Textos de Luis Fernando Verissimo em livro e série - Caderno 3 - Diário do Nordeste

Histórias de amor

Textos de Luis Fernando Verissimo em livro e série

12.12.2013

Tema recorrente na obra do autor há mais de 40 anos, o amor é o protagonista de futuros lançamentos dele

Até que, para quem está casado há 50 anos com a primeira mulher que namorou pra valer - "A verdadeira Lúcia Verissimo", nas palavras do marido -, Luis Fernando Verissimo tem experiência com o amor. Um tema recorrente em seus textos, que ele escreve há mais de 40 anos, afinal, são os casais se apaixonando, convivendo ou se desfazendo. Agora, parte dessas histórias vai virar livro e série de TV. O GNT lança, dia 8 de janeiro, às 22h30m, "Amor Verissimo", dirigida por Arthur Fontes, com 13 episódios inspirados em textos do autor que tratam de relacionamentos. No dia 15 do mesmo mês, a editora Objetiva, inspirada pela série, lança um livro homônimo, com 50 textos. São histórias sobre sedução, traições, obsessões, sexo, taras, corações partidos - e até os apelidinhos íntimos (e ridículos) dos casais.

Casado com a primeira namorada, Verissimo entende de amor FOTO: CAROL DOMINGUES (6/11/2007)

Colunista do Globo e vencedor do último Prêmio Jabuti (com "Diálogos impossíveis"), Verissimo abriu sua casa, em Porto Alegre, para uma sessão dos primeiros episódios da série. E falou do novo livro e de suas experiências com o amor. Quer dizer, falar não é bem o forte do autor gaúcho. Dono de uma timidez já conhecida, suas frases são marcadas por um falar manso e silêncios compridos. Dá até para fazer um estudo matemático de sua timidez: a entrevista propriamente dita teve 50 perguntas, que Verissimo respondeu em 40 minutos - menos de um minuto por resposta. Isso sem contar os silêncios, as pausas. Tudo bem, a vida de Luis Fernando Verissimo é um livro entreaberto, mas de onde vem toda essa experiência com o amor, depois de 50 anos casado? "Até chamaram a minha atenção para o fato de eu escrever muito sobre casais se desfazendo. Não tem nada de autobiográfico", diz Verissimo, 77 anos, lembrando que hoje não circula muito por aí, mas que, jovem, teve "bastante experiência" com o amor.

A primeira foi aos 7 anos. Ele se apaixonou por uma garota da escola em que estudava, em Los Angeles, onde a família morava. Para se aproximar da jovem paixão, o escritor roubou uma pulseira de casa ("Nada de valor"). A história está contada na crônica "A pulseira", incluída no livro.

"Mas eu entreguei a pulseira e saí correndo! Nunca nos falamos, ela não entendeu nada. Minha vida no crime foi por amor", diz o autor, que sentiu medo de, na hora da declaração, se confundir e dizer "My love is name and I Luis you."

Coisa séria mesmo só com Lúcia Verissimo (a verdadeira, vale lembrar), com quem começou num namoro de escritório, outro tema clássico de suas histórias. Eles trabalhavam juntos e estavam "ficando". Um dia, o escritor venceu a timidez, comprou uma aliança e deu um ultimato: ela tinha cinco minutos para decidir. Verissimo ainda lembra o dia: 22 de novembro de 1963 - dia do assassinato de Kennedy. Lúcia disse sim.

"Acho que eu disse algumas palavras. Algumas frases, pelo menos, tenho certeza. Estávamos mais ou menos namorando. Estamos juntos há 50 anos. Pelo visto o casamento vai dar certo", brinca Verissimo.

A diferença entre os dois também é marcante. Ela é falante, extrovertida; ele, o caladão de sempre. Mas Verissimo se defende, e diz que não fala muito porque Lúcia não deixa espaço. "Estou há 50 anos esperando uma brecha para falar", ri.

Verissimo se esquiva na hora de falar de sua vida amorosa antes de Lúcia. No livro "Conversas sobre o tempo", uma entrevista que ele e Zuenir Ventura deram a Arthur Dapieve, em 2010, ele menciona a história de uma húngara que... "Eu contei a história da húngara?! Não me lembrava. Ela era masoquista", diz o tímido, meio espantado consigo mesmo.

Pois é, contou. Aos 23 anos, Verissimo foi com a família à Europa, pela primeira vez, onde passaram quatro meses. Um dia, começou a conversar com uma húngara em um café, rolou um clima e os dois foram para o quarto. O caso não deu certo porque a húngara queria apanhar.

Também há a história de quando Verissimo era um Odair José gaúcho. Ele se esquiva da pergunta - e Lúcia, que está presente, prefere sair da sala ("Eu não me meto nesse assunto") -, mas confirma que costumava se apaixonar por garotas de programa na juventude. "Tinha um pouco daquilo de ´Quero tirar você dessa vida´. Mas também não fui muito disso", afirma Verissimo, lembrando que, embora fosse romântico, não teve nenhum grande amor naquela época.

O escritor gaúcho assistiu a "Amor Verissimo" com um sorriso no rosto. Achou que o diretor, Arthur Fontes, conseguiu explorar o humor de uma forma parecida com o Porta dos Fundos, do qual é fã. "Achei que o programa ficou um pouco na linha do que eles fazem. Essa interpretação mais sutil, com aqueles silêncios. Gosto dessa coisa de nem sempre buscar a gargalhada. Às vezes um sorriso basta", defende Verissimo.

Textos

O diretor do programa afirma que buscou textos do autor nos quais "coisas estranhas" acontecem. Como "História de verão - Uma leve brisa", em que um dos personagens apresenta a nova namorada aos amigos, que ficam boquiabertos com a beleza, simpatia e inteligência da mulher, interpretada por Luana Piovani. Não bastasse isso, a tal ainda tem uma brisa "mágica" que sopra nos seus cabelos. "Ela parece um show da Beyoncé", define um dos personagens. "Adoro essas histórias com coisas inexplicadas. Costumo chamar essa veia do Verissimo de surrealismo light. Também prefiro dirigir as histórias com mais pausas e silêncios", diz Arthur Fontes.

Na série "Amor Verissimo", a narrativa é entrecortada com depoimentos de casais reais, interpretados por atores, em um sofá. As histórias de amor, roteirizadas a partir de entrevistas, são uma homenagem ao diretor Eduardo Coutinho e a seu "Jogo de cena" (2007). Entre os atores estão Fernanda Paes Leme, Letícia Colin e Gabriela Duarte.

No livro, a galeria de personagens é ainda maior: Don Juan, a grávida que chora por pena do detergente que não lava mais branco e o Corno Lírico, entre outros. Os apelidinhos dos casais, como "bituquinha" ou "pituxo", também são uma das marcas dos textos do autor sobre a vida a dois. Mas qual seria o apelido de Verissimo no casamento? Ele jura que não tem.

MAURÍCIO MEIRELES
AGÊNCIA O GLOBO

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