Cinema

"Transgressão" bem-vinda

Indie 2017, em São Paulo e Belo Horizonte, celebra uma nova geração de cineastas independentes

Kim Minhee, no filme "Na Praia à Noite Sozinha", premiada na Berlinale, em fevereiro deste ano
00:00 · 13.09.2017 por Luiz Carlos Merten - Agência Estado
Daniela Vega, em "A mulher fantástica", que perdeu para MInhee na Berlinale, mas faturou prêmios em outros festivais

Havia a expectativa de que Daniela Vega fizesse história como a primeira mulher trans a vencer o prêmio de interpretação feminina num grande festival internacional de cinema. A chilena concorria na Berlinale, em fevereiro, com "Uma Mulher Fantástica", e o longa de Sebastián Lelio está em cartaz nos cinemas brasileiros, para quem quiser conferir.

O júri preferiu fazer uma escolha mais tradicional - em termos. Porque, ao premiar a sul-coreana Kim Minhee, de "On The Beach at Night Alone", o troféu não deixou de ter sua carga de transgressão.

Em 2015, a bela Kim protagonizou "Lugar Certo, História Errada", seu primeiro longa com o diretor Hong Sangsoo. Tornaram-se amantes, e na Coreia do Sul o caso provocou a maior sensação. Kim é uma estrela local; Sangsoo, por seu perfil "de arte", um diretor quase desconhecido. Ele já era casado e deixou a mulher esperando enquanto excursionava pelo mundo com Kim, vivendo seu romance proibido.

A ligação não durou muito, mas o diretor e a estrela permaneceram amigos e ela interpretou "Na Praia à Noite Sozinha". O filme coloca na tela o que não deixa de ser a história privada dos dois. O acerto de contas entre uma atriz e seu diretor, de quem ela foi amante. O aspecto "biográfico" é que pode ter seduzido o júri da Berlinale, quando premiou Kim Minhee, e não Daniela Vega. O filme chileno ganhou, de qualquer maneira, o prêmio de roteiro.

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"A bela da tarde", de Luis Buñuel, a ser exibido na mostra Clássicos, junto a "Acossado", de Godard (na ponta direita); ao centro, Léonor Serraille em "Jovem Mulher", outro destaque feminino da seleção do Indie 2017 

Mostras

"Na Praia à Noite Sozinha" inaugura nesta quarta (13), o Indie 2017. O evento comemora 17 anos com uma edição que valoriza o cinema contemporâneo, privilegia os realizadores de produções autorais e aposta em uma nova geração de cineasta independentes.

Os 43 filmes dos 15 países selecionados serão exibidos de 13 a 20 de setembro, em São Paulo, e de 20 a 27 de setembro, em Belo Horizonte. A programação contempla homenagens e retrospectiva, mas a pérola é a Mostra Mundial, com 16 longas que refletem o estado da produção independente no mundo.

O filme de Hong Sangsoo participa dessa seleção, que também contempla seis autoras, desde a portuguesa Teresa Villaverde, com "Colo", sobre o esfacelamento moral de uma família, provocado pela crise econômica, até a estética experimental da norte-americana Sharon Lockhart, queridinha da crítica mundial.

Destaques

Outras duas mulheres têm conseguido ressonância para seu trabalho. A francesa Léonor Serraille ganhou a Caméra d'Or, para o melhor filme de diretor(a) estreante em Cannes, por "Jovem Mulher", e a alemã Valesca Grisebach impressiona por sua abordagem do universo dos homens em "Western". São todos programas imperdíveis, mas o Hong Sangsoo é especial.

Além desse filme premiado em Berlim, o sul-coreano estreou mais dois filmes em Cannes, em maio - "The Day After" e "Claire's Camera". Só um Jean-Luc Godard, no auge da nouvelle vague, conseguia manter esse pique de três, quatro filmes por ano. Justamente a nouvelle vague (francesa). Sangsoo só não é o último autor do movimento ativo, no mundo, porque também resiste Philippe Garrel.

Sangsoo é um diretor nouvelle vague pelo método, e também pela junção entre arte e vida que se espelham em seu cinema. Uma curiosidade particularíssima. Em "Praia à Noite Sozinha" divide-se em três partes: na primeira, Kim Minhee, como a atriz dentro do filme, está em Hamburgo. Ela almoça na casa de amigos de sua amiga. O casal é interpretado por Mark Peranson e sua mulher na vida.

Ele é o editor de CinemaScope, revista que virou referência por seu compromisso - "Expanding the frame on international cinema". Esse olhar para o cinema internacional, e formas alternativas de produção, é a essência do Festival Indie.

Clássicos

Como se não bastassem as obras inéditas da Mostra Mundial e a retrospectiva de Phillipe Garrel, o Indie 2017 ainda tem uma parte chamada Clássica. Vai apresentar cinco filmes restaurados em 4K.

São obras que pertencem à história do cinema, mas seguem vivas no imaginários dos cinéfilos. A partir de novembro, serão relançadas nos cinemas brasileiros.

Dois desses clássicos estão completando 50 anos - "A Bela da Tarde", de Luis Buñuel, e "A Primeira Noite de Um Homem", de Mike Nichols. Os outros três títulos não são menos emblemáticos - "Stromboli", de Roberto Rossellini; "Acossado", de Jean Luc-Godard; e "Mulholland Drive - Cidade dos Sonhos", de David Lynch.

Catherine Deneuve virou mito interpretando Sévérine, a burguesa insatisfeita no casamento e que se prostitui, à tarde, no bordel de Madame Anaïs. Buñuel integra num mesmo bloco narrativo as fantasias sexuais da protagonista, experiências passadas e até projeções futuras.

Dessa forma, ele rompe com o realismo psicológico, criando enigmas. Nunca saberemos o que o cliente japonês mostra à Bela da Tarde naquela caixa. Parece pouco, mas o mistério do filme vem por aí.

O primeiro Godard - Jean-Paul Belmondo, como Michel Poiccard, vive a vida vertiginosamente; o universo de sonhos de David Lynch; e Ingrid Bergman, a maior estrela de Hollywood no fim dos anos 1940, vivendo sua experiência mística naquele vulcão, com o mestre do neorrealismo, Rossellini. E Benjamin Braddock/Dustin Hoffman seduzido por Mrs. Robinson/Anne Bancroft. "A primeira noite de um homem" não seria tão mágica sem a trilha sonora de Simon e Garfunkel.

Geração

Foram-se todos os autores da nouvelle vague - François Truffaut, Eric Rohmer, Jacques Demy, Claude Chabrol. Sobraram Jean-Luc Godard, é verdade, e Philippe Garrel. Quando fez seu primeiro filme, em 1966 - "Anémone" -, a nova onda, segundo seus críticos, já tinha virado velha. Philippe, filho de ator/cineasta Maurice Garrel, e pai de Louis Garrel, também ator e diretor, prosseguiu com o legado do movimento. O travelling como questão de moral, cada filme um convite - "É preciso ir ao cinema para flutuar". Um cinema de sensações. Philippe mostrou este ano, em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, "L'Amant d'Un Jour", com Éric Caravaca e Esther Garrel (sua filha). Quando propõe que o cinema flutue, Garrel está falando em flutuações íntimas. Do amor.

Quase todo o seu cinema fala do impasse amoroso, mesmo quando o pano de fundo - Maio de 68 - parece dominante, em "Os Amantes Constantes". "O Amante de Um Dia" integra o que muitos críticos consideram uma trilogia. "O Ciúme", "A Sombra das Mulheres" e agora "O Amante". Três filmes que passam feito romances, os três em preto e branco e de um pontilhismo que evocaria a pintura de um Seurat, se ele não fosse tão colorido.

Duas mulheres - uma sobe correndo a escada da escola para encontrar o amante no banheiro. A outra, de mala e cuia, é enxotada de casa pelo ex-amante. Gozo, e lágrimas. A garota expulsa vai bater à porta do pai professor, e ele tem uma amante jovem como ela. Houve, este ano, poucos grandes filmes em Cannes. "O Amante de Um Dia" foi um. "Visages Villages", de Agnès Varda, foi outro.

O Indie 2017 promove a retrospectiva de Philippe Garrel, desde "La Cicatrice Interièure" até "J'Entends Plus la Gitare", responsável por sua consagração em Veneza, em 1991, "Os Amantes Constantes", "A Fronteira da Aurora", etc. Vai ficar devendo "O Amante de Um Dia". Nem por isso será menos necessário descobrir esse autor visceral.

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