Artes visuais

SP-Arte: festival imagético

SP-Arte abre a 14ª edição com entrada de 16 novas galerias. Entre os destaques estão obras de León Ferrari

Uma das obras de León Ferrari com caráter anticlericanista, marca conhecida de sua produção ( Fotos: Mariano Sanda/Tecnópolis/divulgação )
00:00 · 12.04.2018 por Maria Hirszman - Agência Estado
O argentino León Ferrari

Aqueles que desejam compreender a arte latino-americana a partir da segunda metade do século 20 devem obrigatoriamente se debruçar sobre a produção efervescente de León Ferrari (1920- 2013). Um dos raros artistas a trabalhar simultaneamente com algumas das correntes artísticas marcantes do período - como o abstracionismo, o construtivismo e uma arte conceitual profundamente militante -, ele ainda desempenhou papel fundamental na articulação e difusão de ideias, sobretudo entre Argentina e Brasil, onde viveu entre 1976 e 1984, fugindo da violenta repressão da ditadura de seu país.

Faz mais de dez anos que São Paulo recebeu sua última exposição de fôlego: uma premiada retrospectiva organizada na Pinacoteca do Estado. Foi pensando nessa dificuldade em ter uma visão ampla da obra de Ferrari que Lisette Lagnado concebeu a exposição "Por Um Mundo Sem Inferno", que abriu nesta quarta (11) para o público na Galeria Nara Roesler, que também leva obras do artista para a SP-Arte.

> SP-Arte: galerias apostam alto

"Procurei trazer obras de diferentes décadas e todas as técnicas que ele trabalhou. A ideia é enfatizar um León orgânico, que não tem necessariamente fases", explica a curadora.

Catolicismo

Há três anos concebendo essa mostra, baseada exclusivamente no acervo da família do artista, Lisette selecionou mais de 70 pinturas, esculturas, desenhos e colagens, realizadas entre 1962 e 2009. A montagem coloca propositalmente em sintonia diferentes experimentações propostas por ele ao longo de mais de meio século.

Há espaço para as obras de caráter mais militante e crítico, sua faceta mais conhecida, como os comentários contundentes sobre a aliança espúria entre o poderio militar norte-americano e a ditadura argentina, ou de seu corrosivo anticlericalismo. O caráter opressor da religião, sobretudo a católica, é um de seus temas recorrentes.

Em vários de seus trabalhos León Ferrari explicita com ironia fina a milenar repressão sexual e manipulação política vinculada à iconografia religiosa e artística.

Como diz Lisette, sua tese principal consiste em afirmar que "o patrimônio artístico da cultura ocidental está assentado sobre promessas de castigos e torturas, tendo o inferno e o apocalipse como imperativos categóricos de uma humanidade ímpia".

Daí o título da exposição ter sido tirado da obra "Carta ao Papa - Por Um Milênio Sem Infernos". Provocativo e incansável, Ferrari escreveu ao papa (no caso João Paulo II) pedindo a revogação do inferno. E acaba por transformar a missiva no centro de uma composição na qual associa o texto a uma trama gráfica.

Mal sabia ele que, algum tempo depois, o papa Francisco negaria - mesmo que depois desmentido em nota oficial do Vaticano - a existência do inferno em conversa com o editor do La Repubblica.

Mas Ferrari não é apenas um combatente de ideias, um exemplar representante do conceitualismo latino-americano que, diferentemente do norte-americano, incorpora também uma clara postura política à arte.

"Ferrari é um artista experimental de boca cheia", enfatiza Lisette, ao demonstrar que seu interesse foi também trazer para a mostra suas facetas menos conhecidas, como as pesquisas acerca da linguagem, da escrita como signo, e de uma impressionante coleção de iconografias que reuniu ao longo da vida.

Arbitrariedade

A exposição, que fica em cartaz até 30 de maio, sofreu um revés quando a galeria descobriu, ao retirar as obras no depósito, que o aeroporto havia aumentado o preço cobrado para guardar o material de forma desproposital e unilateral. De um momento para o outro, o custo das exposições internacionais em cartaz atualmente (além da mostra de Ferrari, a Nara Roesler está trazendo um importante recorte de fotógrafos nova-iorquinos) subiu em R$ 37 mil.

Se essa situação se prolongar provavelmente o País verá uma redução de suas mostras internacionais.

Espaços

Esse resgate da obra de Ferrari não envolve apenas a mostra na galeria. Contempla também uma jornada de discussões sobre seu trabalho, a realizar-se hoje (12), no MuBE, com a presença de Pablo León de la Barra, do Guggenheim (NY); Anna Ferrari, da Fundação Augusto e León Ferrari Arte e Acervo (FALFAA); Victoria Northoorn, que dirige o Museu de Arte Moderno de Buenos Aires, e a artista Regina Silveira.

Ele também tem peças na mostra Esculturas para Ouvir, no MuBE. Além disso, a filial da Galeria Nara Roesler em Nova York deve inaugurar uma pequena mostra de colagens de sua autoria sobre violência nos finais dos anos 1980 e 1990.

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.