Exposição

Tentando mensurar o imensurável

Carioca Felippe Moraes mistura matemática, ciência e espiritualidade em exposição na Caixa Cultura Fortaleza

Obras da exposição "Imensurável" e seu autor, Felippe Moraes: Alguns trabalhos, de natureza sinestésica, propõem interação com o público ( Fotos: DENISE F ADAMS/Div,. )
00:00 · 13.06.2018

A ideia é juntar saberes diferentes. Os conhecimentos em engenharia, matemática, química, a geometria e os estudos da alquimia aparecem para discutir questões existenciais da vida humana. Essa é a proposta da exposição "Imensurável", do artista carioca Felippe Moraes. Em cartaz desde o último sábado (9), a mostra segue aberta ao público, na Caixa Cultural Fortaleza até 12 de agosto.

"Imensurável" foi um dos eventos adiados na capital cearense por conta da greve dos caminhoneiros, juntamente com a mostra "Francisco Brennand - Mestre dos Sonhos", agora já em cartaz, também na Caixa (até 15 de julho).

As 40 obras de Felippe Moraes, com curadoria de Alexandre Sá, trazem um pouco do que a nova geração da arte contemporânea nacional anda produzindo. A exposição visa discutir a existência e transcendência da matéria por meios poéticos.

Produzidos entre 2009 e 2018, os trabalhos revelam técnicas e dimensões pensadas para proporcionar interação com os visitantes.

Somando 10 anos de trabalho, em determinado momento Moraes interessou-se pelo imaterial, pelo que é invisível e incompreensível. Todas essas questões são abordadas por meio de esculturas, instalações, objetos, fotos, interferências, desenhos e pinturas.

Nelas pode-se ver a espiritualidade, por exemplo. Entretanto, Moraes optou por usar a ciência, em especial a matemática, para abordar a imaterialidade conhecida nas religiões. "Se falarmos da constante matemática Pi (3,14...), por exemplo, estamos lidando com um número infinito. Minha questão é sempre a de como podemos lidar com algo intangível e infinito na nossa condição de seres finitos e tangíveis", pontua.

"Compreendo minha prática como limítrofe entre o pensamento racional e técnico das ciências e seus desafios de tentar lidar com os fenômenos do universo que ainda não compreendemos, e a espiritualidade que, de uma maneira distinta, está lidando com experiências tão sutis quanto as da matemática", ressalva.

Interatividade

O uso da tecnologia, tanto sonora como visual, ajuda os visitantes nessa parte mais interativa. "Há alguns trabalhos que propõem interação com as obras, pois elas foram pensadas como dispositivos que revelam certas potências sinestésicas que negligenciamos em nossa vivência do mundo. É um chamado ao interesse e ao redescobrimento do mundo que nos cerca", comenta.

Os trabalhos que se abrem a uma interação com o público apresentam tecnologias analógicas, com procedimentos usados por civilizações antigas. Isso partiu do interesse de Felippe em revelar fenômenos invisíveis e profundamente simples e poéticos. Como "ouvir o sopro de uma nota musical sendo emitida pela passagem de ar por um tubo de aço inoxidável". Essa vivência pode ser observada no trabalho intitulado "Tubos Sonoros", de 2014.

Assim, "Imensurável" têm a ambição de despertar sensações e reflexões conceituais sobre a própria realidade tangível e ajuda na compreensão de outras realidades.

"Diria que essa é uma das exposições mais importantes da minha carreira pois é uma oportunidade inédita, inclusive para mim, de ver tantos trabalhos de fases diferentes em uma única seleção. A mostra é uma reflexão sobre a obra como um todo nesse momento em que completo dez anos de carreira", confidencia o artista.

Transcendental

Ao explorar contextos filosóficos, científicos, espirituais e emocionais, Moraes dá protagonismo aos fenômenos invisíveis aos olhos humano, que permeiam nossa existência a despeito da necessidade do homem de contabilizar e classificar o mundo O nome "Imensurável" vem daí, do que é impossível ser medido ou pesado.

Na parte religiosa, há a obra intitulada "Verbo" (2009- 2010), em referência ao versículo bíblico "No princípio era o verbo" (João 1:1). "O Peso do Verbo" (2014) é outra presente na exposição, inspirada na primeira. Nela, o artista contabilizou quantas palavras "Deus" aparecem na Bíblia - um total de 5107 menções, ou 15 gramas de Deus.

"Tento materializar essa presença do divino judaico-cristão em 72 reagentes químicos condutores. Essas tentativas frustradas de materializar ou contabilizar o intangível é boa parte do que me motiva. A própria falência desses métodos é o que possibilita compreendermos aquilo que é imensurável", pontua Felippe Moraes.

"Essa exposição revela de maneira muito coesa essas ideias que permeiam o meu pensamento e minha prática artística. Pensar na 'Imensurável' tem tido um efeito muito positivo sobre minha própria produção ao retomar assuntos e temas antigos, de forma potente, sendo relidos, revistos e revisitados", finaliza.

Mais informações:

Mostra Imensurável - Felippe Moraes. De 9 de junho a 12 de agosto. Na Caixa Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema). Gratuito. Visitações: terça a sábado, das 10h às 20h; domingo, das 12h às 19h. Classificação Livre. Contato: (85) 3453.2770

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