Fotografia

Um brasileiro na Academia Francesa

Sebastião Salgado é um dos três fotógrafos a integrarem os quadros da Academia de Belas Artes da França

Salgado já publicou pelo menos dez livros e realizou inúmeras exposições, conquistando os prêmios mais importantes e honrarias na Europa e América
00:00 · 07.12.2017

O fotógrafo Sebastião Salgado tornou-se, nesta quarta-feira (6), o primeiro brasileiro a integrar a Academia de Belas Artes, instituição que tem origem no século 17 e uma das cinco academias que compõem o Institut de France, templo da excelência francesa nas artes e nas ciências.

Em diversos momentos da cerimônia o fotógrafo não conteve as lágrimas. Ele tomou posse em uma das quatro cadeiras da seção de fotografia da academia, para a qual foi eleito em 2016, no lugar de seu amigo Lucien Clergue, morto em 2014.

Com a mesma elegância com que veste seu colete para percorrer os quatro cantos do planeta, Salgado entrou no plenário do Institut de France vestindo o fardão preto com detalhes bordados em dourado da instituição.

A cerimônia foi aberta com uma mensagem rápida enviada pelo presidente francês Emmanuel Macron, que não esteve presente, mas enviou suas "mais calorosas saudações" ao fotógrafo brasileiro.

No discurso de boas-vindas, o fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, um dos quatro fotógrafos da academia, lembrou a vida e a obra de Salgado, que enxugava as lágrimas enquanto ouvia o nome de seus filhos, Juliano e Rodrigo, e da mulher e parceira de vida e trabalho, Lélia Wanick Salgado. Os dois chegaram a Paris juntos em 1969, exilados por causa da ditadura militar que perseguia um Sebastião Salgado, à época ainda economista e militante de esquerda.

Jornada

Nesse momento, a fotografia não era nem mesmo um hobby na vida de Salgado. Pouco tempo depois da chegada à França, o casal se mudou para Londres, onde o brasileiro trabalhou por alguns anos na Organização Internacional do Café, mesmo nunca tendo gostado da bebida.

Salgado começou a fotografar por hobby, durante s viagens a trabalho pela África, com uma câmera emprestada de Lélia. No início da década de 1970, largou tudo e passou a se dedicar completamente à fotografia, integrando algumas das agências mais importantes do mundo.

Como manda o protocolo do Institut de France, seu discurso foi dirigido a seu antecessor. Do amigo Clergue, Salgado lembrou a "audácia" do realizador francês, de sua amizade com Pablo Picasso e da herança que ele deixou, como "Les Rencontre d'Arles", "o mais importante festival de fotografia do mundo", conforme descreveu o novo integrante da Academia.

"Somos quatro fotógrafos na Académie, Lucien. Como os quatro mosqueteiros que vão defender a fotografia. Você é nosso D'Artagnan, Lucien", afirmou o brasileiro, ao homenagear o amigo falecido.

Salgado também teceu palavras para Lélia, a mulher que o tirou "das trevas" onde se viu, traumatizado por anos fotografando a guerra e a morte de homens, mulheres e crianças.

O setor de fotografia da Academia foi criado há dez anos e conta com outros três nomes, além de Salgado: Bruno Barbey, do Marrocos e Jean Gaumy e Yann Arthus-Bertrand, da França. Cadeiras de outros setores são compostas por nome como o estilista Pierre Cardin, o arquiteto Yves Boiret e até o diretor Roman Polanski.

Criada em 1803, a Academia de Belas Artes é descendente das academias reais francesas do séculos XVII e é composta por 52 cadeiras. A instituição possui o objetivo de promover e desenvolver as heranças artísticas da França, apoiando a criação de seus membros e respeitando a liberdade de expressão.

Vida

Sebastião Ribeiro Salgado nasceu na cidade de Aimorés, Minas Gerais, no dia 8 de fevereiro de 1944. Ele é o único filho do sexo masculino, entre nove irmãs. Graduado em Economia na capital do Espírito Santo, Vitória, pós-graduou-se na Universidade de São Paulo, na USP. Como economista, chegou a trabalhar no Ministério da Economia, em 1968.

Devido às perseguições políticas empreendidas pela Ditadura Militar, foi obrigado a buscar asilo político em Paris, em 1969. Sebastião descobre no trabalho fotográfico a melhor forma de enfrentar os acontecimentos, principalmente em seus aspectos econômicos e sociais. Trilhando este caminho ele se transforma em um dos principais e mais venerados fotógrafos da atualidade, no campo do fotojornalismo. Através de seu olhar, estão retratados os excluídos e os que se encontram à margem da sociedade.

Adepto das fotos em branco-e-preto, voltou para Paris em 1973 e iniciou sua trajetória nesta nova profissão. Sebastião passou pelas principais agências fotográficas da Europa como Gamma, Sygma e Magnum Photos o trabalho nessa agência deu origem ao primeiro livro, "Outras Américas", lançado em 1986.

Logo depois ele lançou "Sahel: O Homem em Pânico", publicado no mesmo ano. Devotou tempo a reproduzir fotograficamente a realidade dos funcionários manuais em todo o Planeta, resultando na obra "Trabalhadores", de 1996.

Ente 1993 e 1999 observou a emigração massiva de pessoas no mundo todo, dando origem à obra "Êxodos e Retratos de Crianças do Êxodo", de 2000, ambos alcançando grande sucesso mundial.

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