ENTREVISTA - ZUENIR VENTURA

Um 68 em cada canto

20:51 · 10.05.2008
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O jornalista carioca Zuenir Ventura topou o desafio de tornar a percorrer as veias de 1968, este ano que, já se disse, mais parece um personagem, e que para muitos, a começar pelo escritor, teima em não acabar. Em 1988, veio o primeiro livro, escrito em um fôlego de 10 meses dedicados a todo o processo: pesquisa documental, entrevistas, redação. Um livro que seria considerado exemplo de jornalismo literário, ou ´romance de não ficção´, antecipando o ´boom´ dos livros-reportagem nos anos 90. A seguir, Zuenir divide com o Caderno 3 histórias deste e de seu novo trabalho, revisando a herança de 68 ao dar voz a protagonistas como Gabeira, Caetano, José Dirceu. E principalmente à juventude de 1968, o ano que teima em não terminar

O que foi mais difícil: escrever a edição original de ´1968 - O ano que não terminou´ ou esse novo livro, dos ecos de 68?

Esse livro agora foi mais complicado, pelo seguinte: eu ia fazer só uma revisão do primeiro livro, que a editora queria para comemorar os 40 anos de 68. Aí, à medida que comecei a revisitar personagens e situações, começou a surgir um novo livro. Um livro que é sobre o legado, a herança de 68. Tem, por exemplo, um capítulo que chama ´Há um 68 em cada canto´. Fui encontrar remanescentes daquela geração no governo, na oposição, na esquerda, na direita, no Congresso , no Supremo... Em todo lugar tem um 68. E fui procurar a herança daquele ano em outros campos, por exemplo, em relação ao jovem.

A idéia foi um recorte do que restou daquele ano, pelo ponto de vista de cada ´tribo´, para usar um termo atual, do novo livro?

É um pouco assim. O meu primeiro capítulo corresponde ao primeiro capítulo do outro livro. Fui ver como estavam aquelas moças que eu havia entrevistado para o primeiro livro e que participaram de 68. Agora, entrevistei essas três avós, que eram da geração Leila Diniz e tinham vinte e poucos anos em 68, com todo aquele sonho, aquele desejo, aquela vontade de mudar tudo, essa condição, o mundo, o País. Depois foram surgindo idéias, ao longo da pesquisa, como pegar os filhos dos militantes, que sofreram com aquela coisa toda. O livro teve um processo de feitura muito curioso, ele foi se fazendo assim, pintava um capítulo de repente. Ao contrário do primeiro livro, que obedecia uma ordem cronológica, esse seguiu mais o espírito dessa época, de tudo muito mais fragmentado, a chamada pós-modernidade.

Quando você pensou no projeto do primeiro livro, em 1988, pretendia fazer algo como o Novo Jornalismo, o jornalismo literário?

Um livro que sempre me marcou foi o ´A Sangue Frio´, do Truman Capote. Mas o único objetivo claro naquela época era reconstituir aquele ano. Então peguei o arquivo do Jornal do Brasil e li tudo de 68. Depois fui pra Biblioteca Nacional, selecionei livros e revistas. E finalmente fui conferir tudo isso, ouvindo pessoas. O livro não tinha nenhuma pretensão de ser, como foi considerado depois, um livro de jornalismo literário ou até um romance sem ficção. Só de fazer a reconstituição de um tempo. Mas não como um inventário de fatos, e sim muito mais com as mentalidades, o comportamento. A história das mentalidades é o que me interessava mais. O pensamento, as idéias, o sonho daquela época.

Como é que 1968, a partir da Europa, do Maio de 68 francês, se espalhou pelo mundo, em uma época com recursos de comunicação bem mais modestos que hoje?

Esse é um dos mistérios de 68, um dos primeiros fenômenos de globalização, sem Internet, e ninguém sabe explicar essa sincronia de acontecimentos, em países tão distintos. Como é que aqueles jovens cantavam a mesma música, tinham a mesma palavra de ordem, se vestiam da mesma maneira, deixavam o cabelo crescer. Não se consegue decifrar, é um dos mistérios da história.

Como foi que você resolveu quem ouvir agora para o segundo livro, que tem, como você falou, esse viés mais de análise? Qual foi o critério?

Esse livro agora tem sete depoimentos. Claro que podia ter 14, mas tinha alguns limites. O critério é pegar sete personagens que tiveram uma participação importante em 68 e, mais do que isso, que tiveram uma trajetória que os levou próximo ao poder e ao governo. O Fernando Henrique Cardoso era professor, foi o sociólogo daquela época que foi mais alto, chegou à presidência da República. O José Dirceu, que teve um papel importantíssimo no governo Lula. O Franklin Martins, que é ministro da Comunicação. O Gabeira, que foi pro Congresso. O Caetano, que não tá nessa categoria, mas que fez muito da trilha sonora da época. A escolha foi por pessoas que pudessem refletir sobre o legado de 68.

Alguém acostumado a ver o Chico Buarque como mais engajado perguntaria por que Caetano, e não Chico...

É verdade. Poderia ser o Chico também. Mas o Caetano, em 68, foi um personagem muito polêmico. Um dos que talvez mais tenham contribuído pra música, pra cultura, pra mudança, introduzindo a modernidade, a guitarra elétrica, como um dos criadores do Tropicalismo, uma revolução na música. Um movimento que começou em 67, mas tem cara de 68 e continuou se modificando mesmo depois. Chico nunca ficou nessa trajetória de movimento, era mais independente. Por isso achei que o Caetano traria esse olhar.

Outro entrevistado é o Gabeira, que foi fundo na militância de esquerda, e hoje, como parlamentar, é acusado de fazer o jogo da direita...

Eu evito julgar meus personagens. Dou a palavra a eles, cito os fatos, mas evito julgar. Tenho muito cuidado pra ficar eqüidistante. São personagens conflitantes, imagina se eu tomo posição. A trajetória do Gabeira é muito de mutante. Começa na luta armada e termina no pacifismo, buscando caminhos democráticos. Ele realmente não acredita em algumas daquelas idéias da própria geração dele, como a luta armada. Ele hoje renega isso. E é considerado por alguns um cara que virou de direita. Acontece o seguinte: o conceito de direita e esquerda hoje também mudou muito. É muito complicado falar em direita e esquerda: o que é? Quando se tem um presidente que segundo sua trajetória é de esquerda, embora ele diga que não, e elogia o Médici e o Geisel, aí você pára e diz: ´Eu tô maluco!´. Hoje não pode ser como naquela época, quando era muito nítido: isso é ser de esquerda, aquilo é ser de direita. Então, acho que não é correta essa restrição em relação ao Gabeira, porque é uma visão antiga, superada, em relação à esquerda.

E o José Dirceu? Em muitos momentos da entrevista ele reclama de ter sido submetido a execração pública. Houve alguma restrição, por parte dele, na entrevista?

Nenhuma, nenhuma. De fato ele cita que foi cassado pela opinião pública, mas em nenhum momento ele deixou de responder perguntas ou colocou condições. E, como jornalista, eu não queria assumir defesa do jornalismo. Deixei ele falar livremente, inclusive falar mal da imprensa. O depoimento tem essa distância.

Quando o primeiro livro saiu, em 88, comentou-se que era preciso ter esperado 20 anos para olhar 1968 com distanciamento. E agora? Qual a diferença de olhar com 20 anos e com 40 anos?

O que procurei fazer agora foi um balanço crítico, do que ficou de bom e do que ficou de ruim. Não acho que a gente tenha que jogar fora 68 da história, nem que procurar recriar 68, como alguns acham. Absurdo, a história não se faz assim. Tem que usar a história como lição, não como exemplo. Procurei nessas pegadas de 68 o que teve de bom. Você olha e encontra que, no plano dos costumes, do comportamento, foi realmente uma revolução, um avanço enorme, sobretudo na condição feminina. São quatro movimentos que eu aponto que avançaram, a partir de 68, começando pelo feminismo, que não nasceu em 68, mas ganhou um forte alento ali. E também o movimento negro, o movimento gay e o movimento ecológico. Agora, ao lado disso, você tem uma herança maldita. É o caso das drogas. Em 68 havia uma visão ingenuamente utópica de achar que as drogas iam ser um instrumento de libertação da consciência, das portas da percepção, do Aldous Huxley com mescalina, passando pro Timothy Leary com LSD. As drogas hoje são um instrumento de morte. Foram apropriadas pelas multinacionais das drogas, que hoje são fonte de renda e fonte de morte. Então, eu separo esses dois legados: uma herança generosa e uma herança perversa, das drogas, da violência, que havia pela crença de que seria preciso ter uma violência edificante, uma violência positiva. Eles alegavam, naquele momento, que a ditadura não deixava nenhuma outra possibilidade de luta. E não foi bem assim. Não foi pela luta armada que a gente reconquistou a democracia. Foi pelas formas legais. Quando você se engaja na violência, começa achando que é luta ideológica, como as Farc, e acaba sócio do Beira-Mar.

Ao buscar esse engajamento social e político e acabar participando de uma revolução de costumes, a geração de 68 atirou no que viu e acertou no que não viu?

Verdade, acho que foi sim. Acharam que iam fazer uma revolução política, e fizeram na verdade uma revolução comportamental muito mais importante que a pretendida revolução política. E também teve uma revolução tecnológica, que acaba na Internet, considerada por personagens como o Gabeira herança de 68.

Os jovens de hoje são centro de muitas reflexões no livro, em contraste com os de 40 anos atrás. Qual a sua conclusão?

Olha, eu aprendi muito nesse trabalho. Aprendi com muitos jovens que entrevistei, que nem todos aparecem no livro, e com o João Batista, um personagem interessantíssimo, que foi importante em 68. Era padre, participou da Comissão (da Passeata) dos 100 mil, foi realmente uma figura admirável. E hoje é psicanalista de jovens. Ele tem um olhar novo pra essa geração, um olhar generoso. Isso me chamou atenção pra uma série de coisas. Assim como o jovem de hoje é criticado, a geração anterior não tinha a menor confiança na geração de 68. Achava um bando de porra-louca. Só que aquela geração era muito aguerrida, agressiva, e dizia: ´Ah é? Nós também não acreditamos em ninguém com mais de 30 anos´. A geração de hoje, digamos, tá mais na dela, não tá querendo confrontar, não tem esse espírito de ruptura que tinha a geração de 68. É uma geração que tá mais na sua. Mas o João acha que tem um 68 dentro de 2008, apesar de toda a diferença aparente. E aí foi muito engraçado, porque, quando entrevisto o Caetano, pergunto se ele acha que há possibilidade de um novo 68. E ele diz que, pra ser parecido, tem que ser muito diferente. É uma frase de uma sabedoria incrível! Um pouco o que o João Batista tava falando. O problema é que a gente, que eu digo os mais velhos, olha pra essa geração de hoje com muita má vontade. Ela não se interessa pela política? É verdade, é uma pena. Mas convenhamos que a política que a gente oferece pra eles não dá o menor tesão. Ela não tem projeto de futuro, como tinha a geração de 68? É verdade. Mas ele não sabe nem se vai ter futuro. O planeta não sabe. As versões aí são de que daqui a 30, 40 anos os oceanos vão invadir as cidades, não vai haver água potável, ar pra respirar. É uma coisa complicada. Eles são muito apegados ao presente, porque é a única certeza que eles têm.

Um dos casos mais interessantes do livro é o que você cita em relação à forma como os filhos de presos políticos - inclusive a sua filha - foram levados a alguns traumas, justamente pela tentativa de seus pais em mentir, procurando suavizar a situação...

É, eu incluí isso porque descrevo exatamente como aconteceu. A minha filha viu o filme (´A Culpa é do Fidel´, de Julie Gavras, que fala sobre as conseqüências políticas para o cotidiano de uma família) e me chamou atenção para ele. E eu, que nunca tinha percebido o quanto ela tinha sofrido, me dei conta naquele momento. O que acontecia? Eu queria mostrar a ela que eu tava muito bem, pra não traumatizá-la. Em nenhum momento eu percebi que, ao falar certas coisas, ao dizer que a prisão estava ótima, que eu podia jogar basquete 15 minutos por dia, que eu tinha banho de sol, ao falar essas coisas tentando não chocar, aquilo na cabeça dela batia de maneira oposta. ´Ah, ele tá tão feliz aí, que prefere ficar aí do que ficar com a gente em casa´. Isso me impressionou muito. Comecei a conversar com outros filhos de presos políticos, e isso batia. Foi uma experiência pessoal e uma revelação, 40 anos depois.

Daqui a 20 anos, tem outro livro?

O Jô Soares até disse : ´Daqui a 20 anos você volta aqui´ (risos)... Vamos discutir. Espero que daqui a 20 anos 1968 tenha sido superado pela história. Não cancelado, mas superado. Você tem que discutir para superá-lo pela história. Não pode ser sempre como a Revolução dos Cravos, que pra muitos portugueses ainda não acabou.

Então, de fato, 68 não terminou?

Olha, pelo que eu tô dando de entrevista, pelo tanto de pedido de seminário, realmente não. 68 pode ter terminado, mas o interesse por ele, definitivamente não.

Dalwton Moura
Repórter

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