadeamento sucessivo de ideias.

Apresenta orações simples, exceto pela oração subordinada "Pensem nas feridas como rosas cálidas" onde a conjunção ´como´ subordina o pensamento à idéia de ferida proposta pelo poeta. O "Eu lírico" simboliza a rosa em alusão à flor de dejetos e fumaça que a bomba criou. Os versos 11, 12, 13 e 14 têm seis sílabas e todos fazem parte de uma única imagem - a da bomba - portanto, devem ser interligados através da sinérese entre vocábulos e versos.

Funções da linguagem

Nesse poema destacamos a função emotiva que remete a uma tentativa constante de apelo emocional, que aparece através da apresentação seqüencial de expressões que nos remetem a cenas (imagens mentais), capaz de nos causar um certo desconforto emocional, chegando a nos incitar à piedade. Como nos termos: "crianças mudas telepáticas", "meninas cegas inexatas", "A anti-rosa atômica", "feridas como rosas cálidas", "sem rosa", "sem perfume", "sem nada".

Nos versos 7 e 8 (Pensem nas feridas / Como rosas cálidas), o poeta usa a metáfora para comparar as feridas com "rosas cálidas", subjetivamente comparando-as a chagas ainda latentes, quentes , ainda frescas, que estariam ali aflorando de maneira ardente. Observe que o poeta utiliza o verbo "pensem"em uma forma repetitiva, levando o leitor a um chamamento que parece hipnotizá-lo e levá-lo a um meditação, formando imagens em sua mente: "Pensem nas meninas" ,"Pensem nas mulheres", "Pensem nas feridas".

Há ainda a utilização de muitos adjetivos, sejam para qualificar os males, sejam para adjetivar negativamente a bomba. O poema termina com com dois versos em redondilha menor (cinco sílabas) e iniciados ainda em consoantes: "Sem cor sem perfume / Sem rosa, sem nada.", que mostram novamente, as consequências da bomba, deixando o local desabitado, e também sem vida.

As fragilidades

O "soneto de fidelidade" destaca a força e intensidade de um grande amor, mas que pode acabar com o tempo. Mesmo assim, deixará profundas recordações e terá valido a pena. O eu lírico deixa claro que quer aproveitar cada momento ao máximo, sendo atencioso e zeloso com seu amor. Quer demonstrar a todos o que sente, e estar ao lado da pessoa amada nos momentos bons e ruins. Quando o eu lírico começa a falar de morte e solidão, já fica claro que não acredita na eternidade do sentimento. (Texto IV)

No "soneto de fidelidade" Vinícius de Moraes utilizou versos decassílabos, a tonicidade grave e uma sonoridade dita perfeita, pois há uma notável identidade dos sons finais assim como uma semelhança entre as últimas vogais e consoantes. Neste soneto existe a predominância de um ritmo heroico explorado conjuntamente com o sáfico, com exceção do primeiro verso que apresenta um esquema pentâmetro jâmbico. O padrão das rimas é parelhas interpoladas em esquema ABBA nas duas primeiras estrofes.

Recursos expressivos

Na primeira estrofe do poema, encontramos um pentâmetro jâmbico de abertura (De/ tu/ do ao / meu/ a/ mor/ se/ rei/ a/ tem/ to / pentâmetro jâmbico - 2 , 4 , 6, 8 ,10) seguidos de dois heroicos(an/ tes,/ e/ com/ tal/ ze/ lo, e/ sem/ pre, e/ tan/ to/ heroico - 1, 4, 6, 8, 10; De/ Le/ se en/ can/ te/ mais/ meu/ pen/ sa/ men/ to/ heroico 1, 4, 6, 10.) e separados por um sáfico(Que/ mes/ mo em/ fa/ ce/ do/ mai/ or/ en/ can/ to/ sáfico - 2, 4, 8, 10).

Nessa estrofe damos um enfoque para a consoante "t" que é repetida( aliteração) em todos os versos, conferindo a sonoridade e o ritmo dessa estrofe. Na segunda estrofe o poeta enaltece o amor como um sentido para sua vida: "Quero vivê-lo em cada vão momento, E em seu louvor hei de espalhar meu canto". A possibilidade de desfrutar tal sentimento gera em si prazer, mesmo misturando emoções diferentes; a descrição dos estados extremos de tristeza e alegria expressados por antítese e reiteração como é possível notar nos versos: "E rir meu riso e derramar meu pranto, Ao seu pesar ou seu contentamento". Encontramos "aliterações" com o uso pronunciado do /r/ seja como terminação verbal, na cesura da célula rítmica ou na alternativa /v/ para o efeito de contenção anotado anteriormente, cuja verificação é flagrante no verso cinco.

A aplicação dos verbos nessa estrofe variam de acordo com o discurso do poeta que usa o presente do indicativo (Quero) para destacar o momento em que se diz, e a ligação estabelecida pelo verbo haver em "hei" aos verbos no infinitivo (louvor, espalhar, rir, pesar) que estabelece uma condição presente para o tempo das ações futuras.

Jogos metafóricos

Na terceira estrofe (primeiro terceto), o eu não prioriza o tempo, mas sim o fim das coisas, demonstrando sua contrariedade em relação à morte e ao amor: "Quem sabe a morte, angústia de quem vive, Quem sabe a solidão, fim de quem ama", explicitando sua vontade de que a morte e a solidão não cheguem tão cedo: "E assim, quando mais tarde me procure". Na última estrofe, o primeiro verso retrata as lembranças deixadas por esse amor: "Eu possa me dizer do amor (que tive)".

No segundo verso desse terceto, o poeta esta consciente que tal amor não durará para sempre: "Que não seja imortal, posto que é chama". Quando utiliza a expressão "posto que", pelo contexto, dá um valor causal a ela, significando, desse modo, "visto que", "já que", "uma vez que".

O poeta não espera que o amor seja imortal visto que é chama, precisamente porque chama se extingue; é uma metáfora que faz alusão ao amor, como algo que tende a se apagar. Esta é uma forte característica dos poemas de Vinicius de Moraes, destruir a noção da eternidade. O terceiro verso é imortalizado: "Mas que seja infinito enquanto dure". Porém, confirma a ideia de aproveitar cada momento com seu amor, mas sem pensar no amanhã e sim aproveitando o presente. (F.I.F.)

Trechos

TEXTO III

Pensem nas crianças / Mudas telepáticas / Pensem nas meninas / Cegas inexatas / Pensem nas mulheres / Rotas alteradas / Pensem nas feridas / Como rosas cálidas / Mas oh não se esqueçam / Da rosa da rosa / Da rosa de Hiroshima / A rosa hereditária / A rosa radioativa / Estúpida e inválida / A rosa com cirrose / A anti-rosa atômica / Sem cor sem perfume / Sem rosa sem nada.

TEXTO IV

De tudo, ao meu amor serei atento / Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto / Que mesmo em face do maior encanto / Dele se encante mais meu pensamento / / / Quero vivê-lo em cada vão momento / E em seu louvor hei de espalhar meu canto / E rir meu riso e derramar meu pranto / Ao seu pesar ou seu contentamento / / / E assim quando mais tarde me procure / Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama / / / Eu possa lhe dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.

SAIBA MAIS

BLOOM, Harold. Cabala e crítica. Trad. Monique Balnuena. Rio de Janeiro: Imago, 1975

CARONE, Modesto. A poética do silêncio. São Paulo: Perspectiva, 1979.

CHOCIAY, Rogério. Teoria do verso. São Paulo: McGraw do Brasil, 1974.

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. Trad. Marise Curione. São Paulo: Liv. Duas Cidades, 1978.

MORAES, Vinícius de. Antologia poética. Rio de Janeiro: A Noite, 1954

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