Ensaio

Ufanismo, mito e visão edênica do país

00:00 · 12.10.2014

Os brasileiros romancistas deveriam se concentrar na descrição do índio, sua natureza e seus costumes, sem se esquecer da íntima comunhão entre o nativo e o colonizador. Quanto aos índios que aparecem como inimigos do conquistador são geralmente taxados de bárbaros, ferozes, horrendos... O papel que competia ao índio no imaginário pós-colonial, não era o de rebelde que lutou contra o invasor europeu. Ao contrário, a literatura cede espaço ao discurso do índio transformado em um modelo de pureza e de honra a ser seguido, como pode ser percebido no seguinte diálogo entre as personagens Iracema e Martim: (Texto III)

De acordo com Eurides Freitas, (Op.Cit.) a ideia da produção de uma literatura romântica de cunho nacionalista no Brasil ocorreu concomitantemente com a independência política. Desde a segunda metade do século XVIII até a primeira metade do século XIX, visava-se a construção de uma literatura que refletisse a realidade brasileira atual e libertasse do colonialismo cultural. Para isso, retornava-se às origens com o objetivo de diferenciar-se da cultura imposta pelos colonizadores, trazia-se à tona a nostalgia do mito de um mundo perdido. Um passado glorioso tornava-se objeto de desejo e disputa pelos escritores do período. Segundo a autora, se para alguns escritores do período esse novo romantismo foi apenas um "estado de espírito"16, ou seja, algo momentâneo, para outros foi um momento de valorização da terra e de um povo, antes esquecido. Interligava-se a descrição da paisagem, história e sociedade.

Mito e heroísmo

Conforme Thiago Belieiro, essa procura por um mito e um herói nacional assim como uma tradição histórica terá como personagem principal o índio. Tal valorização do índio será a semente que germinará na invenção do Indianismo Literário. Com a criação do Instituto Histórico e Geográfico em 1838, o movimento romântico desenvolverá profundamente essa ideia e disseminará o Indianismo.

Havia a preocupação de procurar as especificidades pertencentes ao Brasil e que nos diferenciasse da Europa, ou seja, buscava-se a "cor local"19. Essas particularidades foram encontradas nas populações indígenas brasileiras, na fauna e na flora. O IHGB, conforme Belieiro, contribuirá para transformar o indígena em símbolo de nacionalidade brasileira. Ao mesmo tempo que incentiva a pesquisa sobre os povos indígenas gerando discussões acerca do índio como símbolo de nacionalidade, estimula a produção literária que tenha como tema principal o indígena. Era preciso além de firmar uma nação política, construir uma cultura nacional para criar uma identidade brasileira. O objetivo era desenvolver um sentimento de pertencimento à pátria.

A idealização

O Indianismo representa uma imagem idealizada, romantizada do índio. Podemos perceber, então, que o Romantismo brasileiro estará interligado com os projetos desenvolvidos no IHGB interferindo na escrita e no pensamento de diferentes literatos, seja em defesa ou contra suas ideias de construção de uma identidade brasileira através do índio, ou mesmo para criar um prestígio dentro do meio literário, característica esta que pode ser observada em Alencar, segundo Belieiro, através das temáticas indianistas.

Gonçalves Magalhães será o primeiro escritor do Indianismo Literário, que patrocinado por D. Pedro II, colocará à frente o projeto de construção de uma cultura e identidade brasileira com a obra "A Confederação dos Tamoios". Alencar, apesar de não ser membro do Instituto Histórico e Geográfico, também fará parte da construção do projeto de invenção da Nação. De acordo com Freitas, José de Alencar pretende aprofundar o sentido de originalidade e naturalidade para transformar os costumes nacionais, as lendas, a história e os mitos em literatura.

Considerações finais

Iracema é símbolo de doçura, beleza e sacrifício. Diante das perdas indígenas causadas pelos colonizadores, dever-se-ia ressaltar o sacrifício em nome da nação e dos seus irmãos (Iracema rompe com a sua nação tabajara depois de violar o segredo da jurema) construindo a representação idealizada do índio, cujas qualidades primordiais eram destacadas na edificação de um país fabuloso. Nesse período, entre a literatura e a realidade, a verdadeira história nacional e a ficção, os limites pareciam tênues. No caso, a história estava a serviço de uma literatura mítica que, junto com ela, "selecionava origens" para uma nova nação

Conforme Schwarcz, o romantismo no Brasil, portanto, não foi apenas um movimento estético, mas também um projeto político e cultural ligado ao nacionalismo. Objetivava-se uma emancipação cultural e política no país baseada em temas nacionais, mas voltada para elites palacianas. O romance romântico brasileiro dirigia-se a um público restrito: eram moças e rapazes provindos de classes altas, e, excepcionalmente médias; eram funcionários da corte ou das províncias, enfim, um tipo de leitor à procura de entretenimento. Assim, os narradores deveriam ao mesmo tempo ressaltar a paisagem nacional, criar surpresa e fim feliz dos modelos europeus.

Construía-se uma literatura focada no exercício do patriotismo. Os escritores românticos, através do questionamento "O que é ser brasileiro?", tomaram para si o compromisso de definir língua, nação, povo e cultura brasileira. Por ter surgido nesse contexto, o romance acaba por assumir o papel de um dos principais instrumentos de busca da identidade nacional. (F. R. O. R. )

Trecho

TEXTO III

-- Uma noiva te espera?

O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espádua, como a terra palma da carnaúba, quando a chuva peneira na várzea.

-- Ela não é mais doce do que Iracema, a virgem dos lábios de mel, nem mais formosa! Murmurou o estrangeiro. (ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997, p. 25)

Saiba mais

ALENCAR, José de. Iracema. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997
MENEZES, Raimundo de. José de Alencar: Literato e Político. São Paulo: Martins, 1965
PESAVENTO, S, J. História & História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2004

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