PRÉ-ESTRÉIA

Um audiovisual coletivo

00:45 · 19.07.2008
17 jovens com uma câmera na mão e várias idéias na cabeça, 15 vídeos com o mesmo tema reunidos em um longa. O resultado é ´Praia do Futuro´. Em um bate-papo descontraído, o Caderno 3 conversou com alguns dos realizadores da empreitada

Um por todos, todos por um. Se o grupo de realizadores da produtora Alumbramento Produções Cinematográficas tivesse um lema, seria este. Jovens com o audiovisual na cabeça e câmeras na mão, eles lançam, logo mais, em pré-estréia, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro, o longa-metragem “Praia do Futuro - Um filme em episódios”, fruto de um projeto independente e coletivo que reúne a visão de 17 videomakers sobre a famosa praia.

O resultado é uma coleção de imagens e vozes distintas e complementares que remetem, de alguma forma, ao lugar. As influências são diversas e refletem a diversidade do grupo formado por cineastas, publicitários e jornalistas que circulam pelo meio e tem sede por fazer: as intervenções imagéticas da videoarte, os planos mais estáticos do cinema observacional, uma preocupação mais estética e a fragmentação narrativa. Um cinema essencialmente contemporâneo que flerta com o passado e prevê o futuro?

A idéia de um longa-metragem coletivo surgiu a partir da própria palavra “futuro” e da escolha do lugar que serviria de mote para a realização dos vídeos. “A Praia do Futuro é um lugar significativo de Fortaleza e tem esse nome incrível que causa uma estranheza”, revela Ivo Lopes, um dos idealizadores da proposta de juntar visões distintas em um mesmo trabalho. “Estávamos maturando a idéia de um projeto coletivo há um bom tempo. Escolhemos um tema, demos liberdade para cada um fazer o que quisesse com seu episódio e organizamos tudo no longa-metragem”.

Idéia coletiva e trabalho em conjunto. Na hora de falar sobre o filme, todo mundo também se reúne. “Na produtora somos todos muito amigos e temos uma convivência muito boa”, conta Mariana Smith. “É uma configuração coletiva feita de referências parecidas, afinidades, afetos e troca de diálogos”, filosofa. Proximidade que pode ser conferida na tela e nos créditos de “Praia do Futuro - Um filme em episódios”. “O tema dos vídeos era livre, mas todo mundo viu e discutiu o trabalho do outro”, continua Mariana. “Um editou o episódio do outro, fez parte do elenco e deu força na parte técnica. Quando a dificuldade surgia, um ajudava ao outro”, toma a palavra a realizadora Themis Memória

Cinema contemporâneo?

“A maneira como o filme foi feito determina muita coisa sobre ele”, acredita Armando Praça. “As equipes eram pequenas e acho que isso transmite uma relação mais próxima e intimista com o público”. A ausência de um método e a realização mais imediata e livre também é colocada na roda. “Tivemos total liberdade para fazer do nosso jeito, no formato desejado: câmera na mão, texturas diferentes e fronteiras entre gêneros diluídas”, retoma Ivo.

Traço do cinema contemporâneo? Sim ou não, “Praia do Futuro” flerta com o filme de amor, terror, aventura, ficção científica, performance... Vários diálogos possíveis que compõem um mosaico aleatório de 15 episódios cujo entendimento depende da maneira como os vídeos são exibidos. Se, nesse caso, a ordem dos fatores altera o resultado, os episódios influenciam um ao outro e a cada nova edição a sensação do espectador pode ser diferente. “Eu me sinto agoniado, sem otimismo e com um sentimento apocalíptico”, relata Armando. “Não tivemos a preocupação com uma abordagem realista”, interfere Ricardo Pretti. “O filme tem esse traço mais rarefeito, quase como uma ‘lombra’ mesmo”, brinca.

“Mas não se trata de nenhuma ruptura”. É a vez de Salomão Santana dar seu depoimento e inserir “Praia do Futuro - Um filme em episódios” no contexto do audiovisual cearense. “Não estamos fazendo oposição ao que já foi feito. Muito pelo contrário, respeitamos uma tradição”, avalia. Para o grupo, de novidade, existe apenas a vontade de praticar audiovisual sem esperar por recursos públicos ou por editais de incentivo.

Modo de filmar

“Não nos organizamos enquanto movimento ou em um estilo diferente de filmar. Não estamos nem contra nem a favor de nada, queremos apenas fazer”, pontua Armando. “Mas não podemos esquecer que representamos algo novo também. Optamos por filmar de um modo independente, trazendo temáticas urbanas, mostrando um ‘novo’ Ceará”, lembra. “Filmar sem grana não é novidade”, desconstrói Ivo. “Mas lançar um trabalho coletivo como esse aqui é pioneiro. Escolhemos fazê-lo dessa forma e nossa preocupação é mostrar o trabalho para Fortaleza”, completa. “Pode não ser a melhor forma de fazer, mas é uma maneira diferente”, finaliza Armando.

Sem compromissos com data ou cronograma de trabalho. Contando com vários imprevistos durante as filmagens. Trabalhando sem “pressão ou opressão” e de modo mais descompromissado. Cada um metendo o bedelho na obra do outro. Para conferir essa mistura de olhares, pensamentos e idéias, é só se desarmar de preconceitos e embarcar em uma “visão onírica, poética, realista, futurista, apocalíptica e romântica da Praia do Futuro”.

“O filmes está aí para quem quiser. Não tivemos a preocupação de fazê-lo para o espectador. Ele tem que merecê-lo”, alfineta Ivo Lopes. Público cearense merecendo ou não, “Praia do Futuro - Um filme em episódios” tem pré-estréia hoje e entra em cartaz, em agosto, também no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro. Assumindo ou não o rótulo de “nova geração do audiovisual cearense”, não há como negar que a galera do grupo Alumbramento Produções Cinematográficas ainda vai dar muito o que falar. Quem sai ganhando é o próprio meio audiovisual. E o público também, claro.

ESPISÓDIOS

´Eu errei, você errou´, de Wanessa Malta

´Castelo de Areia´, de Guto Parente e Thaïs Dahas

´Pedra´, de Rúbia Mércia

´Valores Imaginários´, de Ricardo Pretti

´Aprender a Nadar´, Salomão Santana

´Vídeo (2008)´, de Pablo Assumpção

´Já era tempo, um filme musical sensual tropical absurdo´, de Armando Praça e Diogo Costa

´Banho de sol para dinossauros´, de Felipe Bragança

´Depois do Fim´, de Ythallo Rodrigues

´p.f´, de Fred Benevides

´Mar Morto´, de Mariana Smith

´A linha da Pipa´, de Themis Memória

´Pequena Grande História´, de Luiz Pretti

´Onde o tempo se perdeu´, de Ivo Lopes

PROGRAMAÇÃO

19/07
Pré-estréia do filme ´Praia do Futuro´, às 19h30, no Centro Cultural Sesc Luiz Severiano Ribeiro. Entrada franca. Após a exibição, shows com as bandas Mirella Hipster e Cidadão Instigado, na Praça do Ferreira.

21/07 Debate sobre o filme com a participação dos críticos Francis Vogner, da Revista Cinética, e Marcelo Ikeda, do blog Cinecasulofilia, às 19h, no Alpendre (rua José Avelino, 495, Praia de Iracema). Entrada franca.

FÁBIO FREIRE
Repórter

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