Curso

Sobre os novos caminhos da arte

Realizado na Caixa Cultural Fortaleza até o próximo dia 15, curso visa apresentar público à Arte Contemporânea

00:00 · 08.08.2018 por Diego Barbosa - Repórter
d
Trabalho do cearense Célio Celestino, convidado a realizar uma fala no curso

Entre aquilo que emerge quando pisamos em solo desconhecido, o medo ocupa lugar central. É um processo comum, afinal faz parte da espécie humana temer aquilo que não se sabe. Dialoga, inclusive, com o princípio biológico da sobrevivência: para garantir a permanência entre os pares e o bem-estar físico e psicológico, o corpo se mune de provisões, nos dando ferramentas para combater aquilo que pode gerar desestabilização.

O problema reside quando o receio mina as possibilidades de compreensão do que é diferente. Daí para virar ódio e intolerância, é um passo - processo comum em todas as esferas da vida, inclusive na arte. Exemplo recente no País foi a exposição "Queer Museu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira" - com curadoria de Gaudência Fidelis: no ano passado, após quase um mês em cartaz no Santander Cultural, em Porto Alegre, foi cancelada devido a uma onda de protestos nas redes sociais. A maioria se queixava de obras que faziam "apologia à zoofilia e pedofilia" e promoviam "blasfêmia" contra símbolos religiosos. Adriana Varejão, Cândido Portinari e Leonilson eram alguns dos artistas com trabalhos no espaço.

Exatamente para abrir as veredas de entendimento sobre o fazer artístico produzido nos dias atuais - buscando transformar o medo e a intransigência em debate e envolvimento - é que a Mestre em Artes pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e curadora independente Ana Cecília Soares ministra o curso "Arte Contemporânea?" a partir desta quarta (7), das 17h às 20h, na Caixa Cultural Fortaleza. Gratuitos, os encontros acontecem até 15 de agosto (exceto nos dias 12 e 13) e, apesar das vagas já estarem esgotadas, é possível a participação mediante checagem prévia da disponibilidade da sala.

Conforme informa Ana Cecília, o interesse em promover a iniciativa veio a convite de Natália Maranhão, orientadora pedagógica do Projeto Gente Arteira. "Há muito tempo ministro cursos sobre crítica de arte, porém nenhum com uma pegada mais teórica", explica. "Enxerguei o convite, então, como uma possibilidade para discutir a arte contemporânea, um tema infelizmente tão pouco debatido entre as pessoas. A ideia não é dar conta de tudo, mas introduzir o que a gente tem para compreender desse tipo de arte".

Desconstrução

O ponto de interrogação que demarca o título do curso não é à toa. Complexo, o conceito que demarca as práticas da arte contemporânea representa um desafio até mesmo para estudiosos na área. "A arte contemporânea engloba estilos que se agregam, dando vazão a práticas plurais no segmento, tais quais como as conhecemos. Assim, ter uma definição específica para esse termo é contraditório porque o senso de liberdade criativa no meio é enorme", dimensiona a pesquisadora.

É um aspecto que também pode justificar a forte adesão do público ao curso. Já no primeiro dia de inscrições, em 31 de julho, as 40 vagas disponíveis foram esgotadas, o que, na visão de Ana Cecília, sinaliza algo maior. "Além de haver uma carência na cidade de espaços que favoreçam o aprofundamento dessa temática específica, o fato de a arte contemporânea estar sempre convivendo com os indivíduos gera interesse em conhecer que tipo de ações estão sendo realizadas no campo e por que algumas geram uma crescente má compreensão".

Assim, o cerne de trabalho nos sete dias de curso residirá na conversa e intercâmbio de olhares sobre o que é consumido artisticamente na seara de produção contemporânea. Para favorecer o debate, os participantes revisitarão a história da arte, adotando, como ponto de partida, aquilo que vem antes do que se convencionou chamar de pós-modernismo, fase de otimização de processos envolvendo desconstruções em variados setores da sociedade e da cultura.

De acordo com a estudiosa, "partimos daí e vamos aprofundando até entendermos a importância de se discutir esse tipo específico de arte, que traz, a partir da poética dos artistas, um contato maior com a vida e o mundo. Fazendo isso, eles põem em xeque várias categorias que eram fixas até o Modernismo - como o próprio conceito de arte e artista -, permitindo que vários estilos artísticos surjam".

Nesse sentido, assuntos como art pop, arte conceitual, minimalismo, performance e body art serão analisados e postos no centro do debate através de vídeos, diários de campo e outros instrumentos que permitem o acesso à maneira como os artistas inseridos nesse contexto produtivo enxergam e realizam a arte hoje.

Liberdade

Diminuindo a distância entre teoria e prática, Ana Cecília convidou o artista visual cearense Célio Celestino para expôr os métodos de trabalho que explora para compor suas obras, com ênfase na colagem. A motivação para fazê-lo parte do curso, além de permitir a apresentação dos recursos que ele utiliza, é atestar a relevância do processo de criação dos artistas no âmbito da arte contemporânea.

"Em meio ao legado que a arte contemporânea deixa, está a mudança na forma como o artista se coloca na obra e em como o historiador de arte transforma a maneira de encarar a própria arte em si. É um processo que desorganiza tudo, inclusive a forma de interagir, escrever e ler arte. Nesse sentido, a crítica processual vem como uma possibilidade de desenvolver comentários sobre esse tema específico, focando no processo de criação dos artistas", contextualiza Soares.

Reunindo ainda exemplos de nomes e agremiações que fazem com que o fazer artístico atual ganhe intensa repercussão e desafie os limites da criação cultural - como o movimento Acionismo Vienense, que notabilizou-se por utilizar elementos como sangue e secreções para pôr em xeque os limites da arte -, a iniciativa, mediante fala de sua facilitadora, tem um apelo específico.

"Fazer com que o público saia com um pensamento menos armado sobre a arte contemporânea e refletindo sobre o quanto a vida e o cotidiano estão muito próximos desses trabalhos", afirma. "Tirar esse tabu que cerca o meio é pensar feito Mário Pedrosa, que acreditava que a arte é como o exercício experimental da liberdade".

Mais informações:

Curso "Arte Contemporânea?", por Ana Cecília Soares. De 7 a 11 e de 14 a 15 de agosto, das 17h às 20h, na Sala Gente Arteira, na Caixa Cultural Fortaleza (Av. Pessoa Anta, 287, Praia de Iracema). Participação sujeita à disponibilidade no local. Contato: (85) 3453.2770

© Todos os direitos reservados. O conteúdo não pode ser publicado, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização. Passível ação judicial.