FESTIVAL ELEAZAR DE CARVALHO

Tão longe e tão perto do coração selvagem

21:21 · 30.06.2007
Camargo Guarnieri: músico paulista foi um dos mais importantes compositores eruditos brasileiros e recebe homenagem do Festival Eleazar de Carvalho
Camargo Guarnieri: músico paulista foi um dos mais importantes compositores eruditos brasileiros e recebe homenagem do Festival Eleazar de Carvalho ( Reprodução )

No ano de seu centenário, o paulista Camargo Guarnieri é um dos homenageados pelo IX Festival Eleazar de Carvalho

Irmão mais velho de Belline, Rossine e Verdi, Mozart Camargo Guarnieri nasceu em Tietê, no dia 1º de fevereiro de 1907. Sua primeira composição, “Sonho de Artista”, foi dedicada ao primeiro professor, Virgínio Dias, com quem começou a estudar música aos 10 anos. Aos 16, sua família se muda para São Paulo, onde o jovem músico toca em pequenas orquestras de cafés, cinemas e teatros e estuda no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, sendo aluno de Sá Pereira e Ernani Braga (piano) e de Lamberto Baldi (composição e direção), seu principal mestre.

O escritor Mário de Andrade torna-se seu mentor intelectual, após escutar suas “Dança Brasileira” e “Canção Sertaneja”. Compõe várias canções a partir de texto do autor de “Paulicéia Desvairada”, entre elas: “Lembrança de Lozango Cáqui”, “Toada do Pai do Mato”, “Sai Aruê”, “A Serra da Rola Moça” e a ópera em dois atos “Pedro Malasarte”. Deixando de lado o anacrônico prenome ao longo de toda a sua obra, comentaria mais tarde que devia sua vida a seu pai, a Mário de Andrade e a Lamberto Baldi.

Sua consagração se daria inicialmente em São Paulo, principalmente depois de conquistar importantes prêmios internacionais. Quando passa a desenvolver uma obra que o tornaria visto por muitos como o mais importante compositor brasileiro. Segundo o pesquisador Vasco Mariz, em seu “História da Música no Brasil” (Record, 2005) Guarnieri pertenceu à terceira geração nacionalista, preocupado em fugir do exotismo em favor de uma brasilidade depurada, íntima e não exibicionista, ainda que “pouco acessível ao grande público no primeiro contato”.

Brasilidade contemporânea

Uma música menos europeizada e em dia com suas origens interioranas, que, ao lado de Villa-Lobos, Lorenzo Fernandes e Francisco Mignone, ajudou a “pavimentar” os novos caminhos da música brasileira, mesmo que isso proporcionasse, com o tempo, uma ruptura com o próprio Mário de Andrade, a convite de quem Camargo Guarnieri dirigiu o Coral Paulistano do Departamento de Cultua e Recreação da Prefeitura de São Paulo.

Isso após voltar da Europa, em 38, quando teve seu primeiro contato com Charles Koechlin, François Rühlmann, Charles Münch e Nadia Boulanger. Apesar de breve, devido à II Guerra, a viagem proporciona grandes conhecimentos. Mas foram os prêmios nos Estados Unidos, quatro anos depois, que o ajudaram a construir uma autenticamente brasileira, ao tornar-se regente da Orquestra Sinfônica daquele mesmo Departamento de Arte e Cultura. Em 1944, Guarnieri faz sua primeira sinfonia.

Em 1950, questiona o atonalismo em voga numa “Carta aberta aos músicos e críticos do Brasil”. Sua obra seria ainda mais divulgada nos anos seguintes, a partir do Festival de Ouro Preto e quando Guarnieri se torna o assessor especial em assuntos musicais do Ministério da Educação e Cultura de Kubitscheck. Então, aproxima-se mais do público carioca, mesmo sem perder seus vínculos paulistanos, como ao criar a Orquestra de Cordas da USP, em 76, onde ensinou até perto de sua morte, em 93. Uma experiência que ele também manteve em Goiânia, tendo discípulos como Marlos Nobre, Almeida Prado e Aylton Escobar.

Ao morrer, em 93, Camargo Guarnieri deixou um legado de 700 obras, entre sinfonias, concertos, sonatas, madrigais, óperas e prelúdios. Vasco Mariz acrescenta que sua obra, em todos os gêneros, se constitui “o maior conjunto de criação musical que o Brasil produziu, depois de Villa-Lobos, e não lhe fica muito atrás, nem em número nem em qualidade”. O crítico e pesquisador musical o considera ainda “o maior de todos os músicos contemporâneos do país”.

Um artista contemporâneo que sempre se manteve próximo ao coração selvagem de sua terra, como demonstram as sinfonias resgatadas pelo selo Biscoito Clássico, em interpretações da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência de John Neschling. E como será comprovado na noite de hoje, durante a abertura do Festival Eleazar de Carvalho, quando a Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho de Iguatu interpreta os ponteios nºs 16 e 19, originalmente escritos para piano, numa coleção de cinco cadernos dedicados ao gênero. E que, há 10 anos, ganharam orquestração para cordas pelo mineiro Zoltan Paulinyi.

HENRIQUE NUNES
Repórter

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.