Livro

Testemunha de um Brasil esquecido

Com “Prisioneiras”, Drauzio Varella encerra a trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro

00:00 · 13.05.2017 / atualizado às 03:00

Existe um território desconhecido por grande parcela da sociedade brasileira. As cadeias desse País cantado em verso e prosa como tropical e acolhedor refletem o quanto a formação desta mesma sociedade é sórdida, pontuada pelo expediente do ódio, descriminação e total apatia com os desvalidos. 

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.Na defesa do próximo

Entre as poucas testemunhas diretas desse abismo, uma se destacou. Drauzio Varella começou seu trabalho como voluntário na Casa de Detenção de São Paulo, o Carandiru, em 1989. A vivência deu origem a dois livros: “Estação Carandiru” (1999) e “Carcereiros” (2012), ambos lançados pela Companhia das Letras. Os volumes reúnem a história e as histórias da prisão, dos detentos e de seus funcionários. 

Depois da implosão do Carandiru, o médico passou a atender na Penitenciária do Estado, onde segue até hoje. Eventualmente, o local viria a ser transformada na Penitenciária Feminina da Capital, abrigando mais de duas mil encarceradas.

Voluntário durante mais de uma década no presídio para mulheres, Varella foi médico e ouvinte de muitas detentas que ali cumprem suas penas. Ao dar voz e individualidade às mulheres esquecidas por grande parte da população, ele penetra fundo numa estrutura quase sempre desumanizadora e finaliza um projeto marcado pelo olhar crítico e, sobretudo, pela sensibilidade, com o lançamento de “Prisioneiras”, último volume de sua trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro.

No ambiente carcerário feminino, há elementos comuns às penitenciárias masculinas. Assim como no Carandiru, um código de leis não escrito rege as prisioneiras; o Primeiro Comando da Capital (PCC) está presente e mostra sua força através das mulheres que integram a facção; e a relação entre aquelas que habitam as cadeias não é menos complexa.

Diferenças

As casas de detenção femininas, no entanto, guardam suas particularidades — diferenças às quais o médico paulistano dedica atenção especial em sua narrativa. Desde a dinâmica dos atendimentos e a escassez de visitas até os relacionamentos entre as presas, fica nítido que a realidade das prisões escapa ao imaginário de quem vive fora delas.

Diferentes também são a dinâmica das consultas, a forma com que o amor e a sexualidade são encarados pelas detentas e a hierarquia que se estabelece no cárcere. São histórias de mulheres que, não raro, entram para o crime por conta de seus parceiros – inclusive tentando levar drogas aos companheiros nas penitenciárias masculinas em dias de visita – porém são esquecidas quando estão atrás das grades. Numa sociedade machista, famílias conseguem tolerar um encarcerado, mas não uma mãe, irmã, filha ou esposa na cadeia.

Assim como seus antecessores, “Prisioneiras” é um relato franco, sem julgamentos morais, que não perde o senso crítico em relação às mazelas de nossa sociedade.

Nesse encerramento de ciclo, Drauzio Varella reafirma seu talento de escritor do cotidiano ao retratar sua experiência e a vida de inúmeras mulheres com a mesma disposição, coragem e sensibilidade que empreendeu quando decidiu exercer a medicina também nas prisões há quase três décadas.

Livro

Prisioneiras

Drauzio Varella

Livro

Companhia das Letras

2017, 296 páginas

R$ 39,90

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