Carreira

Três décadas de cinema

Diretor e produtor cearense Luiz Bizerril comemora 30 anos de trabalho com o audiovisual e projeta internacionalização da obra

00:00 · 06.12.2017
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Luiz Bizerril: três décadas mergulhado na produção audiovisual cearense ( FOTO: SAULO ROBERTO )

Em 1987, eram poucas as opções para quem se interessava em fazer cinema em Fortaleza. A fim de alimentar o sonho, um jovem de 20 anos como Luiz Carlos Bizerril, hoje com 51, tinha apenas dois caminhos: fazer algum curso na Casa Amarela ou partir para outras cidades ou até países em busca de formação. Como a família não tinha renda suficiente para bancar os estudos do garoto fora, tampouco apoiavam-no com a ideia de trabalhar com algo que não Direito ou Medicina, costume desde aquela época, o mais viável era ficar aqui. Ficou e sobreviveu os últimos 30 anos fazendo o que gosta.

Hoje, o diretor e produtor cearense soma no currículo parcerias com Rosemberg Cariry, Alexandre Veras, entre outros nomes de diferentes gerações do cinema local. Além disso, com uma vasta produção autoral, ele se programa para lançar outros dois longas-metragens e uma série documental pela sua produtora, a Solaris. Parte significativa de seu trabalho pode ser conferida num canal do Youtube (Luiz Bizerril) aberto no último dia 3 de novembro. O objetivo do canal é tanto fazer escoar essa produção que nem sempre chega às salas de cinema como tentar uma entrada no acervo da cinemateca da França.

A seleção para a cinemateca é composta por quatro etapas, e Bizerril já passou pela primeira. Em janeiro de 2018, ele vai até Paris conceder uma entrevista e argumentar a favor da inclusão de seu acervo na instituição. O diretor explica que é apenas uma tentativa. Mas lá, ele já deixou um livro de sua organização, "Cartografia do Audiovisual Cearense", lançado em 2012. "Circulam muitos pesquisadores estrangeiros pelo local e seria interessante deixar um pouco da produção daqui nesse espaço", comenta.

A Cartografia é composta pelos seguintes tópicos/capítulos de pesquisa: História da produção de filmes no Ceará, História da exibição cinematográfica no Ceará, Levantamento de dados sócio-econômico e de produção do audiovisual e cinema cearense, Pesquisa com seis segmentos do Audiovisual e Cinema (Animação, Cineclube, Formação, Produção para TV, Curta-Metragem e Longa-Metragem) e Análise e contextualização dos dados. Foram mais de mil exemplares distribuídos gratuitamente à época.

Canal

Até o momento, o canal do Youtube já conta com 18 filmes, 14 dos quais ele dirigiu e quatro que produziu. Mas a intenção é colocar 30 até janeiro, para reforçar as três décadas de trabalho com o audiovisual. Material não falta, como ele próprio garante. Fica até difícil de contar.

Os trabalhos de vídeo-dança desenvolvidos com a Alpendre, casa de arte, pesquisa e produção que ficou atividade entre 2000 e 2012, são alguns dos destaques já vistos com bons olhos pela cinemateca da França. "O filme dança é o local da experimentação. Nos primeiros filmes da história do cinema, procuravam-se bailarinos, porque é exatamente o movimento, o corpo em movimento", recorda.

Bizerril destaca que esse é o cinema que ele se identifica mais, "um cinema de invenção, produzido de maneira mais coletiva, com pesquisa de linguagem, coisas que já fiz com Alexandre Veras, o pessoal da Alumbramento. É bom de trabalhar com eles", comenta o diretor.

O longa de ficção "Linz - Quando Todos os Acidentes Acontecem" (2011/2012), disponível no canal do Youtube, é um marco dessa parceria. Dirigido por Veras e realizado pela Alumbramento Produções, o filme recebeu uma menção honrosa na Mostra Internacional de Cinema de Tiradentes e na Mostra Aurora, em Minas Gerais; e outra na Mostra dos Realizadores no Rio de Janeiro, em 2013.

Autogestão

Sobre o desafio de se sustentar por trinta anos com o Audiovisual, o diretor lembra o malabarismo que fez desde a juventude. "Na fase que eu trabalhei com Rosemberg, de 1989 a 1999, a gente fazia documentários comerciais, para empresas, VT's publicitários, e isso garantia nossa sobrevivência. De vez em quando um edital, de dez em dez anos. Quando veio a Alpendre, comecei minha parte autoral, passei a me inscrever e a conquistar editais, e deslanchei enquanto diretor", pontua Bizerril.

Entre 2000 e 2012, a Alpendre Produções realizou 38 filmes de curta-metragem, sendo, segundo Bizerril, apenas uns quatro ou cinco premiados pela Petrobras. "Os outros eram financiados pela gente mesmo. O Alpendre era autogestão. A gente fazia documentários institucionais, programas, séries de TV pra ganhar um dinheirinho, ser feliz, sustentar a ONG e financiar nossos trabalhos autorais. Foi uma época muito feliz", recorda ele.

Dos 38 curtas, Bizerril foi diretor de 10, entre eles "Memórias em Desalinho", "Atrito", "Movimentos improváveis", "Partida", "Animal racional" e "Cru", uma co-produção Brasil - Argentina. Com esses trabalhos, o diretor participou de vários festivais de vídeos-dança na França, Alemanha, Austrália, Canadá, Espanha, Chile, Cuba, Holanda, México, Áustria, Portugal, Turquia, Paraguai e Suécia.

Presente

Ao olhar para o cinema cearense hoje, o diretor vê dois caminhos: o das grandes produções comerciais, como as de Halder Gomes, e as mais experimentais, semelhantes às que ele próprio apostou em sua trajetória. Bizerril considera ambas importantes, mas não abandonaria seu percurso em troca de mais dinheiro. "Só quero ter o prazer de fazer cinema", diz.

De acordo com ele, existe uma cena de cinema autoral no Ceará, em Pernambuco e em Minas Gerais que tenta levar o Brasil para o dito "cinema de invenção" que lhe interessa. "Isso não quer dizer que você vá fazer filmes herméticos, só pra duas pessoas. Você pode fazer filmes interessantes, mas com experimentação, linguagem poética, que fuja dessa narrativa linear de novela", aponta.

As principais referências do diretor são Orson Welles, Glauber Rocha e o russo Tarkovsky. Ele foi apresentado a toda essa filmografia ainda nos tempos de Casa Amarela, quando estudava com o falecido Eusélio de Oliveira. "Em toda aula ele passava um filme. A galera às vezes esquece que tem que ver filme. A melhor maneira de aprender a fazer cinema é vendo cinema. É lógico que eu gosto do cinema de invenção, mas você tem que olhar pro passado pra ver o que foi feito. Não adianta fazer o novo pelo novo. Tem que fazer com referências, se não vai estar reinventando a roda", brinca.

Além do projeto de internacionalização dos seus antigos trabalhos por meio do acervo da cinemateca francesa, Bizerril trabalha no momento para veicular em breve dois longas pela produtora Solaris: uma releitura do romance "Iracema, Lenda do Ceará", de José de Alencar, e outro da passagem de Orson Welles pelo Ceará; e ainda uma série documental intitulada "Vidas ao Vento". A produção, portanto, está longe de parar.

Mais informações:

Canal do Youtube: Luiz Bizerril. Até janeiro, cerca de 30 filmes dirigidos e/ou produzidos por ele estarão disponíveis para visualização.

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