DISCO

Trilogia da canção dolorosa

Daniel Groove (CE) lança seu terceiro álbum, disponível a partir de amanhã (13) nas plataformas digitais

00:00 · 12.07.2018 / atualizado às 08:21 por Felipe Gurgel - Repórter
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O cantor Daniel Groove: ideia do novo disco era uma sonoridade mais solar ( Foto: Gustavo Portela )

O músico cearense Daniel Groove chega ao final de um ciclo de carreira. Nesta sexta (13), o compositor lança, nas plataformas digitais, "Levante", seu terceiro álbum. É o último disco de uma trilogia que começou com "Giramundo" (2013) e seguiu com "Romance pra Depois" (2015). No sábado (14), a partir das 20h30, ele faz o show de lançamento do trabalho no anfiteatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC/Praia de Iracema).

"Levante" foi um dos últimos trabalhos produzidos pelo gaúcho Carlos Eduardo Miranda. Produtor musical celebrado no cenário brasileiro, ele faleceu no último mês de março, aos 56 anos. O cearense Klaus Sena, parceiro antigo de Daniel Groove, assinou a produção em parceria com Miranda.

"Ele e Klaus fizeram tudo juntos até o final do disco. Mas quem ia mixar era o Klaus mesmo, que é o nosso cara do som. A relação dos dois já era anterior a isso, produzindo outros discos. O Klaus tocava com ele no La Cumbia Negra", situa Groove.

O compositor lembra que Miranda já flertava com a produção desde que o cearense produziu o disco de estreia da cantora Hélôa ("Eu", 2016). "Meu (primeiro) contato com ele mais forte mesmo foi quando produzi esse disco, mixado pelo Klaus também, e ele pirou (no álbum)", conta Groove.

Revisando a carreira até o momento, ele observa que os dois primeiros álbuns foram bem sucedidos "num sentido de contentamento pessoal". "E o 'Giramundo' é 'o' meu disco, algumas pessoas são bem apegadas a ele. O 'Romance' eu gosto muito, um álbum mais conceitual. O primeiro teve muitas participações de instrumentistas. O segundo, de intérpretes: Hélio Flanders, Rafael Castro, Juliano Gauche", retoma o cearense.

Juliano é autor da única composição, dentre as 10 faixas de "Levante", não assinada por Daniel, "Bolero de Mentira". "Ele é mais do que (um cara) calmo: tem um estado de espírito constante, um mundo dele, do qual sabe falar muito bem", elogia Groove, sobre o capixaba que lançou seu terceiro disco, "Afastamento", em maio passado.

Baú

Sobre a idade do repertório, Daniel Groove conta que "Seu Amor" é a faixa mais antiga. A canção é uma homenagem à memória do guitarrista cearense Rodrigo Gondim, falecido em 2008. Os dois integravam a banda local O Sonso. "Foi feita para o segundo disco do Sonso, que não existiu".

"Bolero de Mentira" entraria no repertório do disco da sergipana Hélôa. "A menina ouviu, e não bateu nela, quando disse que não queria eu falei 'tudo bem!' (risos). Queria a música, falava muito sobre mim", aponta Groove.

"Tente Entender", umas das 25 canções dentre as quais Miranda escolheu 10 para entrar no disco, será lançada, ainda neste ano com exclusividade pelo projeto Porto Dragão Sessions. Groove recorda que quando começou "a mostrar esse trabalho (solo), era algo tão confessional, e tão meu, que eu tinha vergonha. Eu velho roqueirão. E o Saulo Duarte dizia: 'isso é bom bicho, vamo gravar isso aí'. E eu dizia: 'tu é doido? Isso é o que faço no meu violão, de madrugada'", situa.

O compositor arrisca dizer que "Levante" é o mais confessional dos três álbuns da trilogia. "Se duvidar, tem umas aí que ainda dão vergonha de mostrar (risos). Acho que esse disco paquera com o 'Giramundo', com o 'Romance pra Depois', e com o que está por vir", observa.

Clima

A ideia da produção era tornar a sonoridade mais solar, e menos melancólica em relação aos discos anteriores. "Boa Nova" é uma balada de tom sereno ainda, com um pé no clima de "Romance pra Depois".

"Você vem, você vai" é um hit; traz melodia forte e faz a transição proposta pela produção. É uma bela canção sobre saudade e forja um DNA para o compositor - algo possível de se observar, se for levado em consideração que Daniel já está na terceira leva de composições próprias.

"Seda Azul" retoma um tom mais sério, mas o repertório se desenrola, de fato, através de uma sonoridade mais "aberta". "Bolero de Mentira", composição de Juliano Gauche, tem melodia solene e precisa como o autor.

"Seu Amor" traz uma pegada mais rock (lembra, de modo mais brando e dançante, "Jesus não tem dentes no país dos banguelas", dos Titãs). A ótima "Algo que valha a pena" (e seu clima retrô) consolida a guinada da metade final do repertório para uma disposição ainda mais solar.

Sofrimento

"Longe" suaviza o tom (da sonoridade) mais uma vez e traz versos de sofrimento explícito como "Você foi mais longe, onde a dor tira o juízo", algo que conecta Daniel - por uma linguagem simples, mas profunda - à experiência de vida de qualquer pessoa que lhe ouve.

Fechando o disco, a vigorosa "Fortaleça-se" (dos versos "Fortaleça-se, Fortaleza se revele, lute, não desista jamais") revela sua inspiração na relação com a terra natal: Daniel tem passado bastante tempo na capital cearense, dedicado a outros projetos musicais para além da carreira solo.

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