produção cultural

Travessias documentais

Produções da segunda edição do Projeto Mapadoc Ceará devem ser lançadas ainda neste semestre

Acima, integrantes do projeto Mapadoc entrevistam a cacique Adriana Tremembé, da comunidade Barra do Mundaú; abaixo, equipe registra paisagem em Caetanos de Cima ( Fotos: Henrique Kardozo )
00:00 · 13.07.2018 por Diego Barbosa - Repórter

Em outubro de 2015, a rota artística do Estado ganhou nova configuração mediante uma importante e urgente iniciativa: um levantamento dos espaços onde as produções são realizadas. Com esse intento, foram 400 artistas mapeados, 13 Docs produzidos para webtv, um livro e um portal desenvolvidos, resultados que comprovam nosso potencial criativo.

O projeto em questão é o Mapadoc Ceará, que deve lançar os frutos de sua segunda edição ainda neste semestre em Fortaleza e nas comunidades onde estabeleceu contatos. Movida por ações formativas em fotografia e audiovisual e contando com parcerias de ONGs e da Secretaria da Cultura do Ceará - características que otimizaram a presença dos pesquisadores nos nove municípios que integraram a edição-piloto -, a empreitada segue com o mesmo desejo de conferir visibilidade a artistas, grupos, mestres e agentes culturais que fomentam o fazer artístico local.

Conforme avalia Felipe Camilo, membro do Coletivo Trama de Olhares e coordenador do projeto, o balanço positivo do primeiro ano foi um dos principais fatores responsáveis por conferir fôlego para a continuidade da ação.

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"O experimento foi bem sucedido e recebido nas cidades em que atuamos, e retornamos para compartilhar resultados. Enquanto buscávamos financiamento para a segunda edição, vimos, em 2016, a Secult fazer, a exemplo de projetos como o nosso, o Mapa da Cultura, numa ação rápida, atravessando todo o Estado", explica.

"Isso foi um marco importante para nós, do Coletivo, pois, cientes de que nossa vocação não era reparar ou competir com políticas públicas, pudemos finalmente redesenhar nossa atuação, com foco na realização audiovisual de maneira colaborativa em comunidades que estão na 'periferia' do circuito de divulgação e consumo de produtos culturais no Estado", complementa.

Seguindo esse rastro, a segunda edição, intitulada Mapadoc - Cartografias de Culturas Cearenses, focará na macrorregião do Litoral Oeste, contemplando menos a coleta de dados extensiva e mais a intensidade na cartografia realizada com moradores das comunidades de Tatajuba, Caetanos de Cima, Flexeiras, Assentamento Maceió, Tremembé da Barra do Mundaú e Tremembé da Almofala.

De acordo com Felipe, "todas são comunidades litorâneas marcadas pela pesca e agricultura tradicionais. Comunidades indígenas ou não, todas lutam por suas terras contra a especulação imobiliária, o turismo de massa e as empresas eólicas ou de monocultura de coco".

Dentre as manifestações desenvolvidas pelas comunidades e mapeadas pelo projeto estão o trabalho com algas (tanto no âmbito culinário quanto no do extrativismo), a pesca artesanal e a agricultura tradicional - todos ressonantes de um saber intuitivo de mestres culturais que, não sem motivo, também exercem o papel de lideranças comunitárias.

Expressões de cunho mais específico também encontram espaço nos lugares, como o coco, na comunidade de Caetanos de Cima; a pintura corporal indígena e o torém, nos Tremembés da Barra do Mundaú e da Almofala; cordel e reisado, no Assentamento Maceió; e dança contemporânea e reisado de caretas, nos arredores de Flexeiras, por exemplo.

Engajamento

Após uma viagem de reconhecimento e outra de produção/formação, a trupe do Trama de Olhares percorreu as seis comunidades de janeiro a maio deste ano, com acalorada recepção em todas elas.

A residência promovida pelo coletivo se dividiu em formação, cineclube e realização de documentário, explorando a colaboração de mestres, pesquisadores, memorialistas e outros agentes comunitários com o grupo.

No momento, a turma está atualizando o site, aprontando os textos da nova publicação - uma série de seis documentários de 15 minutos - e um Doc para TV. Este teve a contribuição de estudantes, realizadores, mestres de tradições e líderes comunitários em sua produção.

Realizada através do XII Edital de Cinema e Vídeo, a ação resulta, assim, em um inventário de culturas cearenses. O trabalho é composto, além dos documentários mencionados, por uma série de depoimentos para internet e uma obra que compila dezenas de entrevistas, experiências, tradições e agentes mapeados.

Felipe destaca que o modus operandi de cada um dos processos mudou, se comparado à primeira edição. Em sua visão, "ao longo da dupla jornada de maturação de um projeto, na qual se peleja por financiamento e refinamento de nossas práticas, apostamos nessa aventura no litoral oeste para intensificar nossa relação com as comunidades, em vez do até então mapeamento exaustivo".

Desta feita, sai a ação de documentaristas e pesquisadores visando a confecção de mapas e entra a cartografia servindo de guia para a câmera e a caneta. No trânsito dessas ações, abrem-se veredas também para um maior engajamento por parte do grupo.

"O que encontramos aqui, nesse inventário de culturas cearenses, trata de estar entre mulheres e homens cujas artes mobilizam o cotidiano, política e tradição. Trata de dispor os pesquisadores e documentaristas de modo engajado às redes comunitárias daqueles que conservam e atualizam a memória de seus lugares", enfatiza Felipe.

Percepções

Uma das maiores contribuições para os pesquisadores com a iniciativa foi a percepção do que é ser artista, do que significa assumir o papel de agente de cultura.

"Não que não haja cantores e pintores ali, por exemplo, mas seus modos de fazer são tão mais organicamente atrelados às histórias, políticas e cosmovisões e cotidianos de suas comunidades que muitas vezes os termos 'arte', 'artista', 'autoria' e 'obra' não lhes dizem respeito, não estão no vocabulário que envolvem seus ofícios e afazeres", avalia o profissional.

"Na pista de César Guimarães, nos concentramos, então, na cena sensível da política, acreditando na potência do audiovisual, da fotografia e da escrita enquanto poética que opere na 'redistribuição das maneiras de fazer e de ser, e das formas de visibilidade'. Inventário e documentários à serviço de outras formas de repartir o comum, à serviço das lutas e tradições dos povos do mar", conclui.

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