Música

Sombras à vista

Velvet Underground passou a largo do otimismo hippie e abriu caminho para a lúgubre década de 1970

00:00 · 18.03.2017 por Dellano Rios - Editor de área
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A famosa capa desenhada por Andy Warhol, para seus protegidos. No LP original, a casca amarela da banana era um adesivo, que encobria o fruto em cor-de-rosa

Comparado a outros discos de 1967, "The Velvet Underground & Nico" foi um verdadeiro fracasso. Da primeira edição do álbum, só foram vendidas 30 mil cópias. Ele não saiu das imediações do último lugar do Top 200 da revista Billboard. A crítica também lhe deu pouca importância, saindo um texto positivo, aqui e ali, em revistas com pequenas tiragem.

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Lançado em março daquele ano, o LP reunia um time de novatos, que estavam fazendo barulho entre os moderninhos de Nova York. Claro, havia a sombra de Andy Warhol sobre o grupo, mas o apadrinhamento do guru da Pop Art não era exatamente um grande chamariz para o público de rock. A gravadora Verve era especializada em jazz e distribuiu mal o disco. Não conseguiu promover o álbum, que foi rejeitado por rádios e lojas, ao implicarem com os temas barra-pesada de algumas de suas letras - em especial, aquelas que descreviam cruamente o cotidiano dos usuários de heroína.

Se a estreia da banda teve um desempenho tão medíocre, como explicar que se fale, hoje, de "The Velvet Underground & Nico", com tanta reverência e ardor? A melhor resposta ainda é o comentário feito, em uma entrevista de 1982, pelo músico inglês Brian Eno (ex-integrante do Roxy Music e um dos produtores favoritos de Talking Heads, Devo e U2). "Acontece que todo mundo que comprou uma daquelas 30 mil cópias começou uma banda", explicou, se valendo de um exagero que traduz à perfeição a relevância daquele trabalho.

Na história da música pop, alguns álbuns são capazes de abrir veredas imensas, inaugurando uma estética inédita, um novo subgênero. "The Velvet Underground & Nico" é um artefato de efeitos ainda mais assombrosos. É um disco que antecipa o punk e o pós-punk, que inaugura um tipo de melancolia perversa, típica do indie rock.

O terror e a beleza extrema se dão os braços na música do Velvet Underground, como na paradoxal imagem que nomeia a banda (um submundo de veludo). Aquela expressão adiantava o espírito que predominaria no rock nos anos 1970: a ressaca do flower power, a decadência, a sujeira e a mesquinharia.

Interferência

As raízes do Velvet Underground estão no encontro do Lou Reed, um jovem judeu nova-iorquino, interessado em literatura e rock; e John Cale, músico galês que se mudou para os EUA para estudar música experimental e de vanguarda. Diferente da maior parte do circuito rocker, o Velvet surgiu num meio intelectualizado, com ligações acadêmicas e conexão com outras artes, como o cinema.

A musicalidade experimental da banda, bem como as letras inspiradas na literatura de escritores malditos, chamaram a atenção de Andy Warhol, que passou a empresariar a banda e a incluiu em alguns de seus projetos artísticos que combinavam diversas linguagens. Também foi Warhol quem trouxe Nico para a cena. Modelo alemã, atriz em filmes do artista, ela não era exatamente uma cantora.

Foi por insistência de seu "padrinho" que Nico cantou três canções no álbum de estreia da banda. E este foi um dos acertos de Warhol em sua parceria com o Velvet (a outra foi a icônica capa, com uma banana). Ter uma estranha dividindo a cena pode ter irritado Cale e Reed, mas no final eles deram a ela algumas das melhores composições do álbum e é com ela nos vocais que se ouve a beleza imbatível de uma "I'll be your mirror".

A importância posterior do Velvet Underground como referência para punks, pós-punks e toda a fauna do chamado rock alternativo muitas vezes eclipsa uma de suas qualidades mais marcantes. A criação de pérolas de extrema beleza e delicadeza, incrustadas no lodaçal do baixo astral.

Não há como negar a importância de "Venus In Furs" (inspirada no romance "A vênus em pele", de Leopold Sacher-Masoch, do austríaco de onde deriva a palavra "masoquismo"), "Waiting for my man" e "Heroin", mas a atenção quase maníaca e voyeurística a seus temas - uma sexualidade marginal, no primeiro caso, e o consumo de opiáceos, nas duas últimas - imprime no Velvet uma marca reducionista.

Nem parece que o disco se inicia com "Sunday Morning" e passa pela sexy "Femme Fatale", antes de mergulhar no caos de "The Black Angel's Death Song" e de "European Son".

Mito

"The Velvet Underground & Nico" só se tornou o clássico que é hoje por volta de 1977. Lou Reed já era um astro, com pelo menos dois clássicos solo ("Transformer", de 1972; e "Berlin", de 1973); Cale mantinha-se experimentando em discos solos e havia trabalhado com os Stooges. O guitarrista Sterling Morrison e a baterista Moe Tucker tomaram caminhos inusitados - ela deixou tudo para se dedicar à família e hoje apoia políticas reacionárias nos EUA; ele foi pilotar barcos rebocadores e morreu de câncer nos anos 1990, tendo gravado pouco depois do fim do grupo.

O Velvet ainda gravaria três excelentes álbuns com Reed à frente. Quando a efeméride de 10 anos de sua estreia chegou, a banda já não existia. Mas tinha deixado o suficiente para se erguer um mito imortal.

Fique por dentro

Um disco de Nico - e do Velvet Underground

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Costuma ser hiperbolizada a hostilidade dos integrantes do Velvet Underground quanto à modelo Nico, após Andy Warhol encaixá-la na formação da banda que apadrinhava. Prova disso é que, um mês depois de "The Velvet Underground & Nico" chegar às lojas, a alemã entrou em estúdio para gravar seu primeiro disco solo. "Chelsea Girl" tomava o nome emprestado de um filme de Warhol que Nico tinha estrelado. O som era um folk melancólico, não tão distante de sua performance em "I'll be your mirror", da estreia do VU. A semelhança é fácil de explicar: Lou Reed, John Cale e Sterling Morrison ajudaram-na a gravar o álbum, tocando em parte do disco e, no caso dos dois primeiros, escrevendo canções para ela. Destaque para "These Days" (Jackson Browne) e "Chelsea Girls" (Lou Reed, Sterling Morrison). A pegada folk havia sido experimentada numa série de apresentações solo, em uma cafeteria nova-iorquina, no mesmo período que ela fazia shows com o Velvet no espetáculo multimídia de Warhol, Exploding Plastic Inevitable. Nico estava então sempre bem acompanhada. Cantava tendo ao lado violonistas como Jackson Browne (que toca em seu solo), Leonard Cohen e os rapazes do Velvet Underground.

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