Ensaio

Um desafio: o domínio da língua portuguesa no ensino médio

O domínio da língua, em todas as suas dimensões, é fundamental para a inserção social

00:00 · 14.09.2014

Os problemas com o uso da língua portuguesa, nas redações curriculares e nas de exames como Enem e Concurso Vestibular, já viraram piada de programa de humor. Quantas risadas provocam! Nada temos conta o riso, mas, nesse contexto, afirmamos que 'seria cômico se não fosse trágico'. Estamos todos rindo de uma tragédia subestimada, que está tomando grandes proporções e, assim, articulando consequências terríveis na nossa vida. Sim, esses erros absurdos são cometidos por jovens do Ensino Médio que estão adentrando os cursos universitários, colando grau e atuando no mercado de trabalho. A que tipo de profissional entregaremos o nosso futuro?

A dupla face

O governo anuncia projetos de leitura, os colégios dão listas enormes de livros para serem lidos durante o ano letivo, os cursinhos criam laboratórios de redação, passam 'fórmulas', mas, na maioria dos casos, nada muda. Para se escrever, não há fórmula; para ler, também não.

Apenas uma minoria dos alunos demonstra conhecimento das normas gramaticais, capacidade de articulação linguística, consciência da estruturação da frase e conhecimento de mundo. Se o problema se restringisse às normas da gramática, seria menos grave, mas verificamos que os nossos alunos não utilizam as palavras com propriedade, não sabem se expressar com coerência, sequer têm noção da validade do que 'estudaram' durante os anos escolares.

Não se trata, aqui, de uma reação purista. Temos a exata noção da adaptação da língua às situações de comunicação e aos contextos, bem como dos níveis de linguagem. Falamos com propriedade, pois, há anos, lidamos com provas de redação de concursos vestibulares de várias universidades privadas, onde quem pleiteia uma vaga sequer é aluno da escola pública. Apresentaremos aqui uma pequena amostra de diversos tipos de erros de fundo e forma, atentando sempre para o problema crucial que é a falta de conhecimento, por parte dos autores dos textos analisados, do padrão da nossa língua pátria. Eles não sabem que não sabem, não transgridem, porque sequer conhecem a forma correta de escrever. Parecem fazê-lo apenas intuitivamente. Antes, porém, reflitamos sobre as possíveis interferências no efetivo aprendizado da língua portuguesa nos nossos dias.

Possíveis interferências

Durante anos, temos tentado responder a uma pergunta fundamental: o que tem comprometido de modo tão drástico a aprendizado da língua materna? As gramáticas pouco atrativas? A falta de contato com os livros, que tão facilmente foram substituídos pelos sedutores mundos midiáticos? O despreparo da escola para lidar com essa demanda de jovens atraídos apenas pelas novas tecnologias? O avanço dos estudos linguísticos, que valorizam as variações da língua e a oralidade? A nova linguagem do mundo virtual?

São muitas reflexões a fazer. Iniciemos com a postura de Neves (2003 p.42) que critica as gramáticas, advertindo que elas se limitam a repetir paradigmas, deixando "o usuário da língua, um ser social que vive cercado de padrões, desassistido na busca de orientação sobre a norma-padrão que há de legitimar sua fala na sociedade em que atua e compete, parte para receitas simplificadas e de transferência imediata".

Não obstante, admite que os professores, muitas vezes, equivocados com o que preceitua a linguística sobre unificação de oralidade e escrita, não mais ensinam as normas, utlizando-se da ideia de que "os padrões não se impõem ao uso, mas, pelo contrário, os usos estabelecem padrões" (NEVES, 2003 p.34). Tanto o aparecimento das investigações sobre as variações linguísticas como os estudos sobre a oralidade levaram à interpretação equivocada de que a gramática tradicional não tem mais valor. É ainda Neves (2003 p.35) quem diz: "se há uma área do conhecimento em que a Linguística tem caído no vazio é a área da disciplina gramatical, seja a considerada pela escola, seja a considerada pelo usuário da língua". Quem, entretanto, é responsável por tal equívoco? A quem cobrar o ônus do fracasso que tem sido, nos últimos anos, em nosso País, o ensino da Língua portuguesa?

FIQUE POR DENTRO

O uso da língua nas redações de vestibulares

A sintaxe de regência diz respeito à relação do verbo com o seu complemento (objeto direto e/ou indireto), no caso da regência verbal, ou do verbo com o nome (substantivo abstrato, advérbio, adjetivo) que carece de um acréscimo (complemento nominal) para que tenha o seu sentido clarificado, tal é o caso da regência nominal. Em muitos casos, a mudança da regência implica mudança semântica na frase. Na oralidade, não se percebem essas mudanças e tais regras parecem completamente desnecessárias. No registro escrito formal, entretanto, elas ainda estão em plena validade, embora os linguistas e muitos gramáticos que seguem essa orientação já não mais considerem transgressão a inobservância da sintaxe de regência. Vejamos: Hoje o ser humano é patriota a ele mesmo - a 'complementação' de sentido dada ao adjetivo patriota tornou a frase ilógica: ninguém é patriota a si mesmo. As pessoas vão nas ruas // chegar nas ruas com cartazes - A gramática normativa diz que os verbos ir e chegar pedem a preposição a antes do seu complemento, quando há noção de lugar; a oralidade, entretanto, já sacralizou a preposição em. O texto escrito deve seguir a norma.

Aíla Sampaio
Especial para o Ler
Professora da Unifor

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