Cinema

Sublime e violento

02:34 · 03.01.2007
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Paulo Thiago filma “Orquestra de Meninos”, uma obra baseada em fatos reais . No elenco, Othon Bastos, Murilo Rosa e Priscila Fantin

Em 1995, o cineasta Paulo Thiago tomou contato com uma história repleta de intrigas a respeito do maestro pernambucano Arlindo Mozart Vieira. A reportagem publicada inicialmente no “Estado de S. Paulo” e depois na “IstoÉ” reconstituía um seqüestro de uma criança, componente de uma desconhecida Orquestra de Meninos, dirigida por Mozart Vieira, no agreste pernambucano, em São Caetano, cidade próxima a Caruaru.

O seqüestro, urgido pelas oligarquias locais, temiam Mozart Vieira, fundador da orquestra e que, naquele momento, começava a despontar no cenário nacional através de programas como “Fantástico”, da Rede Globo e instituições internacionais. Ao fundar uma pequena orquestra com garotos pobres da região, Mozart Vieira mexeu num vespeiro. Tanto as famílias das crianças revoltaram-se com o maestro - elas ajudavam os pais trabalhando nas roças; quanto os coronéis locais que viam com despeito o nome de Mozart veiculado por poderosos veículos de comunicação e, por outro lado, deixavam de explorar mão-de-obra infantil.

O maestro por sua ação beneficente - além de ensinar boa música às crianças do agreste sertanejo - preparava-as através da arte para um outro tipo de vida - tornou-se, assim, uma pessoa “perigosa”. Por isso, seu nome foi envolvido no seqüestro - segundo o delegado encarregado das investigações, ele, Mozart, seria o autor do crime e ainda ganhou fama de pedófilo. Tudo uma farsa para acabar com a vida de Mozart.

Mozart Vieira, então com pouco mais de 30 anos, passou por momentos difíceis em sua vida - o caso é muito parecido com a Escola de Base de São Paulo, quando seus donos foram, também, acusados de pedofilia. Não fosse D. Hélder Câmara, talvez, o resultado tenha sido o mesmo ou até pior para o maestro do interior pernambucano. D. Hélder envolveu-se na questão, mobilizou artistas de todo o País e a farsa caiu por terra.

A história ficou na cabeça do cineasta Paulo Thiago (“Triste Fim de Policarpo Quaresma”,“ Jorge, um Brasileiro”, “O Vestido”, “Sagarana”, “O Duelo”, “Bossa Nova, entre outros) por todo este tempo. Afinal”, era uma história emblemática, envolvendo oligarquias nordestina numa ponta; e na outra um maestro que tanto fez por um grupo de crianças humildes fundando, inicialmente, um coral e, depois, uma pequena sinfônica de sopros que interpretava peças de Bach, Mozart, Villa-Lobos, Vivaldi, entre grandes nomes da música clássica mundial.

Paulo Thiago remoeu a idéia do filme durante anos. Já tinha o nome “Orquestra de Meninos”. Recorreu a arquivos de jornais e televisões e deparou-se com uma matéria de Geneton Moraes para o “Fantástico” sobre Mozart . A matéria chegou a ganhar prêmio internacional.

Thiago ficou ainda mais impressionado. Pensou em procurá-lo pessoalmente. Mas a história do seqüestro do garoto chamado Erinaldo, da acusação de pedofilia, escândalos que envolveram diretamente o maestro, inocentado graças a mobilização feita por D. Hélder, ainda era muito recente. Thiago preferiu dar um tempo.

Passada a tempestade, Mozart, hoje com 42 anos, continua a fazer seu trabalho de música junto a garotos pobres de Pernambuco. Atualmente, subsidiado por instituições belgas e francesas, ele apresenta-se na Europa com sua orquestra de crianças. Com a confusão desfeita, Paulo Thiago resolveu conversar com o maestro sobre a possibilidade de filmar a sua história; Inicialmente, o maestro foi refratário. Depois, de reconhecer a filmografia de Paulo Thiago, resolveu solicitar mais informações. Os dois se encontraram e, por fim, Mozart Vieira concordou que a sua história virasse um filme.

José Anderson Sandes
Editor

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