Memória

Tim Maia: com ele valia tudo

Polêmico e talentoso, Tim Maia partia há 20 anos, deixando um legado que até hoje influencia gerações

00:00 · 15.03.2018 por Felipe Gurgel - Repórter
O ator Babu Santana interpretando o cantor no filme "Tim Maia", baseado na biografia "Vale Tudo - o som e a fúria de Tim Maia", escrita por Nelson Motta

O jornalista e compositor Nelson Motta costuma dizer que a presença de Tim Maia seria "inviável" no show business dos tempos de hoje. Do time que lamenta como o mundo se tornou "politicamente correto", Motta foi biógrafo de Tim ("Vale Tudo - O som e a fúria de Tim Maia", 2007, Editora Objetiva) e compôs sucessos, cantados pelo mito carioca, entre eles "Como uma onda" (parceria entre o jornalista e Lulu Santos).

Se Tim Maia teria visibilidade nos tempos de hoje, é difícil saber, mas o legado do carioca segue vivo, e reverbera através de hits como "Vale tudo", "Não quero dinheiro", "Me dê motivo", "Descobridor dos sete mares" e "Você". Sebastião Rodrigues Maia, nascido no Rio de Janeiro (RJ), dia 28 de setembro de 1942, foi o artista que tinha um encaixe "quase perfeito" para a dinâmica de um baile e para os padrões da música pop de rádio.

Há 20 anos, ele se apresentava no Teatro Municipal de Niterói (RJ), onde gravava o show para um especial de televisão, quando passou mal e veio a falecer em seguida. Tim deixou registrada uma discografia de mais de 30 álbuns, lançados em vida, e uma coleção de histórias polêmicas - por exemplo, a respeito de sumir na hora dos próprios shows e viver entorpecido por drogas e álcool.

Parceiros

Crescido no tradicional bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, começou tocando bateria na banda Tijucanos do Ritmo. E foi contemporâneo, ainda amador, de duas das figuras mais ilustres da música brasileira: Roberto e Erasmo Carlos (com quem ele formou o grupo The Sputniks).

Para o programa Ensaio, da TV Cultura, em 1997, uma de suas últimas aparições na TV, ele recorda que ensinou Erasmo Carlos a tocar três acordes no violão. "E com esses três acordes, ele fez 500 músicas", brincou na ocasião.

Sobre o início de carreira do "rei" Roberto Carlos, no mesmo programa, ele também brincava com a lembrança: "Não sei se você sabe... Conhece Roberto Carlos? Aquele rapaz que tem a música do 'Calhambeque, beep, beep...'. Lancei esse rapaz, quando ele veio de Cachoeiro (do Itapemirim/ES)", situa Tim Maia.

Tim conta que ele, Roberto, Erasmo e Wilson Simonal (1938-2000, cantor de alta popularidade na virada das décadas de 1960 para os 70) tinham, ao mesmo tempo, o sonho de gravar em estúdio e fazer shows. No início da década de 1970, Tim Maia lançou seus primeiros álbuns pela extinta gravadora Polydor e data do mesmo período sua conversão para a filosofia Universo em Desencanto.

Convertido, ele gravou "Tim Maia Racional", volumes 1 e 2. Ambos viraram clássicos cults. Passou por grandes gravadoras como a Continental e a Som Livre, até criar um selo independente e começar a lançar seus próprios discos. Dizia, a partir da experiência como produtor fonográfico, que lançar discos era fácil, o difícil era que as pessoas comprassem.

O selo Vitória Régia Discos começou a atuar a partir do lançamento do álbum "Tim Maia interpreta clássicos da bossa nova" (1990). Sobre a turma da bossa, o mito se declarava fã do maestro Tom Jobim (1927-1994). Os dois nunca se encontraram pessoalmente, mas se comunicaram por telefone.

Além de Tom, Tim Maia não escondia admiração pelo longevo grupo vocal Os Cariocas, fundado no mesmo ano de seu nascimento (1942). Em homenagem, lançou "Amigos do rei - Tim Maia e Os Cariocas" (1997), pela Vitória Régia Discos.

Banda

Vitória Régia também era o nome da banda de apoio de Tim Maia. Embora fosse irreverente no discurso, Tim era um músico que trazia uma preocupação evidente com o desempenho instrumental.

Não raro, os músicos se apresentavam vestidos de terno e tinham uma competência técnica diferenciada. Simples e "redonda", ao mesmo tempo, a formação respondia ao perfil de uma autêntica banda de baile.

A Vitória Régia seguia no contrafluxo do minimalismo, e reunia duas vocalistas como backing vocals, bateria, percussão, teclados, guitarras, baixo, naipe de metais, tudo bem azeitado. A chamada "Bora, Vitória Régia!" era um clássico dos shows de Tim Maia.

Rio de Janeiro

Tim cantava o Rio de Janeiro de modo apaixonado, ao mesmo tempo sem a "finesse" do time da bossa nova. Seu olhar para a paisagem carioca era mais direto. O hit "Do Leme ao Pontal" traz uma letra bem curta, exaltando a orla marítima da capital fluminense.

O Rio aparecia indiretamente, também, em sua obra, através de canções como a sofrida "Azul da cor do mar" (a mesma dos versos, sem piedade, "E na vida a gente tem que entender/ que um nasce pra sofrer/ enquanto o outro ri"). "Descobridor dos sete mares", em outra direção, era ponto alto e festivo dos shows do mito.

Tim Maia era o típico cantor que dialogava, com maestria, frente aos diversos ânimos do público. Ao mesmo tempo que a Vitória Régia se propunha a alegrar o baile, a banda sabia, em sintonia fina com Tim, criar o clima propício pra emocionar.

"Me dê motivo", por exemplo, de Michael Sullivan e Paulo Massadas, era uma das letras mais fortes que Tim Maia cantava. Ao cantar sobre os lamentos de uma separação, o mito, já perto da morte, ainda se engasgava com o refrão, mostrando toda a visceralidade que marcou sua trajetória.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.