Música

Sobre o som das madrugadas solitárias

Ex-integrante da banda cearense Dead Poets, o músico Mário Quinderé surpreende com novo projeto solo

00:00 · 17.03.2015
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O músico e compositor Mário Quinderé, no projeto Fish Magic: bom resultado com o primeiro disco já faz o artista pensar em próximo trabalho
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Sabe aquela pessoa que você não vê há tempos e, de repente, manda notícias inesperadas? Algo como ter se mudado pra Austrália, adotado uma criança, inventado um produto famoso. É mais ou menos a mesma sensação que causa o lançamento, hoje, de "Songs from the night shift", novo disco do jornalista, compositor e músico Mário Quinderé - pelo menos pra quem conhece sua trajetória.

Na década de 90, Mário integrou uma das mais projetadas bandas do cenário alternativo em Fortaleza, a Dead Poets. Além dos vocais e guitarra, também assinava composições para o grupo, cujo som remetia a algumas das melhores referências do pop e do rock oitentista: Echo & The Bunnymen, House Of Love, The Cure, New Order, The Jesus and Mary, My Bloody Valentine, The Stone Roses.

Em 1995 a banda lançou uma fita demo (em K7) autointitulada, distribuída nacionalmente pelo Midsummer Madness. Em 1996, dividiu um CD Split ("No more dancing days") com outro grupo cearense, também destacado, o Velouria. No início dos anos 2000, após mudanças de formação e um último EP ("Stop your heart"), a banda acabou.

Processo

Duas décadas depois, radicado no Rio e trabalhando como jornalista, Mário retoma a parceria com o Midsummer Madness e lançar um disco novinho em folha, em formato digital, disponível a partir de hoje no site do selo (mmrecords.Com.Br) e nas páginas do selo e do próprio artista nas plataformas Bandcamp (midsummermadness.Bandcamp.Com e fishmagic.Bandcamp.Com) e Soundcloud (soundcloud.Com/fishmagic).

"Songs from the night shift" é o primeiro lançamento do projeto Fish Magic, uma "one manband" cujo nome foi tirado de um quadro do pintor suíço Paul Klee (1879/1940). A história toda começou, na verdade, em Fortaleza, há um ano e meio, quando a Dead Poets, numa reunião que comemorava 20 anos da banda, fez um show no Amici's Bar.

"Fazia séculos que eu não subia num palco, gostei do retorno. Aí tivemos a ideia de lançar algo inédito, por conta da efeméride da banda. Acabou não dando certo, mas aquele comichão continuou", brinca Mário. "Comecei a compor de novo, e de maneira mais livre, porque compunha sozinho, pra mim mesmo, e não pra uma banda, como era na Dead Poets. Com as facilidades tecnológicas de hoje a coisa foi tomando corpo".

Esse processo se desenrolou durante parte de 2014, com instrumentos e equipamentos que Mário tem em casa, e em seu tempo livre - que é, basicamente, noturno, daí o nome do disco. "Quando terminei e já tinha o trabalho na cabeça, falei com o Régis (Damasceno, conterrâneo que integrou a Velouria e hoje está à frente do projeto "Mr. Spaceman", além de compor a banda Cidadão Instigado e tocar com nomes como Marcelo Jeneci). Sempre imaginei que o disco teria sua participação. Mandei a demo, ele gostou e, quando fechamos o material, imaginei logo o Rodrigo Lariú (dono do Midsummer), porque ele conhece a gente há muito tempo", completa.

Régis toca todos os baixos do disco e assina a coprodução do. Todos os outros instrumentos ficaram a cargo de Mário - ou melhor, Fish Magic. E ele soube aproveitar bem a situação de "one man band", experimentando possibilidades que até então nunca havia explorado, como flautas, glockenspiel (um tipo de metalofone, algo como uma "percussão metálica") e arranjos eletrônicos.

"Ainda me sinto meio dinossauro com as possibilidades tecnológicas de hoje, de tocar o que quiser e programar tudo. Você consegue experimentar novos timbres. Gravei tudo em casa, foi um processo solitário. Os únicos feedbacks que tinha, além dos do Régis, eram de um pequeno grupo de amigos, aos quais mandava o material", comenta.

O processo caseiro não implica, porém, uma sonoridade rústica ou com arestas - graças à mixagem de Bernardo Pacheco na Fábrica de Sonhos e à masterização de Bruno Fiacadori no estúdio Space Blues, ambos em São Paulo. "A finalização dá o peso que disco precisa", avalia Mário. "Nesse processo o Régis me convenceu que nem os vocais eu precisava regravar".

Faixas

Sobre o disco, se você tem mais de 35 anos e aprecia aquelas referências oitentistas mencionadas, vai achar especialmente interessante - tipo uma "confort food", mas musical. Com oito faixas, quase todas entre dois, três minutos (sempre uma boa escolha), "Songs from the night shift" é uma pequena pérola, pra ser guardada sempre perto nos arquivos digitais.

Sua grande força está nas melodias e na boa combinação de arranjos de cordas (guitarra, baixo) com toques de outros elementos. As referências são claras, mas o disco não soa uma cópia, mantém sua própria personalidade - a despeito da primeira faixa, "In a heartbeat", que traça uma conexão imediata: impossível, nos primeiros acordes de guitarra, não lembrar de New Order (bote "Ceremony" pra tocar e atente).

A voz de Mário é uma grande contribuição, e agrada principalmente nos graves, como na solar "Pristine", que reforça o talento do autor para a melodia (e para a letra, em versinhos como "last night when we were young/ all the stars were stepping stones"). Forte candidata ao repeat. O fato de cantar bem em inglês também ajuda - previne aquele tipo de sotaque que incomoda.

Em "The high hand" os vocais ganham efeitos bem vindos e as guitarras, especialmente no refrão, soam meio anos 90. "Moonrunner" resgata aquela parcela de drama e amor juvenil que resiste em todos nós (par ao bem e para o mal): "it's the first time here/ and she's gonna tear your world apart".

"Where the summer nights go blue" traz uma pitadinha ligeira de country (no violão e na guitarra) e um baixo meio blueseado. Boa surpresa. "Seasons of wonder" revela arranjos bonitos de cordas, que lembram violinos e fazem a canção ganhar força.

Mas é em "All for nothing" que está o melhor da criatividade de Mário, que entrega uma releitura climática de uma emblemática canção da Velouria - minimalista, com um piano dramático e arranjos de sonoridade sintética. È mais lenta e mais robusta que a original.

Pra encerrar o disco, a escolha não poderia ter sido melhor: "Ether" é lindinha, com detalhes na percussão (que lembram um bongô) e outro que lembra uma escaleta, além da doce voz da cantora Bárbara Eugênia, numa colaboração que resulta em ótimo dueto. Essa faixa, em especial, faz jus ao título, com um clima noturno, de madrugadas; não sombrio, mas intimista.

Em breve, o disco deve ser lançado no iTunes e em plataformas de streaming, como Deezer e Rdio.

Disco

Songs from the night shift
Mário Quinderé

Midsummer Madness
8 faixas, 2015
Download gratuito em mmrecords.com.br

Adriana Martins
Repórter

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